segunda-feira, 16 de fevereiro de 2004

Ora aqui vai então o texto que redigi sobre a nossa discussão do livro "Cosmópolis" de Don DeLillo de ontem à tarde

As opiniões dividiram-se bastante. Houve quem tivesse gostado
bastante do livro, como a Ana e a Guida, e quem não tivesse
gostado nada, como a Rita, que fez um esforço para ler até ao fim.
Depois houve as opiniões mais moderadas, como a Cristina e a
Jennifer, que sem terem propriamente adorado o livro, lhe
reconheceram alguns méritos.
A Rita queixou-se que a estrutura do texto era deficiente, que as
personagens não tinham grande densidade e eram fúteis e superficiais
e que toda a realidade retratada era frívola e artificial. A Ana
Lúcia acrescentou que, mais que plástica, a realidade do livro é
metálica, pela sua frieza. A Guida argumentou que era assim a alta
roda das finanças e que, nesse aspecto, terá sido fiel. A Cristina
disse que normalmente gostava que os livros constituíssem janelas
para outros mundos desconhecidos e que, de facto, este livro a
transportava para um mundo que lhe é completamente alheio, mas que
ainda assim lhe era bastante desagradável.
A Ana Lúcia referiu com especial agrado a forma como o livro é
contado, gostou da omnisciência do narrador que opta por revelar
pequenas porções do que passa no íntimo das personagens.
Á Ana agradaram-lhe particularmente os pormenores mais "surreais" da
obra, como o episódio do exame médico ou a episódio da filmagem da
cena de nus, ou a casualidade dos encontros fortuitos com a mulher.
Esses pontos foram relativamente consensuais, todas as leitoras os
acharam bastante originais.
De seguida falou-se sobre o eventual papel que os acontecimentos do
11 de Setembro (que aconteceu alegadamente a meio da escrita do
livro) terão tido no processo de criação da obra. Ninguém conseguiu
situar um ponto distinto de transição. A Ana Lúcia sugeriu que os
dois sub-capítulos inseridos com a confissão do assassino seriam
posteriores, a Cristina discordou, na medida em que têm um papel
importante na questão do tratamento do tempo na obra. Sugeriu,
contudo, que a cena dos corpos nus deitados no asfalto poderia ter
sido inspirada nos acontecimentos. Foi dito que o próprio DeLillo
terá afirmado que pouco vieram influenciar a história, na medida em
que já ia avançada. A Cristina disse que, ainda que não tenha
influenciado a escrita do livro influenciou indubitavelmente a sua
recepção.
A Cristina procurou ainda expor a sua leitura do tratamento do tempo
no livro, em parte retirada de um artigo que leu (e que está à
disposição de todas na secção "files" do nosso grupo yahoo). Diz o
referido artigo que o livro é uma viagem do dia para a noite, da
vida para a morte, mas também do presente para o passado, na medida
em que a personagem central busca de forma algo obsessiva e contra
todas as opiniões do seu staff chegar a um determinado ponto da
cidade – uma barbearia – que sabemos, mais para o fim, localizar-se
no bairro onde cresceu o seu pai, a barbearia já frequentada pelo
mesmo e onde este o levou ainda criança (o pai terá falecido tinha
Eric 4 anos). É, pois, um retorno às origens, a um passado que já
era passado na sua infância mas que constitui a única coisa mais
próxima que tem de raízes. Temos então uma narrativa que avança
cronologicamente no tempo real mas que recua no tempo psicológico.
Temos ainda as duas confissões do assassino que são posteriores no
tempo e que são inseridas no texto: primeiro a confissão posterior
ao assassinato e depois a que o antecede. Tudo isto resulta numa
concepção circular do tempo em que passado, presente e futuro se
confundem e se tornam, de certa forma, simultâneos. Não esquecer,
ainda, que a personagem central, é o homem que ganha a vida a
adivinhar o futuro. É ele que analisa as tendências dos mercados, e
que, através de analogias com fenómenos da natureza, procura
encontrar padrões de comportamentos dos mercados por forma a
investir da melhor forma. No entanto, ele menospreza a importância
do acaso, da assimetria, do fortuito, e é essa a grande lição que
ele vai aprender nesta sua última viagem. Vai aprender que é
impossível prever o futuro porque há imprevistos que fogem ao nosso
controlo. Ele continua, no fim do livro, a ser o homem que vê o
futuro, com o auxílio da tecnologia que tem ao dispor (vê-se a si
próprio numa morgue de hospital no visor do seu relógio), mas também
é o homem profundamente aliviado porque a assimetria da sua próstata
é apenas isso, mais um dos acasos que não podemos controlar. A
Cristina sugeriu ainda, em tom de brincadeira, que a próstata
assimétrica, tantas vezes referida ao longo da narrativa, seria a
chave da leitura do livro, na medida em que simboliza tudo aquilo
que não podemos controlar, que foge à "normalidade", e que, como tal
nos assusta e nos escapa, por não conseguirmos encaixar dentro das
categorias que criamos constantemente.
A Ana Lúcia referiu ainda que a próstata assimétrica é o que liga os
dois homens, o protagonista e o seu assassino, e que os dois homens
constituem "as duas faces de uma mesma moeda".
Foi consensual que, mais do que de um assassinato, se tratou aqui de
um suicídio, pois o protagonista preparou a sua própria morte.
Percebe-se mais para o fim do livro que a própria catástrofe
financeira que o assola foi preparada por ele: na medida em que ele
constituía uma referência para os outros investidores, a partir do
momento em que começou a investir no yen provocou uma tremenda
agitação no mercado e a subida dessa moeda até valores completamente
impensáveis. Ele continua a investir, e pensamos primeiro que se
trata de uma acção arrojada de quem sabe que o yen não poderá subir
mais, apesar dos seus conselheiros lhe sugerirem prudência, mas
percebemos depois que se trata de um verdadeiro suicídio financeiro.
O suicídio real também se segue: apesar dos avisos de que recebeu
ameaças à sua vida, arrisca-se num comportamento irresponsável.
Vai "largando" os guarda costas e chega mesmo a matar o seu chefe de
segurança, o único que podia ainda evitar que se defrontasse com o
seu destino. É ele que, novamente por coincidência (serão os acasos
e coincidências o ponto de contacto com o Paul Auster? – sugeriu a
Rita) vai ao encontro do seu assassino (ou um mero meio para um
suicídio?) nos escombros onde este habita.


Completem, minhas amigas, alterem, acrescentem, o que quiserem...
não me lembro de tudo o que foi dito, com certeza que poderá ficar
mais rico.

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