Com um atraso que até dói, aqui fica o resumo da discussão de Os Jardins da Memória (lembram-se? Aquele livro que lemos há tanto tempo?...) Enfim, mais vale tarde que nunca!
Mais uma vez, Os Jardins da Memória, de Orhan Pamuk, não reuniram consenso entre as leitoras do Chá de Letras. A maior parte teve dificuldade em acabar o livro, seja pela sua extensão, seja pela densidade do texto, que obrigava a uma leitura continuada e atenta.
A razão para a escolha deste romance como leitura do mês havia sido vontade de alargar o âmbito do clube a romances provenientes de outras culturas distintas. De facto, Pamuk, frequentemente comparado com Proust, é o romancista turco mais galardoado a nível nacional e internacional e que alegadamente fará a ponte entre o Ocidente e o Oriente, a modernidade e a tradição, o passado e o futuro. Neste aspecto, todas as leitoras foram unânimes em reconhecer que o faz de forma primorosa, e que a “mais valia” retirada da sua leitura terá sido um maior contacto com uma cultura tão diferente e tão complexa, e com a qual necessariamente teremos que criar laços, a concretizar-se a entrada da Turquia na União Europeia.
Foi, aliás, esse o tema, lateral à narrativa, que mais discussão suscitou durante a reunião. A questão mais premente foi a possibilidade de manutenção da cultura turca após a adesão à UE. A rigidez das normas comunitárias no que diz respeito, por exemplo, à uniformização dos produtos agrícolas, ou a normas de sanidade, colocará em risco instituições turcas tão importantes como, por exemplo, os mercados, onde reina um esfusiante caos e onde são típicas “as moscas na carne”, o exemplo que nos lembrámos para simbolizar essa incompatibilidade com as normas comunitárias de sanidade. Discutimos até que ponto é que será de perpetuar essas “moscas na carne” ou se certos hábitos culturais não serão mesmo de banir. Fazendo a transposição para o espaço português, foi também discutido o costume da matança do porco, enquanto evento familiar e festivo, e como foi proibido por uma questão sanitária. Estas questões levaram-nos a discutir uma atitude de relativização cultural que leva à desculpabilização de certas práticas como o ostracismo a que são votadas as mulheres, a obrigatoriedade de usar véu ou burka, práticas de amputação sexual, ou outro tipo de costumes que violam os direitos humanos, com o argumento que são parte de uma cultura ancestral a ser preservada a qualquer custo. Distanciámo-nos desta atitude, na medida em que, antes de quaisquer valores culturais específicos de cada povo deverão ser considerados os valores universais que têm a ver com os direitos de cada ser humano à sua dignidade e integridade física e mental.
Por outro lado, também foi lançado o argumento que, partindo do princípio que a União Europeia é um espaço de multiplicidade cultural, e que essa multiplicidade deve ser respeitada e defendida, então talvez seja benéfico que integre também um país islâmico e com uma vertente cultural marcadamente oriental, criando uma oportunidade para que a bipolaridade que vem sendo construída ao longo dos últimos anos, acentuada pelas duas Guerras do Golfo e pela catástrofe do 11 de Setembro, seja atenuada pelo exemplo de convivência num mesmo espaço político e económico que constitui a União Europeia.
No que diz respeito mais concretamente ao livro, as leitoras gostaram particularmente das crónicas escritas supostamente por Djélâl, como a crónica sobre os manequins, com a ideia subjacente da possibilidade da existência de uma sociedade subterrânea, secreta, que se estende ao longo da cidade; a crónica sobre a invasão o desaparecimento das águas do Bósforo, e de todos os dejectos da sociedade que passariam a estar visíveis no seu leito lamacento; ou ainda a crónica sobre a loja de Alladine, que tanto nos faz lembrar as lojecas que havia antigamente em Portugal nas terras mais pequenas onde se podia comprar de tudo e onde toda a espécie de artigos convivia numa alegre confusão.
As crónicas foram consideradas talvez a parte mais interessante do livro, embora, pela sua profusão (cada capítulo de narrativa intercala com uma crónica), tenham sido consideradas por algumas leitoras (incluo-me no grupo) como um entrave à fluidez da leitura. Talvez também pela variedade de temas que encerram as tenhamos considerado excessivas. Por mim, senti muitas vezes que o livro procura albergar demasiados pormenores, demasiados pontos de vista. Talvez tenha sido nesta perspectiva que a Rita afirmou que o livro tinha tudo para ser fascinante, mas que havia algo que falhava. Utilizando uma metáfora culinária, achei que parecia um prato confeccionado com tantos ingredientes, tantos condimentos, que se torna impossível apreciar adequadamente o sabor de cada alimento (logo eu, grande apreciadora da simplicidade e ascetismo da cozinha japonesa…). A meu ver, as crónicas dariam uma leitura semanal deliciosa, mas condensadas num só livro, tornam-se um tanto indigestas. Estejam perfeitamente à vontade para discordar!
Todas nos interrogámos sobre as possíveis interpretações para o facto de todas as personagens principais escreverem com esferográficas de tinta verde. Imediatamente nos veio à ideia a noção do verde enquanto símbolo de esperança. Pensámos, contudo, que poderia ter um qualquer outro significado na cultura turca. Procurei posteriormente em todos os meus dicionários de símbolos, e embora não tenha encontrado nada específico em relação À cultura turca, um dos dicionários referia a importância do verde para o islamismo:
(…) “Verde permaneceu, para os cristãos, a Esperança, virtude teologal. Mas o cristianismo desenvolveu-se em climas temperados, onde a água e a verdura se tornaram banais. O contrário se passa no caso do islamismo, cujas tradições se criaram como miragens, acima da imensidão hostil e ardente dos desertos. A bandeira do Islão é verde; e esta cor constitui para o muçulmano o emblema da Salvação, e o símbolo de todas as maiores riquezas, materiais e espirituais, de que a primeira é a família: verde era, dizem, o manto do enviado de Deus, sob o qual os seus descendentes directos – Fátima, a sua filha, Ali o seu genro, e os seus dois filhos Assan e Hussein – vinham refugiar-se na hora do perigo, razão pela qual lhes chamam ‘os quatro debaixo do manto’: os quatro, isto é, também, os quatro pilares sobre os quais Maomé construiu a sua igreja. (…)
No Islão, o verde é ainda a cor do conhecimento, bem como a do Profeta. Os santos, na sua morada paradisíaca, estão vestidos de verde.” In Chevalier, Jean e Alain Gheerbrant, Dicionário dos Símbolos, Lisboa: Teorema, 1994, p. 683.
Á luz desta explicação, penso que poderemos interpretar essa obsessão com a escrita a verde como mais uma tentativa de manter viva a tradição.
Mais uma vez, deparámo-nos com um livro que se debruça sobre o acto da escrita, a criação literária. Tem sido uma constante nas nossas leituras. Pensamos que se trata, de certa forma, de uma tendência de moda, tal como há uns anos atrás, como dizia a Ana Lúcia com muita graça, eram constantes as referências à homosexualidade. Ainda assim, congratulámo-nos com mais uma perspectiva sobre o, ainda assim, misterioso acto da criação artística.
Apesar de não conhecermos o original, pareceu-nos justo atribuir algumas das incongruências linguísticas à tradução. Eu já havia lido duras críticas às traduções inglesas da obra, e não temos como saber se esta foi traduzida do turco ou de uma outra versão traduzida. Percebemos, por exemplo, que o título não foi minimamente respeitado. Com a ajuda de um pequeno guia da Turquia, percebemos que o título em turco seria “O Livro Negro”, como aliás foi chamado na versão em inglês (The Black Book). E, apesar de, antes de ter iniciado a leitura, considerar o título muito bonito e sugestivo, foi uma das coisas que me foi irritando à medida que avançava na leitura: surgia constantemente mencionada a expressão “jardins da memória” e senti que não havia necessidade de explicar o título de forma tão óbvia. Afinal parece que foi uma liberdade do tradutor, ou da editora.
Gostámos todas particularmente das epígrafes escolhidas para o início de cada capítulo e tomam um especial significado a partir do momento em que a epígrafe do primeiro capítulo é: “Não useis a epígrafe, porque mata o mistério da obra!” seguida de outra que diz: “Se assim deve perecer, só tens que matar o segredo e também o falso profeta que vende o segredo”. Pelo facto de usar e abusar delas, quererá talvez demonstrar que a obra sobrevive para lá do mistério, e para lá do seu autor.
Numa segunda fase da discussão do livro, fizemos uma ronda de opiniões que se revelou bastante profícua. Vou referir apenas algumas das opiniões (aquelas de que ainda me lembro…) A Ana afirmou que gostou particularmente de ver tratado o tema da identidade. Queixou-se de uma certa “overdose” de informação mas realçou a criatividade das crónicas.
A Jennifer considerou a sua experiência de leitura, de uma forma geral, bastante positiva, e destacou a perspectiva diferente da que estamos habituados de lidar com a questão Ocidente/Oriente. A questão é abordada sem a normal atitude paternalista que os ocidentais têm em relação a outras culturas que tendem a ver como folclore. A esse propósito referimos ainda que nos parecia de alguma forma estar inferido no discurso um certo complexo de inferioridade, o discurso do vencido – o Oriente – apesar de surgir aqui e ali a referência ao peso histórico do império otomomano.
A Isabel referiu a dificuldade em avançar na leitura pela estranheza dos nomes das personagens, para os quais não temos referente, e também a dificuldade em compreender algumas referências culturais.
A Ana Lúcia, a leitora que manifestou ter gostado mais deste livro, teve uma intervenção muito interessante em que, de uma forma sucinta fez uma apologia do livro como a voz de um povo e de uma cultura que costuma ser silenciada mas que teve um impacto tremendo na formação da nossa própria cultura. Segundo a Ana Lúcia, o livro constitui um mau presságio para a cultura turca, na medida em que aqueles que a defendem acabam por morrer. Em relação à densidade do livro, a Ana Lúcia vê-a com o reflexo da densidade do próprio país – onde cada “pedra” contém uma infinidade de informação. Relembrou ainda que as origens da filosofia estão naquele que é actualmente território turco, então uma colónia grega.
A Rosária admitiu que lhe custou a entrar na história e que talvez o livro lhe tivesse dito muito mais se já estivesse estado na Turquia, o que ajudaria a identificar muitos mais aspectos. Realçou a intensidade do livro o facto de ser muito visual. Agradou-lhe particularmente a noção de família, simbolizada por aquele prédio onde co-habitava a família descrita na obra e onde se desenrola grande parte da acção.
No geral, todas reconhecemos que ganhámos algo com a leitura deste livro, uma outra perspectiva sobre assuntos tão actuais como o choque civilizacional entre o Ocidente e o Oriente. A discussão foi, desta vez, particularmente animada.
domingo, 26 de junho de 2005
segunda-feira, 13 de junho de 2005
Eugénio de Andrade (1923-2005)
Estou contente, não devo nada à vida,
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim
o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou,
também colheu, e até
alguma coisa dissipou, o pobre,
pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou-me estender
debaixo da figueira, aquela
que vi exasperada e só, há muitos anos:
pertenço à mesma raça.
Eugénio de Andrade (1923-2005)
in "Branco no Branco", 1984
Para sempre entre nós.
sábado, 7 de maio de 2005

A última imagem de "Himmelfilm: How were the skies like when you were Young?" - o céu visto debaixo de água. 
Acabei de ver uma belíssima curta metragem, no âmbito da extensão do Festival Indie Lisboa. Chama-se "Himmelfilm: How were the skies like when you were young?". São 15 minutos de imagens muito bonitas, filmadas nos quatro cantos do mundo, e do depoimento em voz off de cerca de uma dúzia de pessoas de várias nacionalidades em que cada um fala sobre o que significou e significa para eles o céu. Surgem as mais variadas perspectivas, desde uma pessoa da Somália, para quem o céu sempre significou a ténue esperança de chuva e, consequentemente, de vida para as suas paisagens áridas, a uma mulher da Croácia, que relembra o primeiro dia de guerra, e como o significado de céu mudou drasticamente, passando a constituir o perigo de um ataque aéreo. O alemão (era o Wim Wenders) declarou que sempre tinha sentido uma angústia enorme perante o conceito de céu, porque lhe era impossível conceber a ideia de infinito. Por outro lado, uma outra mulher encara o céu como aquilo que todos temos em comum, sendo que, por muito diferentes que sejamos, estamos todos sob o mesmo céu, enorme, envolvente.
Enfim, deixou-me a pensar. Já agora, o que foi e o que é para vocês o céu?
Aqui fica o pequeno texto de apresentação do filme:
"Himmelfilm: How were the skies like when you were young?"
Most people look immediately out of the window and start to dream, searching between tall buildings for a piece of sky. We collected sounds. Voices from all over the world. Memories from people of their childhood, their home, their sky. Everyone has their own childhood sky. Their own memories, forgotten corners, childhood lairs. Faded and pale like an old color photo from long lost days. Or vivid with color, if you dream yourself away.
And of course the sky is blue. The same everywhere? Always there.
segunda-feira, 2 de maio de 2005
Uma das experiências mais agradáveis do meu fim de semana lisboeta foi um preguiçoso brunch à beira Tejo, na esplanada de uma delicatessen recentemente inaugurada. Uma delícia!
Aqui fica o texto promocional para aguçar o apetite e a curiosidade:
Mercearia Deli Delux
Já era tempo de criar um conceito destes em Lisboa. Deli Delux tem uma irresistível selecção de cogumelos frescos e secos, legumes escolhidos a dedo, frutos exóticos, azeites premiados, molhos italianos, chás, cafés, chocolates exclusivos, caviar, parmesão vintage ou o sublime tallegio... os enchidos, a secção de flores frescas, a extensa garrafeira... Uf! de cortar a respiração! Uma verdadeira enciclopédia de produtos de mercearia e charcutaria . Os mais relaxados podem optar pelo cantinho da cafetaria que tem uma esplanada literalmente geminada com o Tejo , ideal para um fim-de-tarde acompanhado de umas tábuas de queijos e enchidos servidos com um copo de vinho, pão e tostas, ou talvez a versão brunch ao fim -de-semana. Uma tentação!
Mais informações em: www.delidelux.pt
sábado, 30 de abril de 2005
Ontem fui ouvir o Paul Auster. Foi uma agradável surpresa o elevadíssimo interesse do público pelo evento. Quando lá chegámos, por volta das 8:30, 8:40, já uma fila monstruosa quase rodeava o edifício. Persistimos, sempre na contigência de "morrer na praia" e acabarem-se os bilhetes algures à nossa frente. Estava inicialmente previsto para a sala 2 mas acabou por encher todo o grande auditório e, consta que ainda muita gente assistiu à conversa no foyeur, através de ecrãs. Estava curiosa para conhecer o autor mas, devo reconhecê-lo, algo receosa que me desiludisse o homem e me toldasse o prazer da leitura dos seus livros. Afinal esse medo era infundado. Gostei da personagem, o típico nova iorquino, vestido de escuro, algo lacónico, uma voz grave e musical (tão bonita como a sua escrita, diz a Angela). Começou por ler alguns excertos do "Oracle Night", intercalados pela leitura dos mesmos na tradução portuguesa pela escritora Luísa Costa Gomes, pelos vistos uma das grandes amigas portuguesas de Paul Auster (o outro é o produtor, distribuidor e exibidor de cinema Paulo Branco).
Seguiram-se perguntas do público respondidas por ele. Foi interessante, não houve perguntas idiotas, toda a gente se safou lindamente em inglês, e ele foi respondendo, umas vezes de forma mais lacónica do que outras. Foi colocada a questão que algumas de vocês me tinham pedido para fazer: se ele não pretendia algum dia dar um seguimento à história de Sidney Orr e tirá-lo da cave onde ficou encerrado. Respondeu que não, que essa história estava terminada, que ele próprio era um escritor muito diferente do Sidney, e que se este tinha terminado a sua existência fechado na cave era um problema dele e não do Paul Auster.
Outro interveniente colocou-lhe uma pergunta bastante elaborada e que, resumidamente, se tratava de saber se Paul Auster se considerava um escritor existencialista ou pós-modernista. Foi divertido, porque ficou um pouco engasgado com a pergunta. Admitiu com humor não saber o que é um pós-modernista (e quem sabe?...) e acabou por definir os seus romances como "moral adventure stories", classificação que achei muito curiosa.
Uma senhora, com a humildade que costuma caracterizar-nos (na qual me reconheço), simplesmente agradeceu a Paul Auster pelo prazer que os seus livros lhe tinham proporcionado. Foi um momento bonito e que deu azo talvez à mais mais sentida e sensível resposta do autor. Disse Paul Auster que um romance constitui o único sítio onde dois estranhos (escritor e leitor) se podem encontrar de forma absolutamente íntima ("a novel is the only place where two strangers can meet on absolutely intimate terms."). E ainda que o que mais o fascinava na sua profissão de escrever livros era um sentido interno de comunicação com outra alma ("an internal sense of communication with another soul"). Isto porque considera que um livro constitui sempre um acto íntimo de comunicação entre duas pessoas específicas, autor e leitor. Por muitos milhares de pessoas que leiam um livro, em cada acto isolado de leitura, os intervenientes nesse processo de comunicação são sempre e apenas dois ("one person reading another person's words").
E, by the way, sim, está bastante mais envelhecido do que na fotografia que surge nas contracapas dos seus livros há decadas, mas ainda assim um senhor muito distinto para os seus 57 ou 58 anos!
sexta-feira, 29 de abril de 2005
A Ana enviou-nos um interessantíssimo artigo sobre a autora e obra que estamos a ler de momento:
A alma histórica em Cassandra de Christa Wolf
Sílvia Caldeira
Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesa
Nascida em 1929 dentro do antigo império alemão, em Warthe, na actual Polónia, Christa Wolf cresce sob a ameaça político- extremista nazi e, ao contrário do que seria de esperar pelo regime, torna-se escritora independente, transformando-se no olhar frio e realista que revela o clima de guerra e o clima social repressivo da antiga RDA. Será esta luz mórbida nazi que dará temática aos três primeiros romances desta escritora: Der Geteile Himmel (1963), Nachdenken uber Christa T.(1969) e Kindheitsmuster (1976).
Em Der Geteile Himmel é-nos exposta a dolorosa divisão interna dos alemães; em Nachdenken uber Christa T. e Kindheitsmuster revela-nos os últimos anos da Segunda Guerra Mundial e a fase inicial da RDA. Em toda a obra de Christa Wolf estará sempre presente o brasão de quem viu e viveu no ambiente sufocante e ameaçador da RDA, no entanto, com Kassandra (1983), Christa Wolf inaugura uma visão ideológico-estrutural reformulada e já muito mais ponderada: a miscigenação do mito e da literatura, do mito e da realidade, para transmitir o eterno reviver da dor da guerra, e quem melhor do que a profetisa condenada a não ser acreditada para o explicar?
Foi com a Guerra de Tróia que pela primeira vez se uniu mito e literatura com realidade e foi esta fatídica guerra que serviu de tema às primeiras obras tradição ocidental, os Poemas Homéricos. Contudo, o que o aedo homérico nos transmite é o ideal heróico daqueles que caem no campo de batalha, o defender másculo da honra e da dignidade, a sede feroz de sangue e de glória dos guerreiros. O que Christa Wolf oferece ao mundo com Kassandra é a visão feminina da guerra, o relato na primeira pessoa de uma das mais importantes princesas de Tróia: a sacerdotisa de Apolo. Cassandra, que no momento derradeiro da sua vida conta a sua experiência da guerra, é a metáfora de todas as mulheres que viveram e das que provavelmente irão viver esse clima aterrador onde pelo seu sexo, considerado fraco, não combatendo a frente inimiga, mas procurando assegurar a estabilidade mínima da sua pátria e acabam sendo humilhadas, insultadas, comandadas como se não soubessem pensar por si, violadas, assassinadas ou abandonadas na vida com uma criança no seio daquele que a violou.
Sob esta visão solitária de uma mulher sobre o seu mundo, Christa Wolf faz renascer com Kassandra o antigo mito grego para nos permitir “medir-nos a nós mesmos”, reconhecermo-nos uns aos outros na “alma histórica”, na alma do mundo. Tendo particular intenção de fazer coincidir o drama de Cassandra com o contexto espiritual alemão, Christa Wolf deixa no ar aquela pergunta que o coração não deixou escrever, mas a mente vislumbrou: estarão todas as mulheres condenadas por um deus impassível a serem-lhe submissas sob a ameaça de jamais serem acreditadas? Será este um castigo vigente só em tempo de guerra? Até onde terá de ir a submissão feminina? Estas são perguntas que a escritora não escreve mas deixa na mente do leitor.
terça-feira, 26 de abril de 2005
Penso que para compreender a “Cassandra” da Christa Wolf convém ter algum conhecimento sobre o mito da Cassandra. Assim, transcrevo aqui a respectiva entrada do meu dicionário de mitologia grega:
Cassandra é filha de Príamo e de Hécuba, e irmã gémea de Heleno. Quando eles nasceram, Príamo e Hécuba deram uma festa no templo de Apolo Timbreu, situado fora de portas, a uma certa distância de Tróia. À tarde, partiram, esquecendo-se das crianças, que passaram a noite no santuário. Na manhã do dia seguinte, quando foram procurá-las, encontraram-nas a dormir, enquanto duas serpentes lhe passavam a língua pelos órgãos dos sentidos, para os “purificar”. Assustados com os gritos dos pais, os animais afastaram-se para os loureiros sagrados que ali havia. Posteriormente, as crianças revelaram o dom da profecia, que lhes tinha sido comunicado pela “purificação” das serpentes.
Outra lenda conta como Cassandra obteve do próprio Apolo o dom da profecia. O deus, enamorado dela, tinha-lhe prometido que lhe ensinaria a adivinhar o futuro, se ela cedesse aos seus desejos. Cassandra aceitou a proposta e recebeu as lições do deus, mas, uma vez ensinada, esquivou-se. Então, Apolo cuspiu-lhe na boca, retirando-lhe, não o dom da profecia, mas sim o da persuasão.
Conta-se, geralmente, que Cassandra era uma profetiza “inspirada”, como a Pítia ou a Sibila. O deus apossava-se dela e ela, em delírio, proferia os seus oráculos. Heleno, pelo contrário, interpretava o futuro pelo meio das aves e de sinais exteriores.
Mencionam-se profecias de Cassandra em cada um dos momentos importantes da história de Tróia: aquando da vinda de Páris, ela predisse que o jovem (que então ainda não era conhecido pela sua verdadeira identidade) havia de trazer a ruína à cidade. Estava Cassandra quase a conseguir que ele fosse executado, quando reconheceu que era filho de Príamo, o que lhe salvou a vida. Mais tarde, quando Páris regressou a Tróia com Helena, ela predisse que este rapto provocaria a perda da cidade. Mas ninguém acreditou nela, como sempre acontecia. Foi ela a primeira a saber, após a morte de Heitor e a embaixada de Príamo a Aquiles, que Príamo voltava com o corpo do filho. Cassandra, apoiada pelo divino Laocoonte, opôs-se com todas as forças à proposta de introduzir na cidade o cavalo de madeira que os Gregos tinham deixado na praia quando fingiram partir, dizendo que esse cavalo estava cheio de guerreiros armados. Mas Apolo enviou serpentes que devoraram Laocoonte e seus filhos, e ninguém fez caso da advertência de Cassandra. Atribui-se-lhe também um certo número de profecias acerca da sorte que esperava os troianos feitos prisioneiros após a queda da cidade e acerca do futuro destino da raça de Eneias.
Durante o saque de Tróia, refugiou-se no templo de Atena, onde foi perseguida por Ájax Locrense. Cassandra agarrou-se à estátua da deusa, mas Ájax arrancou-a de lá, fazendo oscilar a estátua na peanha, enquanto ela erguia os olhos ao céu. Perante tal sacrilégio, os Gregos prepararam-se para lapidar Ájax, mas ele escapa, refugiando-se no altar da deusa que acaba de ofender.
Na distribuição do saque, Cassandra foi dada a Agamémnon, que se deixou tomar de um amor violento por ela. Cassandra tinha permanecido virgem até então, embora não lhe tivessem faltado pretendentes, nomeadamente Otrioneu, o qual prometera a Príamo livrá-lo dos Gregos se, depois da vitória, lhe desse em recompensa a mão de sua filha. Mas Otrioneu foi morto por Idomeneu.
Cassandra teria dado a Agamémnon dois gémeos, Telédamo e Pélops. Ao regressar a Micenas, Agamémnon foi assassinado pela mulher, que ao mesmo tempo matou Cassandra, de quem tinha ciúmes. Em certas versões do assassínio de Agamémnon, a única causa da sua morte é o amor que ele tem por Cassandra.
In Pierre Grimal, “Dicionário da Mitologia Grega e Romana”, Lisboa: Difel, 1992, pp. 76-7
segunda-feira, 25 de abril de 2005
Aqui vai um link onde se pode consultar as personagens da Guerra de Troia.
http://www.filonet.pro.br/troia/personagens.htm
Boas leituras!
terça-feira, 12 de abril de 2005
Enquanto não chega o resumo da discussão de "Os Jardins da Memória", de Orhan Pamuk, discussão essa aliás bastante animada e produtiva, aqui ficam as propostas de livro para a próxima discussão:
Cristina:
"Cassandra", da Christa Wolf
Cassandra, filha do Rei de Tróia, tem o dom da profecia, mas carrega a maldição de nunca ninguém acreditar nela. Depois da queda de Tróia, numa corrente de memórias, associações, reflexões ela chega a compreender a sua própria vida e a guerra. Esta obra é uma recriação do mito clássico.
"Birdsong" / "O Canto dos Pássaros", de Sebastian Faulks
Aplaudida pela crítica e pelos leitores internacionais, este intensa obra romântica embora simultaneamente realista, atravessa três gerações e o inimaginável fosso entre a I Guerra Mundial e o presente. À medida que o jovem inglês Stephen Wraysford vive um tempestuoso romance com Isabelle Azaire, em França, e entre no obscuro e surreal mundo existente por baixo das trincheiras da Terra de Ninguém, Sebastian Faulks cria um mundo fictício que é tão trágico como O Adeus às Armas, de Hemingway e tão sensual como O Paciente Inglês.
Ana:
"Sputnik, Meu Amor", de Haruki Murakami
O narrador, um jovem professor primário, está apaixonado por Sumire, uma rebelde que conheceu na universidade. Um dia, num casamento, Sumire conhece Miu, uma mulher fascinante e misteriosa, de meia-idade, por quem se apaixona loucamente, acabando por se transformar na sua secretária. Partem para a Europa, numa busca que as empurra para uma estranha e mútua descoberta, e também para um desenlace assombrado. Ensaio sobre o desejo humano e a especulação sobre o destino, o livro de Haruki Murakami é um exuberante exemplo da arte de um dos mais importantes escritores do Japão contemporâneo.
Jennifer:
"Ravelstein", de Saul Bellow
(...) profundamente humano e sempre comovente, Ravelstein, o mais recente romance de Saul Bellow, é uma viagem através do amor e da memória. É um livro corajoso, sombrio e desoladamente divertido: uma elegia à amizade e às vidas bem (ou mal) vividas.
Ana Lúcia:
"A Misteriosa Chama da Rainha Loana", de Umberto Eco
Yambo, um abastado alfarrabista de Milão na casa dos sessenta, perdeu a memória após um AVC - lembra-se do enredo de cada livro que leu, de cada linha de poesia, mas não se lembra do próprio nome, não reconhece as próprias filhas ou qualquer momento da sua infância ou da sua família. Numa tentativa de recuperação de si próprio, Yambo aceita a sugestão da mulher de voltar à casa de campo da sua infância, onde descobre livros, álbuns de banda desenhada, revistas, discos de outros tempos, religiosamente guardados pelo avô já falecido, e começa uma viagem em busca do tempo perdido, povoado de imagens e personagens ora fictícios, ora reais, mas todos importantes para a redescoberta de si próprio.Assim, Yambo acaba por reviver a história da sua vida: de Mussolini à educação católica, de Josephine Baker a Flash Gordon ou Fred Astaire. (...) Nesta luta para recuperar a memória, Yambo só procura uma única e simples imagem: a imagem do seu primeiro amor.
"O Sétimo Herói", de João Aguiar
Jorge tem 18 anos, óculos, um estranho gosto pela leitura e uma grande timidez natural que se manifesta, sobretudo, perante as raparigas. Ele e dois amigos formam o Clube dos Poetas Semi-Vivos, cuja bebida sagrada é o ginger ale. Sem limão. Nada fazia prever que Jorge fosse empurrado para um mundo fantástico, onde ninguém usava óculos. E que nesse mundo tivesse de enfrentar enormes riscos, lutar com espada, com adaga, com lança, com o cérebro. Nada fazia prever que se transformasse num herói, coisa que jamais lhe passara pela cabeça. No entanto, isso aconteceu – e aconteceu porque o espreitavam três pares de olhinhos verdes...
Rita:
"Portugal, hoje: O Medo de Existir", de José Gil
"(...) Enfim, contrariamente ao que pode parecer, nenhum pressuposto catastrofista ou optimista quanto ao futuro do nosso país subjaz ao breve escrito agora publicado. Se não se falou "no que há de bom", em Portugal, foi apenas porque se deu relevo ao que impede a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade. Seria mais interessante, sem dúvida, mas também muito mais difícil, descobrir as linhas de fuga que em certas zonas da cultura e do pensamento já se desenham para que tal aconteça. Procurou-se dizer o que é, sem estados de alma, mas com a intensidade que uma relação com este país supõe." (Das Notas Finais)
Novamente a escolha foi difícil, pois apetece ler todos, mas após um empate técnico entre "Cassandra" e "A Misteriosa Chama da Rainha Loana" acabou por vencer "Cassandra", de Christa Wolf, talvez a mais conceituada escritora alemã da actualidade.
Colocarei também em breve aqui no blog um texto do meu dicionário de mitologia greco-romana, com informações sobre o mito de Cassandra. Na medida em que, de acordo com o que já me foi possível averiguar, a narrativa da Christa Wolf não é linear, e também por se tratar de uma recriação do mito, será importante que tenhamos alguma noção sobre ele. Para breve, num blog perto de si!
domingo, 10 de abril de 2005
A propósito de um dos autores já lidos no clube de leitura, aqui fica uma nota sobre a programação deste mês da Culturgest:
À Conversa com Paul Auster
Paul Auster – cujo romance mais recente, A Noite do Oráculo, foi há pouco publicado entre nós – vem a Lisboa por ocasião da saída, em nova tradução, do seu romance (de 1990) A Música do Acaso. É uma oportunidade única para ouvir falar de si e dos seus livros, de o escutar em algumas leituras, de decifrar talvez o mistério desse caderno azul de fabrico português que o escritor Sidney Orr (protagonista de A Noite do Oráculo) compra ao chinês M.R. Chang na papelaria “Paper Palace” de Nova Iorque... Um encontro a não perder, com um dos maiores romancistas contemporâneos.
Conversas
29 de Abril
21h30
Sala 2
Entrada Gratuita
Levantamento de senha de acesso, 30 minutos antes do início da sessão, no limite dos lugares disponíveis
Uma colaboração Edições ASA / Culturgest
quinta-feira, 7 de abril de 2005
sexta-feira, 1 de abril de 2005
sexta-feira, 4 de março de 2005
Sören Kierkegaard (1813-1855) foi o primeiro filósofo a colocar a existência no centro da reflexão filosófica. Defendia que a verdadeira dimensão do ser humano é a realidade concreta, particular, singular e única:a sua própria existência. Esta é caracterizada pela liberdade, pela escolha, pela alternativa e pela paixão, pela vivência intensa e apaixonada do instante.
por achar que era merecida uma notinha sobre a figura....
Boas leituras,
Ana
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005
Isto de andar mergulhada em utopias faz com que de vez em quanto se encontrem ideias muito interessantes:
"Se pudesse desejar algo, não desejaria riqueza nem poder, mas a paixão da possibilidade; desejaria um olho, eternamente jovem, eternamente ardente, que vê a possibilidade em todo o lado. O prazer desaponta, a possibilidade não."
Soren Kirkegaard
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005
PORTRAIT OF A WRITER
ORHAN PAMUK
Essay by Murat Belge
"... I end up recalling some other story in which the only way to be oneself is by becoming another or by losing one's way in another's tales; and the tales I want to put together in the black book remind me of a third or forth tale just like our love stories and memory gardens that open into one another ..."
"After all, nothing can be as astounding as life. Except for writing. Except for writing. Yes, of course, except for writing, the sole consolation."
Orhan Pamuk, The Black Book
What distinguishes Orhan Pamuk from most other Turkish writers is that for him the activity of writing is a mode of existence. By this I do not mean to say that Orhan Pamuk is more committed to the vocation than others. It is not so much a matter of the degree of commitment, but rather the form of it -his way of defining, limiting and specifying himself as "a writer", first and foremost. For most writers writing is self-expression, a passion usually, a gesture to cope with life and reality and an effort to produce meaning. For Orhan Pamuk these and other motivations may also be relevant, yet for him writing is a job, a career. His relationship to writing is cool, cerebral, and impassionate. It is an objective predicament that becomes identical with, and directs personal life, preferences, choices, etc.
His career as a writer does not limit his interests in various walks of life but delimits or structures his way of involvement in them. He is Orhan Pamuk, the writer, the novelist and not simply Orhan Pamuk, the individual, when he deals with, or ponders on a historical, political, social, aesthetic or merely existential question.
The publication of Cevdet Bey and His Sons in 1982 marks the beginning of his career. This was an almost naturalist novel, a dry and detailed (sometimes to the point of getting dull) family saga in the good old realist tradition. It was followed by The Silent House in 1983 where Orhan Pamuk had shifted to the "point of view" technique. We had to make up our own picture of what was happening through the internal monologues of a number of characters whose psycho-sociological formations were carefully studied by the author. The White Castle (1985) was erected on terrain already highly "post-modernized", but here the writer was re-constructing the ways of thinking of people who lived in a past age. The Black Book (1990) and New Life (1994) are clearly in the post-modern tradition of novel-writing. They are, in the words of Frederic Jameson, "national political allegories", in the sense that they present a general and historical vision of the society to which Orhan Pamuk belongs; but in form and technique they possess the entire arsenal of the post-modern novel born in the West.
So, the avatars through which the Orhan Pamuk Novel has progressed form a whole that looks like "A Condensed History of the Development of the Novel Form". Being the man of literature par excellence, his biography as a novelist is shaped in line with the history of the novel in general, his overall career, as well as his individual works, makes references to the world of literature.
Orhan Pamuk has been an innovator in the context of the Turkish novel in many ways, but I would like to dwell on one -very basic- trait of his work. He has introduced what I can call an architectural principle into Turkish fiction. His novels resemble meticulously constructed edifices where the elements are all functionally interdependent. They support and reflect one another, comment on and modify each other in an impeccable order. Nothing sags, no single piece of stone is laid haphazardly or without structural purpose. The overall plan of the book provides an explanation for every component.
Whereas for most writers a novel begins to grow and to take life during the process of writing, this process for Orhan Pamuk is merely the stage execution of the already highly perfected design. Rather than trying to create the illusion that art is life, he prefers to emphasize the novel's mode of existence -and its insertion into life- as an artifact, a product of the human mind, a response of the human intelligence, seeking meaning in order, to the challenge of life with its neutral complexity, infinity and chaos.
domingo, 13 de fevereiro de 2005
Desta vez, a escolha do próximo livro foi bastante difícil, pela qualidade das sugestões que foram feitas:
- “Ana Karenine”, de Leo Tolstoi
- “Os linhos da avó”, de Rosa Lobato Faria
- “O amante do vulcão”, de Susan Sontag
- “Inês de Castro”, de uma autora espanhola
- “Jerusalém”, de Gonçalo m. Tavares
- “Chovem cabelos na fotografia”, de Antonieta Preto
- “As lições dos mestres”, de George Steiner
- “Alegria breve”, de Vergílio Ferreira
- “O vermelho e o negro”, de Stendhal
- “Os jardins da memória”, de Orhan Pamuk
- “Amigos até ao fim”, de John le Carré
Discussão de "Eu hei-de amar uma pedra", de António Lobo Antunes
Como já seria de esperar, o livro não foi recebido com agrado por todas as leitoras. Algumas optaram mesmo por desistir da sua leitura por manifesta falta de entusiasmo. A Ana quis fazer uma declaração, logo no início da reunião, explicando os motivos que a levaram a abandonar a leitura. Disse então, que até começou por aderir ao estilo que a foi, a pouco e pouco, começando a maçar. A dada altura sentiu algum desconforto por, de certa forma, se sentir gozada pelo autor. A Guida, em tom de brincadeira, disse que há muito não conseguia dormir tão bem, e que as duas paginazinhas diárias antes de deitar lhe asseguravam umas descansadas nove horas de sono. Na página 180 teve uma revelação e finalmente percebeu o enredo da obra. A partir daí conseguiu passar para as quatro páginas!
A Rita gostou muito do livro, e achou que se trata da bonita história de uma mulher que vive ao longo de quase toda a sua vida uma paixão não muito sofrida, serena, sempre à distância, mas fazendo parte da vida do seu amor, nos encontros às Quartas-feiras na hospedaria da Graça, nos passeios a Sintra ao Domingo, e mesmo nas férias de Verão em Tavira. Sofre quando não pode acompanhá-lo no funeral, sendo a amante de um homem casado. Segundo a Rita, esta mulher é, ela própria a pedra de que fala o título. É uma mulher que sofreu uma experiência traumática na adolescência – foi violada – e adquiriu uma frieza e uma impermeabilidade muito grandes. É de todos os narradores da obra aquela de quem temos menor acesso aos pensamentos e emoções. É uma espécie de sombra. A esta ideia de que esta personagem seria a “pedra” eu retorqui que, mais do que isso, e pela leitura do poema popular de onde a frase do título saiu -Eu hei-de amar uma pedra/deixar o teu coração/uma pedra sempre é mais firme/tu és falsa e sem razão (na íntegra mais abaixo) – o título referia-se à incapacidade das personagens para amar e serem amadas. Refere-se à falsidade e frieza da maior parte dos corações que remete as personagens para uma solidão quase absoluta, entregues às suas obsessões (as gaivotas do Beato, as fotografias do sr. Querubim, os antúrios, as arvéolas, o chapéu com cerejas, o mar, etc. etc.). A Isabel também frisou a incapacidade das personagens em dar-se. Concluímos que a relação mais perfeita retratada nesta obra é aquela estranha relação de um homem e uma mulher que se encontram durante cinquenta e tal anos, uma tarde por semana, numa sórdida hospedaria da Graça, alugada à hora a prostitutas e prostitutos e seus clientes. É uma relação que também tem muito de rotineira (as Quartas na Graça, os passeios a Sintra, Agosto passado em Tavira, dois toldos acima), mas apesar disso há uma constância e uma harmonia que não vemos nas outras relações. A Ana Lúcia sublinhou o que essa relação tinha de estável, mas também o seu carácter de aventura, pelo facto de ser ilícita. Estivemos a tentar descortinar até que ponto seria uma relação com uma componente carnal, ou meramente platónica. A Rosária referiu a passagem em que se diz que passavam as tardes sentados ou deitados lado a lado na cama da hospedaria e em que só esporadicamente se tocaram, o toque de uma mão sobre outra, ou quando ela o punha ao seu colo, como uma criança. A Paula disse que tinha ouvido também o Lobo Antunes falar sobre esta história em entrevistas e que se tratava de um acto de abnegação, em que nunca tinha existido uma entrega física.
A São, a nossa convidada desta sessão, assistiu a uma conferência do António Lobo Antunes em que o autor refere esta história, verídica, de uma paciente sua e dizia na altura que um dia haveria de contá-la. Falámos um pouco sobre o próprio autor e a sua personalidade difícil. A Jennifer ficou com uma opinião negativa do seu carácter, pelas entrevistas que leu e viu na televisão. A São discordou, considerando-o um ser humano excepcional, apenas uma pessoa tímida. A Rita também discordou e remeteu para uma entrevista que foi publicada como livro e que ela tem (falhou-me a referência bibliográfica). A Jennifer também admitiu que nas crónicas que Lobo Antunes publica na Visão parece ser uma pessoa genuinamente tocada pela dor dos outros. A Rita referiu ainda que, pela leitura que fez dessas entrevistas e da fotobiografia do autor, lhe parece que muitas das situações narradas no livro lhe parecem auto-biográficas, como, por exemplo, a relação que o protagonista estabelece com as filhas, o facto de quase todas as personagens cultivarem a solidão. Eu referi ainda a personagem do médico psicanalista, que poderá ter funcionado como um alter-ego do autor. A Ana Cristina, ainda no que diz respeito à personalidade do autor, contou um episódio engraçado. Quando perguntaram ao pai do Lobo Antunes o que achava de irem publicar uma fotobiografia do filho espantou-se muito e disse: “Mas porquê? A vida dele não tem interesse nenhum!”. Outra possível marca autobiográfica na obra é o facto do personagem principal ser uma pessoa muito marcada pela guerra em África, tal como Lobo Antunes que a refere em quase todas as suas obras.
A Rita também mencionou que, de todas as obras de Lobo Antunes que já leu, esta é a primeira em que aparece uma referência ao próprio acto da escrita. Eu lembrei uma passagem em que aparece no texto que um determinado pormenor foi inventado pelo António Lobo Antunes, na tentativa de melhorar o romance. Na última narrativa refere também a dificuldade em dar a obra por terminada. E a certa altura atribui a autoria do enredo à filha da madrinha da mãe do pimpolho, enquanto intermediária entre o autor e todas as outras personagens. Eu lembrei ainda uma passagem em que “explica” a estrutura narrativa do livro: uma história de amor, inventada por esta personagem, e colocada na boca de cada uma das outras personagens que se relacionaram com os amantes.
Tivemos algumas dúvidas quanto ao destino de algumas personagens, nomeadamente se a Raquel se teria suicidado com comprimidos, ou se a senhora amante do pimpolho se teria afogado. A propósito destas dificuldades na interpretação do texto, a Ana “queixou-se” que essas dificuldades, as coisas deixadas em aberto, as imprecisões a desmotivaram na leitura, ao que a Rita lhe respondeu com graça que, como disse o Umberto Eco, a obra era aberta. A Rosária também se manifestou algo incomodada com todas as coisas supérfluas que enchem o texto, o ruído criado por aquelas repetições de frases, palavras. Eu respondi-lhe que isso era o universo das obsessões de cada uma das personagens a manifestar-se.
A Ana Lúcia também teve uma saída engraçada. Disse que era curioso que estivéssemos a ler este livro numa altura em que surgem tantas entrevistas com a pintora Paula Rego, e que estava perfeitamente a ver a Paula Rego a pintar algumas cenas e personagens do livro.
No geral, e resumindo, tivemos três pessoas que aderiram completamente ao livro. A Rita achou lindo e muito comovente. A Ana Cristina adorou, e eu achei também muito tocante, e achei que o estilo no qual está escrito não é minimamente artificial mas que se coaduna perfeitamente com a história que está a ser contada e a forma como isso é feito. Marca a diferença e torna o livro verdadeiramente excepcional. O resto das leitoras foram mais cépticas, mas o livro acabou por nos fornecer matéria para uma discussão bastante animada e muito profícua.
Pois é… Desta vez ficámos sem uma “acta” decente da nossa última reunião… É que a discussão de “Oracle Night”, de Paul Auster, foi tão animada, tão caótica, que perdi completamente o fio à meada e fiquei com pouca vontade de escrever um resumo daquela verdadeira gritaria. E agora, passado tanto tempo, devo reconhecer que já nem seria capaz de reconstituir as discussões das quais fiz parte. Mas não queria deixar de referir que foi muito participada.
No geral, toda a gente aderiu muito bem à obra (porque é que me quer parecer que a opinião em relação a “Eu hei-de amar uma pedra” não será tão consensual?...), que constituiu uma leitura muito agradável. A Rita admitiu que se reconciliou um pouco com Auster, depois das suas últimas obras lhe terem parecido bastante inferiores às primeiras, sem o mesmo vigor. A Jennifer também gostou imenso, afirmando que é precisamente este tipo de livros, com enredos empolgantes, que mais aprecia ler. Eu, pela minha parte, devo dizer que gostei de ler o livro, tal como sempre me agrada a escrita do Paul Auster, mas houve algo nesta obra que não me satisfez. Nem queria acreditar quando virei a última página e me deparei com outra em branco. Ficou a faltar-me alguma coisa, como quando vamos a um desses restaurantes requintados de Nouvelle Cousine, saboreamos as iguarias que nos colocam à frente, muito bem apresentadas, mas no final da refeição… fica a apetecer-nos um ovinho estrelado para compor o estômago! Aquilo que me foi dado a provar no livro foi apreciado, mas venha de lá esse ovo, Sr. Auster!
E estou aqui a dar voltas à cabeça a tentar lembrar-me dos tópicos da discussão e já pouca coisa me ocorre (o mal é da minha pobre memória, não da reunião). Lembro-me que achámos muito curiosa aquela cave onde uma das personagens armazenava listas telefónicas. Pareceu-nos outro repositório de memória, como o “cemitério dos livros esquecidos” de Carlos Ruiz Záfon, em "A Sombra do Vento". Também me lembro que discutimos com algum pormenor “A noite do oráculo” enquanto meta-romance, ou seja um romance sobre romances, sobre o conceito de ficção, sobre a capacidade de criar mundos através da escrita, de ter o poder de conferir vida às personagens, ou deixá-las encerradas numa cave, trancadas, sem mais nenhuma alma viva, para além do leitor, a saber do seu paradeiro. E a capacidade da própria ficção gerar a realidade. O carácter mágico da criação literária, a palavra escrita a tornar verdadeiras as instâncias que cria, com aquele misterioso caderno azul, made in Portugal, e o poder que estabelece sobre quem nele escreve.
E pronto, perdoem-me as leitoras, mas já estou com a cabeça noutro romance, que vamos discutir de aqui a nada e em que, novamente, é levantado um pouco o véu dos mistérios da criação literária. E não é que amei mesmo a pedra?!
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2005
Recebi um "comentário" à fotografia que coloquei no blog:
Tadinha......
Pobres olhinhos dela....
A mulher agarrada ao limoeiro....
Pimpolho....
Tavira, duas barracas.... distante
Pobre Pama (tem paciência com a tua patroa e as pombas brancas)
Submarino ao fundo (e os portas tambem)
Quando tem visitas ladra que se farta
Sentada a fazer crochet
Salta ao homem da pizza
"Cuidado com o cão"
Adeus....
Estou a descer do sétimo para o primeiro e a Beatriz nada me diz....
Ficarei pelo primeiro????
Espero que sim
Sexo F Idade 36 aparenta a idade
Mas as consultas não vão ficar pela quinta....
Beijocas
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005
Aqui fica uma pequena nota sobre António Lobo Antunes proveniente da página do Instituto Português do Livro e das bibliotecas:
António Lobo Antunes
[Lisboa, 1942]
Romancista. Proveniente de uma família da grande burguesia portuguesa, licenciou-se em Medicina, com especialização em Psiquiatria. Exerceu a profissão no Hospital Miguel Bombarda em Lisboa, dedicando-se desde 1985 exclusivamente à escrita. A experiência em Angola na Guerra Colonial como tenente e médico do exército português durante vinte e sete meses (de 1971 a 1973) marcou fortemente os seus três primeiros romances.
Em termos temáticos, a sua obra prossegue com a tetralogia constituída por A explicação dos pássaros, Fado alexandrino, Auto dos Danados e As naus, onde o passado de Portugal, dos Descobrimentos ao processo revolucionário de Abril de 1974, é revisitado numa perspectiva de exposição disfórica dos tiques, taras e impotências de um povo que foram, ao longo dos séculos, ocultados em nome de uma versão heróica e epopeica da história. Segue-se a esta série a trilogia Tratado das paixões da alma, A ordem natural das coisas e A morte de Carlos Gardel - o chamado “ciclo de Benfica” -, revisitação de geografias da infância e adolescência do escritor (o bairro de Benfica, em Lisboa). Lugares nunca pacíficos, marcados pela perda e morte dos mitos e afectos do passado e pelos desencontros, incompatibilidades e divórcios nas relações do presente, numa espécie de deserto cercado de gente que se estende à volta das personagens.
António Lobo Antunes começou por utilizar o material psíquico que tinha marcado toda uma geração: os enredos das crises conjugais, as contradições revolucionárias de uma burguesia empolgada ou agredida pelo 25 de Abril, os traumas profundos da guerra colonial e o regresso dos colonizadores à pátria primitiva. Isto permitiu-lhe, de imediato, obter um reconhecimento junto dos leitores, que, no entanto, não foi suficientemente acompanhado pelo lado da crítica. As desconfianças em relação a um estranho que se intrometia no meio literário, a pouca adesão a um estilo excessivo que rapidamente foi classificado de "gongórico" e o próprio sucesso de público, contribuíram para alguns desentendimentos persistentes que se começaram a desvanecer com a repercussão internacional (em particular em França) que a obra de António Lobo Antunes obteve.
Ultrapassado este jogo de equívocos, António Lobo Antunes tornou-se um dos escritores portugueses mais lidos, vendidos e traduzidos em todo o mundo. Pouco a pouco, a sua escrita concentrou-se, adensou-se, ganhou espessura e eficácia narrativa. De um modo impiedoso e obstinado, esta obra traça um dos quadros mais exaustivos e sociologicamente pertinentes do Portugal do século XX.
A sua obra prosseguiu numa contínua renovação linguística, tendo os seus últimos romances (Exortação aos Crocodilos, Não entres tão depressa nessa noite escura, Que farei quando tudo arde?, Boa tarde às coisas aqui em baixo), bem recebidos pela crítica, marcado definitivamente a ficção portuguesa dos últimos anos
Letra e música: popular: Alentejo
Intérprete: Vitorino, Janita Salomé
(rimance)
In: "Romances", 1991;
Eu hei-de amar uma pedra
deixar o teu coração
uma pedra sempre é mais firme
tu és falsa e sem razão
Tu és falsa e sem razão
eu hei-de amar uma pedra
eu hei-de amar uma pedra
deixar o teu coração
Quando eu estava de abalada
meu amor para te ver
armou-se uma trovada
mais tarde deu em chover
Mais tarde deu em chover
sem fazer frio nem nada
meu amor para te ver
quando eu estava de abalada
Se alguém tiver a música podia levar para a próxima reunião...
beijinhos
sábado, 15 de janeiro de 2005
Aqui fica um artigo que saiu no Mil Folhas de hoje sobre “A Noite do Oráculo”, de Paul Auster
Romance-ratoeira
Sábado, 15 de Janeiro de 2005
Luís Maio
Quando "A Noite do Oráculo" acaba, o narrador é um homem destroçado, a sua mulher foi espancada brutalmente, o seu melhor amigo morreu de embolia pulmonar e o filho deste foi assassinado. Não há final feliz, nenhuma espécie de catarse, o que seguramente contribui para o amargo de boca, indisfarçável quando se fecha o livro. "A Noite do Oráculo" é um romance complexo, artificioso e exemplarmente bem escrito, mas que se furta a cativar o leitor. Um mal-estar que está longe de se reduzir à ausência de redenção final.
Uma explicação para os desenvolvimentos trágicos que fecham o enredo é, porém, facultada na véspera do seu desenlace. Começa na invocação de um respeitado escritor francês que, nos anos 50, publicou um longo poema narrativo girando em torno da morte por afogamento de uma criança. Um par de meses após a edição, a filha desse mesmo escritor afogou-se no canal da Mancha e ele resolveu não voltar a escrever uma linha, ciente de que a sua tragédia ficcional desencadeara a tragédia real. Uma história que, articulada com o próprio drama do narrador, leva-o a concluir que "por vezes sabemos que determinadas coisas vão acontecer antes de realmente acontecerem, ainda que não saibamos que sabemos".
Esta crença especulativa na capacidade de prever o futuro, em particular no carácter premonitório da ficção, constitui uma segura novidade no mundo segundo Paul Auster. É uma defesa do pensamento mágico que entra em choque declarado com a noção de que o acaso e o acidente governam o mundo, tese familiar no seu corpo de obras, de resto, por diversas vezes recorrente neste novo romance. Mas a defesa do premonitório, por mais surpreendente que se revele, não é chave de coisa alguma, como não são os fatídicos acontecimentos que supostamente legitima. São apenas mais portas que se abrem no labirinto narrativo que Auster vai tecendo ao longo de "A Noite do Oráculo", outro "tour de force" do seu insólito pós-modernismo.
A paixão do inconclusivo
Sidney Orr, um romancista de 34 anos de idade, residente em Brooklyn, sai do hospital na sequência de uma doença quase fatal e está lentamente a recuperar a saúde física, ao mesmo tempo que procura reconquistar a inspiração literária. Assim arranca a narrativa, dentro de uma certa normalidade, uma vez que nunca sabemos de que doença padeceu o escritor, nem o que o leva agora a recapitular os acontecimentos relatados, ocorridos em 1982. Que se começam a desenhar na sequência da compra de um bloco de notas azul, que reflecte uma espécie de luz sobrenatural (é a primeira mistificação) capaz de subtrair o escritor à apatia, lançando-o num estado de febril criatividade.
A sua inspiração é um pequeno episódio relatado em "O Falcão de Malta", de Dashiell Hammett: um homem escapa por milagre a ser esmagado por uma viga, compreende que a luz do mundo é o acaso e abandona tudo para começar vida nova. O seu duplo, inventado por Orr, chama-se Nick Bowen e é um editor literário nova-iorquino que vive uma experiência traumática semelhante, que também o leva a desaparecer sem deixar rasto, partindo ao calhas para a cidade do Kansas. Leva apenas na bagagem um original da escritora Sylvia Maxwell chamado "A Noite do Oráculo", sobre um soldado inglês chamado Lemuel Flagg, que perde a visão na I Guerra Mundial, mas em compensação ganha o dom da profecia.
Os vários enredos correm em paralelo, até a história de Lemuel desaparecer inexplicavelmente do mapa e Bowen passar a ocupar o centro das atenções. Pelo menos até Orr o colocar numa situação semelhante a ser enterrado vivo e ficar num beco sem saída em termos narrativos. É aí que os acontecimentos na vida privada do narrador saltam para primeiro plano, ganhando em estranheza e dramatismo. Há uma relação, ou melhor, um feixe de conexões possíveis entre estes patamares narrativos, que por vezes se prendem com a capacidade premonitória do tempo, por vezes com acasos e coincidências, por vezes ainda com outros fantasmas e inquietações típicas de Auster, como o Holocausto e o medo de quartos fechados. Que, aliás, se entrelaçam noutras histórias secundárias - e se há personagens capazes de adivinhar o futuro, há também aquelas que conseguem mergulhar no passado, e mesmo a coincidência dos dois saltos temporais no argumento cinematográfico que Orr improvisa na base de "A Máquina do Tempo", de H. G. Wells.
O que importa, no entanto, é estas narrativas nunca serem conclusivas, sugerindo que o propósito de "A Noite do Oráculo" não é tanto contar esta ou aquela história, mas usá-las para pôr em questão as convenções de leitura. Trata-se para Auster de subverter essa codificação, sobretudo a crença afectiva que classicamente se associa ao romance, baralhando por completo as contas ao leitor. "A Noite do Oráculo" é a esse título o epítome do romance-armadilha, o menos chandleriano de Auster, porque não há "thriller", e o mais borgiano, porque tudo se resume a um arrasador quebra-cabeças. O leitor entra numa narrativa e a meio já mergulhou noutra, só para deslizar para uma terceira e assim sucessivamente. Para complicar ainda mais as coisas, cada relato é acompanhado por longas notas de rodapé, que muitas vezes incluem informação mais essencial que o próprio texto principal, que, quando se retoma, dificilmente se recorda onde ia. Mas também há pistas falsas com algum requinte de malvadez, como as fotocópias verdadeiras de listas telefónicas de Varsóvia de 1937/38, que se diria confirmarem a genealogia de personagens fictícias.
O leitor esforça-se para seguir o fio à meada, mas nesta vertigem de pistas equívocas acabará por se perder e este é o género de romance que se lê uma segunda vez... só para se ficar ainda mais baralhado. Frustrante, sem dúvida, mas nem por isso menos fascinante. Um "puzzle" sem solução, ainda mais retorcido se se pensar que "A Noite do Oráculo" está repleto de pormenores autobiográficos - o miúdo drogado que acaba baleado tem óbvia inspiração no filho de Auster, associado ao assassínio de Andre "Angel" Melendez - ou que há um indisfarçável ar de família com personagens do romance mais recente da sua esposa Siri Hustvedt. Ou ainda que "A Noite do Oráculo" repercute em muitos aspectos a sinfonia dissonante do "Livro da Memória", o segundo de "Invenção da Solidão", escrito um quarto de século atrás e agora reeditado entre nós.
"Portugal É Perfeito"
Sábado, 15 de Janeiro de 2005
L.M.
É graças à compra de um bloco de notas de azul, que o protagonista de "A Noite do Oráculo" recupera o ânimo e a capacidade de escrita. O caderno é de fabrico português e quando lhe pega pela primeira vez, numa pequena papelaria de Brooklyn, Orr sente uma súbita e incompreensível irrupção de bem-estar: "Os cadernos portugueses exerciam sobre mim um fascínio muito especial e eu sabia que não resistiria àquelas capas duras, àquelas linhas quadriculadas, àqueles cadernos costurados de papel robusto, sólido, imune a todo o tipo da borrões." O caderno português irá funcionar como um fetiche, ao mesmo tempo mágico e inquietante da sua escrita, ao ponto que acabará por destruí-lo. Por coincidência ou talvez não, as últimas linhas que escreve nesse caderno respeitam acontecimentos dramáticos, envolvendo a sua mulher, o seu melhor amigo e o filho dele, que ocorreram ou ele imagina que ocorreram numa pequena casa de férias, no litoral Norte de Portugal.
O nosso país tem o privilégio de uma terceira e mais demorada menção em "A Noite do Oráculo". Numa altura em que e a sua carreira literária caiu num impasse e está completamente nas lonas, Orr vê a luz ao fundo do túnel chegar de Portugal. Informado pela agente do interesse de editores portugueses em lançarem-no entre nós, o escritor declara que não tem objecções, antes pelo contrário. "Pessoa é um dos meus escritores preferidos. Deitaram abaixo Salazar e agora têm um governo decente. O terramoto de Lisboa inspirou Voltaire a escrever 'Candide'. E Portugal ajudou milhares de judeus a fugirem da Europa durante a guerra. É um país bestial. Eu nunca lá estive, é claro, mas, queira ou não queira, é lá que eu vivo agora. Não, Portugal é perfeito." (pág. 132)
quinta-feira, 25 de novembro de 2004
Já agora, para quem estiver interessado em vasculhar coisas sobre o autor e suas obras, aqui fica o endereço da página oficial do Paul Auster: www.paulauster.co.uk
A "pérola" do post anterior foi retirada de uma entrevista do autor ao "The Brooklyn Rail", que consta do dito site.
Apreciem só uma letra escrita pelo Paul Auster sobre o nosso "amigo" George Bush:
King George Blues
O Mr. Bush you scare me so
From the top of your head to your
little toe
You prowl the halls of Texas death row
Only the rich are in the know
(Chorus)
The fat men are in charge
The thin men take the barge
To hell, to hell, to hell
O demon of the hanging chad
How’d you get to be so bad?
You say the others are filled with evil
But you pray at the shrine of the black boll weevil
The fat men are in charge
The thin men take the barge
To hell, to hell, to hell
It used to be we’d never attack
Now our troops march through Iraq
You don’t like a dictator named Saddam?
Just search him out and drop a bomb
The fat men are in charge
The thin men take the barge
To hell, to hell, to hell
O tool of big bucks oil
How you make my blood boil
You stomp the poor and make them toil
For nickels, for pennies, for nothing at all
The fat men are in charge
The thin men take the barge
To hell, to hell, to hell
Paul Auster March 2003
Band: One Ring Zero
terça-feira, 23 de novembro de 2004
A entrevista da VISÃO de 28 /X/04:
O Outono de Mr. Auster
Visitou Lisboa em 1995 e, desde então, guarda o desejo de regressar. Talvez por isso tenha Paul Auster posto Portugal no enredo do seu mais recente romance, A Noite do Oráculo. A anteceder a tradução portuguesa da obra, que no próximo dia 9 será posta à venda, o escritor abriu à VISÃO as portas da sua casa em Nova Iorque. Para falar de livros, de cinema, de política. E da vida que, agora, aos 57 anos, lhe dá uma outra estação
SARA BELO LUÍS / VISÃO nº 608 28 Out. 2004
Ali não há avenidas largas nem arranha-céus. Na 2nd. street de Brooklyn , o ambiente é próprio do bairro residencial que Paul Auster tantas vezes retratou nas suas ficções.
A copa das árvores cobre o passeio e as casas, alinhadas umas às outras, só têm dois pisos. À porta vem SiriHustvedt , a escritora e a mulher que Auster conheceu no dia 23 de Fevereiro de 1981, conforme deixou registado em Leviathan . Logo atrás vem Paul Auster .
E, já durante a entrevista com a VISÃO, há-de vir Sophie , chegada da escola com a mala carregada de livros. A família está preocupada porque Jack , o velho cão de que os leitores incondicionais de Auster também já ouviram falar, caiu das escadas na noite anterior.
Já houve quem por aqui andasse à procura da Nova Iorque do autor, seguindo os indícios por ele deixados na obra.
À esquina da rua onde vive Paul Auster , porém, não existe nenhuma tabacaria como a de Smoke e de BlueinThe Face, os filmes que WayneWang realizou sobre argumentos de Paul Auster . Nem tão-pouco a PaperPalace , a papelaria de A Noite do Oráculo, o seu mais recente romance cuja tradução portuguesa estará disponível nas livrarias já no próximo dia 9 com a chancela das Edições Asa. Nele, o escritor SidneyOrr ainda recupera de uma doença que lhe foi quase fatal quando descobre um caderno de fabrico português que o conduz de novo à escrita. Sob a influência desse pequeno bloco de notas, a personagem escreve na ideia de que o que escreve vai acabar por acontecer. A história de A Noite do Oráculo desenvolve-se depois no sistema de caixas chinesas que Paul Auster tanto aprecia. Do enredo principal ao romance dentro do romance, das notas de rodapé à reprodução de uma misteriosa lista telefónica da Polónia, Portugal surge como um país «perfeito»: «Pessoa é um dos meus escritores preferidos. Deitaram abaixo Salazar e agora têm um governo decente. O terramoto de Lisboa inspirou Voltaire a escrever Candide . E Portugal ajudou milhares de Judeus a fugirem da Europa durante a guerra. É um país bestial.» Parece uma ironia, mas – como adiante se verá – Paul Auster já não visita Portugal desde 1995. Quer voltar. Para, com SiriHustvedt , ir às Janelas Verdes ver os quadros de HieronymusBosh que estão no Museu de Arte Antiga.
VISÃO: A Noite do Oráculo começa com um caderno de capa azul madein Portugal que altera completamente a vida do protagonista, SidneyOrr . Os seus leitores portugueses querem saber – de onde veio este caderno?
PAUL AUSTER: Claro que eles querem saber, mas na verdade não posso dar-lhes uma resposta muito precisa. Pensei pela primeira vez na ideia de escrever um livro sobre um caderno em 1982, justamente o ano em que decorre A Noite do Oráculo. Na altura escrevi algumas páginas que, no entanto, acabaram por ficar de lado à espera do dia certo. Porque é que o caderno é feito em Portugal? Não consigo dizê-lo. Estive em Portugal duas vezes, a última das quais em 1995 e, desde então, nunca mais lá voltei. Achei Lisboa uma cidade extremamente interessante, gostei de passear por Alfama e, se calhar, foi por isso que me lembrei de Portugal. Talvez tenha sido por causa do meu desejo de voltar. Talvez agora seja tempo de voltar.
Há muitas histórias dentro da história principal do livro. Afinal, A Noite do Oráculo é uma história de amor ou um romance sobre o modo como a ficção pode tornar-se realidade?
A história de amor é que é o motor. Depois, ao longo do livro, há muitas digressões, pequenos desvios e alguns atalhos. No entanto, eu não penso em A Noite do Oráculo como uma exploração da imaginação versus realidade. Para mim, A Noite do Oráculo é antes uma meditação sobre o tempo. Se pensarmos bem, há nele muitas referências a acontecimentos históricos, a grandes eventos do passado – há a I Guerra Mundial, a II Guerra Mundial, o assassinato de Kennedy e também a Revolução Cultural na China. Quase tudo no livro é sobre o tempo.
E quando é que decidiu regressar às páginas escritas em 1982?
Os elementos foram surgindo.
À história do caderno juntou-se uma outra história, baseada no episódio Flitcraft de O Falcão de Malta, de DashiellHammett , que era suposto ter sido a base de um argumento para um filme de WimWenders . Contudo, o momento crucial ocorreu mais tarde, em Novembro de 1998. Quando Lulu ontheBridge saiu, fui a Varsóvia para promover o filme. O meu editor polaco disse-me que me queria dar um presente muito especial e ofereceu-me uma lista telefónica de Varsóvia de 1938 onde havia um Auster que, provavelmente, terá sido meu parente. Fiquei muito perturbado com aquela lista de nomes, de milhões de pessoas que, dali a dois ou três anos, teriam morrido.
Tentou encontrar alguma relação com esse Auster ?
Não. Mas o mais espantoso ainda foi quando, no ano passado, fui entrevistado por um jornalista polaco, a propósito do lançamento nos Estados Unidos de
A Noite do Oráculo. Sentado nessa mesma cadeira em que está agora, ele suava e tremia. E disse-me que o casal que eu descrevo muito brevemente, provavelmente familiares de SidneyOrr , eram os seus pais. Fiquei muito inquieto com tudo aquilo. Com tanta gente que há no mundo… Portanto, coisas estranhas continuam a acontecer…
Relacionando as suas últimas obras, tanto David Zimmler , de O Livro das Ilusões, como agora SidneyOrr , de A Noite do Oráculo, estão a tentar refazer a vida.
…E Willy , de Timbuktu , está a morrer. Foi, aliás, por isso que eu comecei a chamar-lhes os meus livros de homens feridos. E há ainda o que acabei de escrever há cerca de um mês, que se chamará TheBrooklyn Folies, cujo narrador tem 60 anos, era mediador de seguros de vida mas agora está reformado, acabou de se divorciar e tem cancro. É um romance… ou uma comédia no sentido em que a maior parte das pessoas é melhor no fim do que no princípio.
E qual a razão desses livros de homens feridos?
Não escrevemos sobre as nossas obsessões? Penso que, provavelmente, é porque estou a envelhecer. Durante anos e anos somos saudáveis e fortes. Depois, a fragilidade do nosso próprio corpo não só se torna evidente como a ideia da nossa própria morte nos aparece muito mais real. Tudo isto me aconteceu depois de atravessar os 50 anos.
Sidney Orr tem uma forma muito obsessiva de escrever. O ambiente de escrita da personagem tem alguma coisa a ver com o ambiente de escrita do escritor?
Tudo em mim é diferente de SidneyOrr . Eu não escrevo assim, eu vivo com as histórias durante anos antes mesmo de as escrever. Além disso, também nunca roubei o corpo de outro para descrever uma personagem…
Quando começa um novo romance conhece-lhe o princípio, o meio e o fim?
Tenho uma noção da trajectória do livro. Mas depois, enquanto escrevo, a história está sempre a mudar. Por exemplo, em O Livro das Ilusões, a ideia original era escrever uma pequena novela sobre David Zimmler e HectorMann e, na segunda parte, falar sobre os filmes. Tudo isso foi mudando imenso durante a escrita, como antes nunca tinha acontecido comigo.
E as personagens?
Habitualmente, as personagens vêm sempre antes. Às vezes, surgem-me e eu não sou capaz de deixar de pensar nelas. Um dia, há uns 15 anos, veio ter comigo um homem de bigode e fato branco – vi logo HectorMann naquele rosto.
De onde lhe vem este interesse pelas histórias dentro das histórias?
Não é a forma que dita o conteúdo do livro. E por isso eu nunca digo para mim mesmo que me apetece fazer histórias encadeadas. Tudo isso se desenvolve organicamente. Também escrevi livros que seguem em linha recta como Mr . Vertigo ou A Música do Acaso.
Em A Trilogia de Nova Iorque havia uma personagem que fingia ser Paul Auster . Agora, em A Noite do Oráculo, o apelido de JohnTrause é um anagrama do seu apelido.
Ele não me representa. Mas veja bem: a história tem dois romancistas, um tem 34 anos e outro tem 56. No fundo, esse período corresponde exactamente à extensão da minha própria vida literária enquanto romancista. Acho que, primeiro, estava a pensar em mim próprio jovem e, depois, em mim próprio velho. Quis enterrar-me algures naqueles livros.
E agora, já se sente mais confortável nos seus 57 anos?
Se me sinto confortável? Sei que o Paul Auster dos 30 anos já não vai regressar.
Durante vários anos, dedicou-se a traduzir livros do francês para o inglês. Encontrou na tradução o prazer do jogo de palavras ou uma outra forma de escrever?
Essa história tem várias etapas. Numa primeira fase, quando tinha 20/30 anos, traduzi muita poesia francesa. E hoje percebo quanto esse exercício me ajudou enquanto poeta. Não há, de facto, melhor forma de compreender um texto que dissecá-lo palavra a palavra, músculo por músculo, osso por osso e, depois, tornar a compô-lo noutra língua. Mais tarde, encontrei na tradução uma forma de ganhar a vida. Mas nestes casos a dor de traduzir livros medíocres era tão grande que o fazia tão depressa quanto possível.
Está a pensar regressar ao cinema?
Nas últimas três semanas tenho estado a trabalhar num guião de um filme de PatriceLeconte . Não vou estar envolvido na produção, mas não consegui recusar uma proposta tão interessante. Normalmente, fico bastante triste depois de acabar um livro e agora, ao terminar TheBrooklyn Folies, entrei numa depressão que me fazia andar às voltas. Sentia-me perdido e, por isso, pensei que talvez fosse bom dedicar-me ao guião.
De que trata esse guião?
De certa maneira, trata-se do filme mais politicamente empenhado que eu alguma vez fiz. Passa-se quase sempre em Queens e o herói da história é um americano de origem árabe, um egípcio. A história gira à volta de todas as dificuldades com que ele se depara no pós-11 de Setembro. É um filme muito oportuno porque fala do que está a acontecer agora nos Estados Unidos. Espero sinceramente que o projecto seja concretizado.
Depois do 9/11, sente que o regresso à normalidade chegou algum dia a ocorrer?
É uma pergunta difícil de responder.
É um facto que as pessoas continuam a acordar de manhã, que os adultos vão trabalhar e que as crianças vão para a escola. E, neste sentido, a vida continuou. Mas, ao mesmo tempo, a atmosfera do país mudou completamente.
Do país ou da cidade de Nova Iorque?
Mais do país do que da cidade. Apesar de ter sido aqui que fomos atacados, penso que não vivemos no clima e no estado de pânico em que vivem muitas outras pessoas no resto do país. Na minha opinião, a administração Bush alimentou essa
atmosfera de medo. E fê-lo de propósito, segundo uma estratégia extremamente perigosa que não nos ajudou – nem a nós nem ao mundo inteiro. Há uns dias, JohnKerry disse qualquer coisa como «gostaria de reduzir o terrorismo», demonstrando que aquela era a forma de encarar os problemas do mundo. No debate de ontem à noite [o último dos três debates entre os candidatos, realizado a 13 de Outubro], Bush gozou com o que Kerry tinha dito, argumentando que o terrorismo tem maior controlo sobre as nossas vidas do que Kerry pensa. E, a meu ver, ele está a empolar o problema.
Há quem diga que a América está completamente dividida e polarizada. Concorda?
Sim, absolutamente. Por um lado, há a parte Norte da Costa Leste, a região dos Grandes Lagos e a Costa Oeste, que são liberais e seculares. Por outro lado, há o Sul, o Midwest e o LowerMidwest , que são muito conservadores e muito cristãos. E o que me preocupa é que a comunicação entre ambos se está a tornar cada vez mais difícil. Estamos a viver uma verdadeira guerra cultural na América.
Não terá sido sempre assim?
Não, nem sempre. Alguém dizia noutro dia que nem no tempo de RonaldReagan , um Presidente que eu odiava, havia tão pouca cooperação no Congresso entre democratas e republicanos. Eles não cooperam, eles não colaboram, eles não conseguem chegar a um consenso. Eles limitam-se a guerrear-se. Do meu ponto de vista, os republicanos mais conservadores levaram tão longe as suas ideias que até demonizaram pessoas que não passam de moderados. Nos últimos quatro anos, vive-se num ambiente assustador neste país.
O que é que lhe parece que vai acontecer a 2 de Novembro?
Tenho esperanças que Kerry vença. Desde o princípio da campanha que acho que ele vai ganhar e, apesar dos momentos difíceis que têm ocorrido, ainda sinto que ele vai ganhar. Ninguém que tenha votado em Al Gore nas eleições de 2000 vai, em 2004, votar em Bush . No entanto, muitas das pessoas que votaram em Bush desta vez não vão votar, pois ele até conseguiu virar contra ele alguns dos republicanos mais tradicionais. Quando viajo, falo sempre com as pessoas para tentar perceber o que é que elas pensam. E tenho encontrado muita gente que sempre votou no Partido Republicano e que, agora, me diz que «só por cima do meu cadáver eu votaria em George W. Bush ». Podemos por isso ter uma grande surpresa a 2 de Novembro.
Acha que JohnKerry é um candidato forte?
À medida que o vou vendo e ouvindo, vou gostando cada vez mais dele. No princípio, não estava muito entusiasmado, embora agora ache que ele se saiu muito bem nos debates. O seu discurso é coerente e parece-me que ele tem uma visão do mundo que não é desprezível. Eu teria adoptado uma posição ainda mais dura, mais à esquerda, mas compreendo que, neste clima particular, a posição de JohnKerry faça mais sentido para a generalidade do povo americano.
Participou em algumas iniciativas de recolha de fundos para a campanha de Kerry . Em sua opinião, qual é o papel dos intelectuais nos dias de hoje?
Também somos cidadãos e, como tal, temos direito de expressar as nossas opiniões. Penso que, em tempos difíceis como estes que estamos a viver, devemos erguer a voz. Esta entrevista, por exemplo, começou por ser uma entrevista literária e, agora, está a fazer-me perguntas políticas. E por isso eu digo o que penso.
Há quem argumente que um escritor deve limitar-se a escrever enquanto que um político deve limitar-se a fazer política.
Às vezes até há escritores que se tornam políticos. E políticos que lêem livros. Em certos países, como Israel, é vital que os escritores tenham voz. As pessoas ouvem David Grossman ou Amos Oz . Imagine-
-se como seria aquele país se homens como estes não tivessem a coragem de escrever e expressar a sua opinião.
Alguma vez pensou em voltar para a Europa?
Às vezes, eu e a Siri [ SiriHustvedt , a mulher] dizemos que, se Bush ganhar, vamos para outro sítio qualquer. Porém, isso não passa de uma brincadeira. Estamos empenhados em ficar aqui. Vivi em França numa época muito especial. Eu era muito novo, estava muito envolvido na política e havia a Guerra do Vietname. Queria escrever, mas não conseguia concentrar-me. E, na altura, pensei que, saindo dos Estados Unidos, talvez pudesse ter a paz necessária para decidir o que queria fazer no futuro. Cheguei à Europa sem saber se era um escritor e voltei para casa com essa certeza.
Sente-se verdadeiramente americano?
Não ponho rótulos em mim mesmo. Vivo aqui, escrevo em inglês e, nos meus livros, falo sobre a América. Este é o meu lugar. Este é o meu mundo. Mas, ao mesmo tempo, não só viajo como estou atento ao que se passa noutros sítios. Acho que todo o americano tem um pé na América e um pé noutro sítio qualquer.
E onde está o outro pé do Paul Auster ?
Sim, talvez esteja algures na Europa. Espiritualmente. [# FimNoticia ]
E de um outro blog (http://memoriavirtual.weblog.com.pt/) encontrei este comentário:
"A NOITE DO ORÁCULO" (I)
Em “A Noite do Oráculo”, Paul Auster prossegue a sua incessante busca do "eu", por via do "outro".
Com uma abordagem recorrente, Auster projecta-se na personagem principal do livro (um escritor) e vai-nos contando histórias dentro de histórias, dentro de histórias!
Introduzindo uma “novidade” (pelo menos com a dimensão que assume nesta obra), as extensas notas de rodapé, completando informação sobre circunstâncias passadas, dando-nos um enquadramento como que num flashback.
O “misticismo” associado ao estranho caderno azul português transporta-nos ao longo de uma história intrigante, complementada pela história do livro que o protagonista tenta escrever, até chegar a um “beco sem saída”.
Tínhamos acordado que assim que fosse publicado o "Oracle Night" do Paul Auster em Português, essa seria a nossa escolha de leitura. Como o prometido é devido, é esse o nosso livro deste mês.
Procurarei, assim que possa, algumas informações complementares na net que colocarei aqui no Blog, como já vem sendo hábito, convidando todas a fazer o mesmo.
Boas leituras!
Como habitualmente, aqui fica o resumo da discussão de "A sombra do vento", de Carlos Ruiz Zafón:
Após o esforço da leitura de “Vermelho”, de Mafalda Ivo Cruz, a opinião generalizada sobre este livro foi que proporcionou uma leitura muito agradável e fluida. Todas reconhecemos que se trata de uma história bem contada, que prende o leitor, e com personagens bem desenvolvidas e muito cativantes. Foram, no entanto, feitos alguns reparos a aspectos menos positivos da obra.
A Rita começou por referir alguma falta de qualidade da tradução, nomeadamente na inclusão de algumas expressões do quotidiano como “é boa como o milho”, que pertencem a um nível de linguagem muito baixo e que, além disso, soam muito inverosímeis em personagens dos anos 50. Outras expressões como “por causa das moscas”, parecem estar demasiado coladas ao original em espanhol, quando, pelo sentido, em português faria mais sentido uma expressão como “não vá o diabo tecê-las”. O original em espanhol está também pejado de expressões populares, pelo que parte do problema não será da tradução mas do próprio texto, que mistura níveis de linguagem muito diferentes. Poder-se-ia dizer que é um dos traços distintivos de uma personagem em particular – o Fermín – que funciona um pouco como a personagem pícara. Não deixa de ser um aspecto que surge referido nas críticas ao livro como um dos mais negativos. A Rita aproveitou para ler algumas passagens de uma crítica que surgiu na imprensa escrita que referia a “linguagem e registo de leitura demasiado fáceis”. Eu, que optei pela leitura da versão original, referi ainda a repetição de alguns vocábulos (como espejismo . miragem, ilusão; e títeres – fantoches) até à exaustão, quando poderiam ter sido utilizados sinónimos. Será talvez uma marca de alguma imaturidade por falta do autor, ou da falta de um bom editor de texto, que facilmente teria notado tal repetição. Quanto ao nível da linguagem, especulámos que seria, de certo modo propositado na medida em que o texto se parece adequar perfeitamente a uma adaptação ao cinema, e esta simplificação da linguagem seria, assim, uma marca de um argumento para um filme destinado a um público alargado. Claro, que há que ter em consideração que, na passagem de qualquer obra literária para argumento cinematográfico, há uma adequação da linguagem (estou a lembrar-me de uma excepção, como a versão de "Romeu e Julieta", de Baz Luhrmann, de 1996, que transpõe a acção para um moderno subúrbio de Verona, mas opta por manter os diálogos originais) pelo que não teria necessariamente que ter lugar na obra escrita. Foi referido, no entanto, que Carlos Ruiz Zafón é também escritor de argumentos para cinema e poderá ter deixado marcas desse trabalho neste livro.
Também em relação ao próprio desenrolar da narrativa foram notadas algumas falhas. A Rosária referiu que Daniel, o protagonista, chegava com demasiada facilidade à informação, com todas as personagens secundárias que encontrava a fornecerem-lhe sem resistência as peças do puzzle com que reconstruiu a trajectória de Julián Carax. A Jennifer afirmou ainda que, muitas dessas personagens referiram eventos e diálogos que não podiam conhecer, como foi o caso da Nuria Monfort ou, principalmente do Padre Fernando, em relação a aspectos da relação entre os outros rapazes do grupo de estudantes do colégio. Também referimos que aquele relato que Nuria faz chegar a Daniel após o seu assassinato é, em termos de estratégia narrativa, demasiado óbvio como forma de completar as lacunas da história.
Referi ainda os pequenos reparos feitos por um leitor que deixou um comentário à obra numa página web: 1º Nessa época ainda não havia Sugus. 2º A linha 5 não chegava ao Hospital Clínico. 3º É impossível demorar 20 minutos para ir da Praça da Universidade à Praça da Catalunha pela Rua Tallers. Quanto ao 2º e 3º reparo, seria necessário conhecer muito melhor Barcelona e a sua história para averiguar da sua veracidade. Quanto ao primeiro, bastou-me colocar “Sugus” no motor de pesquisa Google para descobrir se estava certo ou não. O que descobri ao ler a história dos famosos caramelos de fruta quadradinhos que consta da página da Kraft Foods (www.kraftfoods.ch), a multinacional que os comercializa, foi que a receita original foi inventada pela filial polaca da firma suiça Suchard em 1929. Em 1946 começam a ser exportados para a América do Sul, Ásia e África. Mas só em 1960 começam a ser comercializados em Espanha (tal como em Portugal). Como tal, em 1950s, os famosos Sugus não poderiam estar a ser consumidos pelo Fermín. Claro que todas reconhecemos que são erros muito pequenos e que são apenas curiosidades, embora, com a facilidade de acesso à tecnologia, bastassem apenas alguns segundos para verificar estes dados. À margem deste pequeno reparo, não deixámos de nos espantar com a longevidade de alguns produtos, como os ditos Sugus, ou a Coca-cola, que consideramos imagem de marca da nossa geração, mas que afinal já vêm de muito mais longe.
Algumas leitoras referiram ainda que, a um dado momento da leitura, sentiram algum receio que a narrativa iria “descambar” para uma inverosimilhança total, como o relato na primeira pessoa de Daniel a surgir como uma “voz do além”. Afinal a morte do protagonista foi temporária e é um narrador de carne e osso que nos relata os acontecimentos. Sentimos todas que o artifício era algo forçado. (Uma das leitoras queixou-se ainda que uma “certa” outra leitora lhe tinha estragado o suspense ao contar que Daniel não iria morrer afinal. Tss tss tss!!). Também achámos que a história se resolve demasiado, com direito a happy ending e todos os conflitos a serem solucionados, quer com a morte do vilão (o inspector Fumero), quer com Julián Carax, a personagem mais ambígua, a encontrar um novo sentido para a vida e um motivo para voltar a escrever.
Mas ao contrário do que este resumo pode fazer parecer, o balanço final da leitura foi claramente positivo, com o livro a proporcionar horas (muitas…) de prazer. Gostámos particularmente de algumas personagens, estando a ama Jacinta e Fermín no “top” das preferências. Achámos que todas elas estão bem construídas, sólidas, algumas profundamente trágicas mas que, ainda assim, encontram forças para recomeçar e encarar a vida de frente (como o Fermín). Eu pessoalmente achei que havia um certo maniqueísmo, com a existência de um eixo do bem, protagonizado por Daniel e Fermín, e um eixo do mal, protagonizado por Fumero. A Jennifer discordou, argumentando que algumas personagens evoluem, como o industrial Aldaya, que só vem a manifestar a sua perfídia no momento em que aprisiona a filha Penélope no sótão durante toda a sua gravidez, provocando a morte à mãe e bebé. De facto, há uma galeria de personagens ambíguas como Jorge Aldaya ou, muito especialmente Julián Carax, personagem sombria e autor de actos de banditismo e que encontra um novo sentido para a vida por influência de Daniel, cuja trajectória de vida reflecte a sua (ou será ao contrário?). Também gostámos do cruzar das narrativas; passado e presente a reflectirem-se e a gerarem-se mutuamente, ficção a tornar-se realidade, e com esta a inspirar nova ficção num jogo de espelhos e de encaixes.
Mas os aspectos mais positivos do livro foram, na opinião de todas, as atmosferas criadas, com Barcelona a surgir como uma cidade sombria, envolta em nevoeiro e mistério. Fez-nos recordar, às felizes contempladas que já visitaram a cidade, o bairro gótico em volta da catedral, com as suas ruas estreitas e edifícios antigos e algo lúgubres. Considerámos o romance bastante “visual”, na medida em que esses ambientes foram evocados com muita exactidão. São talvez marcas da tal aproximação ao cinema, que já mencionámos. Gostámos particularmente da descrição da mansão dos Aldaya, “El ángel de bruma”, como ficou conhecida. Remete para as descrições góticas de mansões victorianas e é o palco perfeito para os acontecimentos misteriosos que aí têm lugar. E por último, aquela que consideramos ser a grande “invenção” deste livro, é o “Cemitério dos livros esquecidos”, um edifício fantástico, cujo interior se encontra repleto de passagens e corredores labirínticos, e para onde são enviados todos os livros de colecções particulares cujos donos falecem, acervos abandonados de bibliotecas, livrarias, etc. É uma espécie de depositário de todos os livros que, por uma razão ou por outra, vão caindo no esquecimento. Para além da homenagem óbvia ao conceito de labirinto de Jorge Luis Borges, este espaço adquire um significado extremamente ambíguo. Por um lado ele permite aos seus raros visitantes um processo iniciático na cultura livresca que, como no caso de Daniel, se pode tornar crucial para o seu crescimento enquanto pessoa. Por outro lado, duas palavras no nome do espaço contêm um valor conotativo bastante negativo: “cemitério” e “esquecidos”. Para além dos poucos livros que têm a oportunidade de ser “adoptados” pelos visitantes e assim voltar a ter um outro ciclo de vida, muitos milhares de volumes permanecerão para sempre no esquecimento. Pode ser interpretado como um símbolo do declínio do culto do livro em detrimento de uma cultura áudio-visual muito mais instantânea e fugaz. No entanto, e pela simples existência deste depósito de memórias e de História, há sempre a promessa de que um novo iniciado venha trazer à luz alguma dessas obras esquecidas. Lancei ainda uma proposta às restantes leitoras: de nos dirigirmos a um depositário de livros esquecidos (como um alfarrabista) e adoptarmos cada uma um livro, que estimássemos e guardássemos connosco durante toda a nossa vida. Fica a sugestão.













