Mostrar mensagens com a etiqueta Orhan Pamuk. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Orhan Pamuk. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Estamos sempre em cima do acontecimento!


Nobel para Orhan Pamuk, uma nossa leitura recente!

Pois é! Congratulamo-nos pela escolha, até porque a leitura de "Os Jardins da Memória" nos agradou bastante e a discussão desse livro foi uma das mais animadas.
Aqui fica o artigo que acabou de sair no Público Online:

Nobel da Literatura para o turco Orhan Pamuk
12.10.2006 - 12h04

O escritor turco Orhan Pamuk, 54 anos, foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura 2006.

O escritor foi distinguido porque, "na busca pela alma melancólica da sua cidade, descobriu novos símbolos para o confronto e o cruzamento de culturas", justifica o Comité Nobel.

Alvo dos nacionalistas turcos pela sua defesa da causa arménia e curda, Pamuk é autor de uma obra que descreve as tensões da sociedade turca, entre o Oriente e o Ocidente.

O autor, que acumulou prémios literários no estrangeiro, é considerado "persona non grata" por alguns dos seus compatriotas. "Um milhão de arménios e 30 mil curdos foram mortos nas suas terras, mas ninguém, para além de mim, ousa dizê-lo", afirmou Pamuk, em Fevereiro, numa entrevista a um semanário suíço.

O escritor chegou a ser perseguido pela justiça por "insulto aberto à nação turca", um crime passível de uma pena entre seis meses e três anos de prisão. As acusações foram retiradas no início deste ano.

Nascido no dia 7 de Junho de 1952 numa família francófona de Istambul, o escritor abandonou os estudos de arquitectura aos 23 anos para se dedicar exclusivamente à literatura. Sete anos depois, publicou o seu primeiro romance, "Cevdet Bey ve Ogullari" ("Mr. Cevdet and His Sons", na tradução em inglês).

Pai de um adolescente, Pamuk é divorciado e vive em Istambul.

Orhan Pamuk tem dois romances publicados em Portugal, ambos pela Editorial Presença: "A Cidadela Branca" e "Os Jardins da Memória".

O Nobel da Literatura consiste num prémio monetário de dez milhões de coroas suecas (1,1 milhões de euros), que será entregue a Pamuk numa cerimónia que terá lugar em Estocolmo, no dia 10 de Dezembro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2005


Acabei de ler uma notícia no Público sobre um dos nossos autores:


Literatura
Turco Orhan Pamuk recebe Prémio da Paz das editoras alemãs
23.10.2005 - 18h59 AFP



O escritor turco Orhan Pamuk recebeu hoje, em Franckfurt, o prestigioso Prémio da Paz de 2005 das editoras alemãs, à margem da Feira do Livro, evento que termina hoje.

Dieter Schormann, director da Associação das Editoras alemãs, considera que o escritor, de 53 anos, é uma ponte entre o Oriente e o Ocidente. “Orhan Pamuk segue os traços do Ocidente no Oriente e vice-versa”, explicou.

Pamuk defendeu, mais uma vez, a adesão do seu país à União Europeia, criticando indirectamente aqueles que na Alemanha se pronunciaram contra a integração da Turquia. O sentimento anti-turco na Europa “leva, infelizmente, ao desenvolvimento na Turquia de um nacionalismo anti-europeu”, salientou num discurso proferido na igreja de São Paulo em Franckfurt.

Pamuk, actualmente a viver em Istambul, deverá apresentar-se a tribunal em Dezembro por causa de umas declarações suas sobre a morte de milhares de curdos e arménios na Turquia. O escritor é acusado de “insulto deliberado contra a identidade turca”.

O prémio, que distinguiu recentemente o húngaro Peter Esterhazy e a norte-americana Susan Sontag, passa este ano para um valor de 25 mil euros contra os 15 mil até agora.

Pamuk é o segundo turco a receber este galardão, depois de Yachar Kemal em 1997.

domingo, 26 de junho de 2005

Com um atraso que até dói, aqui fica o resumo da discussão de Os Jardins da Memória (lembram-se? Aquele livro que lemos há tanto tempo?...) Enfim, mais vale tarde que nunca!


Mais uma vez, Os Jardins da Memória, de Orhan Pamuk, não reuniram consenso entre as leitoras do Chá de Letras. A maior parte teve dificuldade em acabar o livro, seja pela sua extensão, seja pela densidade do texto, que obrigava a uma leitura continuada e atenta.

A razão para a escolha deste romance como leitura do mês havia sido vontade de alargar o âmbito do clube a romances provenientes de outras culturas distintas. De facto, Pamuk, frequentemente comparado com Proust, é o romancista turco mais galardoado a nível nacional e internacional e que alegadamente fará a ponte entre o Ocidente e o Oriente, a modernidade e a tradição, o passado e o futuro. Neste aspecto, todas as leitoras foram unânimes em reconhecer que o faz de forma primorosa, e que a “mais valia” retirada da sua leitura terá sido um maior contacto com uma cultura tão diferente e tão complexa, e com a qual necessariamente teremos que criar laços, a concretizar-se a entrada da Turquia na União Europeia.

Foi, aliás, esse o tema, lateral à narrativa, que mais discussão suscitou durante a reunião. A questão mais premente foi a possibilidade de manutenção da cultura turca após a adesão à UE. A rigidez das normas comunitárias no que diz respeito, por exemplo, à uniformização dos produtos agrícolas, ou a normas de sanidade, colocará em risco instituições turcas tão importantes como, por exemplo, os mercados, onde reina um esfusiante caos e onde são típicas “as moscas na carne”, o exemplo que nos lembrámos para simbolizar essa incompatibilidade com as normas comunitárias de sanidade. Discutimos até que ponto é que será de perpetuar essas “moscas na carne” ou se certos hábitos culturais não serão mesmo de banir. Fazendo a transposição para o espaço português, foi também discutido o costume da matança do porco, enquanto evento familiar e festivo, e como foi proibido por uma questão sanitária. Estas questões levaram-nos a discutir uma atitude de relativização cultural que leva à desculpabilização de certas práticas como o ostracismo a que são votadas as mulheres, a obrigatoriedade de usar véu ou burka, práticas de amputação sexual, ou outro tipo de costumes que violam os direitos humanos, com o argumento que são parte de uma cultura ancestral a ser preservada a qualquer custo. Distanciámo-nos desta atitude, na medida em que, antes de quaisquer valores culturais específicos de cada povo deverão ser considerados os valores universais que têm a ver com os direitos de cada ser humano à sua dignidade e integridade física e mental.

Por outro lado, também foi lançado o argumento que, partindo do princípio que a União Europeia é um espaço de multiplicidade cultural, e que essa multiplicidade deve ser respeitada e defendida, então talvez seja benéfico que integre também um país islâmico e com uma vertente cultural marcadamente oriental, criando uma oportunidade para que a bipolaridade que vem sendo construída ao longo dos últimos anos, acentuada pelas duas Guerras do Golfo e pela catástrofe do 11 de Setembro, seja atenuada pelo exemplo de convivência num mesmo espaço político e económico que constitui a União Europeia.

No que diz respeito mais concretamente ao livro, as leitoras gostaram particularmente das crónicas escritas supostamente por Djélâl, como a crónica sobre os manequins, com a ideia subjacente da possibilidade da existência de uma sociedade subterrânea, secreta, que se estende ao longo da cidade; a crónica sobre a invasão o desaparecimento das águas do Bósforo, e de todos os dejectos da sociedade que passariam a estar visíveis no seu leito lamacento; ou ainda a crónica sobre a loja de Alladine, que tanto nos faz lembrar as lojecas que havia antigamente em Portugal nas terras mais pequenas onde se podia comprar de tudo e onde toda a espécie de artigos convivia numa alegre confusão.
As crónicas foram consideradas talvez a parte mais interessante do livro, embora, pela sua profusão (cada capítulo de narrativa intercala com uma crónica), tenham sido consideradas por algumas leitoras (incluo-me no grupo) como um entrave à fluidez da leitura. Talvez também pela variedade de temas que encerram as tenhamos considerado excessivas. Por mim, senti muitas vezes que o livro procura albergar demasiados pormenores, demasiados pontos de vista. Talvez tenha sido nesta perspectiva que a Rita afirmou que o livro tinha tudo para ser fascinante, mas que havia algo que falhava. Utilizando uma metáfora culinária, achei que parecia um prato confeccionado com tantos ingredientes, tantos condimentos, que se torna impossível apreciar adequadamente o sabor de cada alimento (logo eu, grande apreciadora da simplicidade e ascetismo da cozinha japonesa…). A meu ver, as crónicas dariam uma leitura semanal deliciosa, mas condensadas num só livro, tornam-se um tanto indigestas. Estejam perfeitamente à vontade para discordar!

Todas nos interrogámos sobre as possíveis interpretações para o facto de todas as personagens principais escreverem com esferográficas de tinta verde. Imediatamente nos veio à ideia a noção do verde enquanto símbolo de esperança. Pensámos, contudo, que poderia ter um qualquer outro significado na cultura turca. Procurei posteriormente em todos os meus dicionários de símbolos, e embora não tenha encontrado nada específico em relação À cultura turca, um dos dicionários referia a importância do verde para o islamismo:

(…) “Verde permaneceu, para os cristãos, a Esperança, virtude teologal. Mas o cristianismo desenvolveu-se em climas temperados, onde a água e a verdura se tornaram banais. O contrário se passa no caso do islamismo, cujas tradições se criaram como miragens, acima da imensidão hostil e ardente dos desertos. A bandeira do Islão é verde; e esta cor constitui para o muçulmano o emblema da Salvação, e o símbolo de todas as maiores riquezas, materiais e espirituais, de que a primeira é a família: verde era, dizem, o manto do enviado de Deus, sob o qual os seus descendentes directos – Fátima, a sua filha, Ali o seu genro, e os seus dois filhos Assan e Hussein – vinham refugiar-se na hora do perigo, razão pela qual lhes chamam ‘os quatro debaixo do manto’: os quatro, isto é, também, os quatro pilares sobre os quais Maomé construiu a sua igreja. (…)
No Islão, o verde é ainda a cor do conhecimento, bem como a do Profeta. Os santos, na sua morada paradisíaca, estão vestidos de verde.” In Chevalier, Jean e Alain Gheerbrant, Dicionário dos Símbolos, Lisboa: Teorema, 1994, p. 683.

Á luz desta explicação, penso que poderemos interpretar essa obsessão com a escrita a verde como mais uma tentativa de manter viva a tradição.

Mais uma vez, deparámo-nos com um livro que se debruça sobre o acto da escrita, a criação literária. Tem sido uma constante nas nossas leituras. Pensamos que se trata, de certa forma, de uma tendência de moda, tal como há uns anos atrás, como dizia a Ana Lúcia com muita graça, eram constantes as referências à homosexualidade. Ainda assim, congratulámo-nos com mais uma perspectiva sobre o, ainda assim, misterioso acto da criação artística.

Apesar de não conhecermos o original, pareceu-nos justo atribuir algumas das incongruências linguísticas à tradução. Eu já havia lido duras críticas às traduções inglesas da obra, e não temos como saber se esta foi traduzida do turco ou de uma outra versão traduzida. Percebemos, por exemplo, que o título não foi minimamente respeitado. Com a ajuda de um pequeno guia da Turquia, percebemos que o título em turco seria “O Livro Negro”, como aliás foi chamado na versão em inglês (The Black Book). E, apesar de, antes de ter iniciado a leitura, considerar o título muito bonito e sugestivo, foi uma das coisas que me foi irritando à medida que avançava na leitura: surgia constantemente mencionada a expressão “jardins da memória” e senti que não havia necessidade de explicar o título de forma tão óbvia. Afinal parece que foi uma liberdade do tradutor, ou da editora.

Gostámos todas particularmente das epígrafes escolhidas para o início de cada capítulo e tomam um especial significado a partir do momento em que a epígrafe do primeiro capítulo é: “Não useis a epígrafe, porque mata o mistério da obra!” seguida de outra que diz: “Se assim deve perecer, só tens que matar o segredo e também o falso profeta que vende o segredo”. Pelo facto de usar e abusar delas, quererá talvez demonstrar que a obra sobrevive para lá do mistério, e para lá do seu autor.

Numa segunda fase da discussão do livro, fizemos uma ronda de opiniões que se revelou bastante profícua. Vou referir apenas algumas das opiniões (aquelas de que ainda me lembro…) A Ana afirmou que gostou particularmente de ver tratado o tema da identidade. Queixou-se de uma certa “overdose” de informação mas realçou a criatividade das crónicas.

A Jennifer considerou a sua experiência de leitura, de uma forma geral, bastante positiva, e destacou a perspectiva diferente da que estamos habituados de lidar com a questão Ocidente/Oriente. A questão é abordada sem a normal atitude paternalista que os ocidentais têm em relação a outras culturas que tendem a ver como folclore. A esse propósito referimos ainda que nos parecia de alguma forma estar inferido no discurso um certo complexo de inferioridade, o discurso do vencido – o Oriente – apesar de surgir aqui e ali a referência ao peso histórico do império otomomano.

A Isabel referiu a dificuldade em avançar na leitura pela estranheza dos nomes das personagens, para os quais não temos referente, e também a dificuldade em compreender algumas referências culturais.

A Ana Lúcia, a leitora que manifestou ter gostado mais deste livro, teve uma intervenção muito interessante em que, de uma forma sucinta fez uma apologia do livro como a voz de um povo e de uma cultura que costuma ser silenciada mas que teve um impacto tremendo na formação da nossa própria cultura. Segundo a Ana Lúcia, o livro constitui um mau presságio para a cultura turca, na medida em que aqueles que a defendem acabam por morrer. Em relação à densidade do livro, a Ana Lúcia vê-a com o reflexo da densidade do próprio país – onde cada “pedra” contém uma infinidade de informação. Relembrou ainda que as origens da filosofia estão naquele que é actualmente território turco, então uma colónia grega.

A Rosária admitiu que lhe custou a entrar na história e que talvez o livro lhe tivesse dito muito mais se já estivesse estado na Turquia, o que ajudaria a identificar muitos mais aspectos. Realçou a intensidade do livro o facto de ser muito visual. Agradou-lhe particularmente a noção de família, simbolizada por aquele prédio onde co-habitava a família descrita na obra e onde se desenrola grande parte da acção.

No geral, todas reconhecemos que ganhámos algo com a leitura deste livro, uma outra perspectiva sobre assuntos tão actuais como o choque civilizacional entre o Ocidente e o Oriente. A discussão foi, desta vez, particularmente animada.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005


Orhan Pamuk Posted by Hello

PORTRAIT OF A WRITER

ORHAN PAMUK

Essay by Murat Belge

"... I end up recalling some other story in which the only way to be oneself is by becoming another or by losing one's way in another's tales; and the tales I want to put together in the black book remind me of a third or forth tale just like our love stories and memory gardens that open into one another ..."

"After all, nothing can be as astounding as life. Except for writing. Except for writing. Yes, of course, except for writing, the sole consolation."

Orhan Pamuk, The Black Book

What distinguishes Orhan Pamuk from most other Turkish writers is that for him the activity of writing is a mode of existence. By this I do not mean to say that Orhan Pamuk is more committed to the vocation than others. It is not so much a matter of the degree of commitment, but rather the form of it -his way of defining, limiting and specifying himself as "a writer", first and foremost. For most writers writing is self-expression, a passion usually, a gesture to cope with life and reality and an effort to produce meaning. For Orhan Pamuk these and other motivations may also be relevant, yet for him writing is a job, a career. His relationship to writing is cool, cerebral, and impassionate. It is an objective predicament that becomes identical with, and directs personal life, preferences, choices, etc.
His career as a writer does not limit his interests in various walks of life but delimits or structures his way of involvement in them. He is Orhan Pamuk, the writer, the novelist and not simply Orhan Pamuk, the individual, when he deals with, or ponders on a historical, political, social, aesthetic or merely existential question.
The publication of Cevdet Bey and His Sons in 1982 marks the beginning of his career. This was an almost naturalist novel, a dry and detailed (sometimes to the point of getting dull) family saga in the good old realist tradition. It was followed by The Silent House in 1983 where Orhan Pamuk had shifted to the "point of view" technique. We had to make up our own picture of what was happening through the internal monologues of a number of characters whose psycho-sociological formations were carefully studied by the author. The White Castle (1985) was erected on terrain already highly "post-modernized", but here the writer was re-constructing the ways of thinking of people who lived in a past age. The Black Book (1990) and New Life (1994) are clearly in the post-modern tradition of novel-writing. They are, in the words of Frederic Jameson, "national political allegories", in the sense that they present a general and historical vision of the society to which Orhan Pamuk belongs; but in form and technique they possess the entire arsenal of the post-modern novel born in the West.
So, the avatars through which the Orhan Pamuk Novel has progressed form a whole that looks like "A Condensed History of the Development of the Novel Form". Being the man of literature par excellence, his biography as a novelist is shaped in line with the history of the novel in general, his overall career, as well as his individual works, makes references to the world of literature.
Orhan Pamuk has been an innovator in the context of the Turkish novel in many ways, but I would like to dwell on one -very basic- trait of his work. He has introduced what I can call an architectural principle into Turkish fiction. His novels resemble meticulously constructed edifices where the elements are all functionally interdependent. They support and reflect one another, comment on and modify each other in an impeccable order. Nothing sags, no single piece of stone is laid haphazardly or without structural purpose. The overall plan of the book provides an explanation for every component.
Whereas for most writers a novel begins to grow and to take life during the process of writing, this process for Orhan Pamuk is merely the stage execution of the already highly perfected design. Rather than trying to create the illusion that art is life, he prefers to emphasize the novel's mode of existence -and its insertion into life- as an artifact, a product of the human mind, a response of the human intelligence, seeking meaning in order, to the challenge of life with its neutral complexity, infinity and chaos.