sábado, 24 de julho de 2004

Saiu uma crónica na revista do “Xis” do Público de hoje que achei que teria interesse para nós. Outra leitora fascinada pelo narrador/osga… Transcrevo-a na íntegra:

CRÓNICA de Faíza Hayat - Conversas com o espelho - “Osga real”

Uma osga, colada ao cristal da jane­la, olha a melancolia da tarde, fecha­da no corpo e fechada em casa. Não pode abandonar a espécie nem pode abandonar o sítio. Ali está, fazendo o melhor possível da sua nova vida, uma vida de osga, em Luanda, uma vida de alguém que já viveu em cor­po de homem. Todos, em redor des­ta osga, olham para o seu passado ­o que não têm mas, precisamente, o que lhes faz mais falta. A osga habi­ta a casa de Félix, um albino que ven­de memórias sob a forma articulada de biografias. Félix é um vendedor de passados: "Dê aos seus filhos um passado melhor", oferece o albino no seu cartão de visita.
A osga vê. E ri. Pertence a uma es­pécie rara de osgas que consegue esboçar um sorriso. O passado é o único tempo que conhecemos bem em nós. Tudo o resto é incerto e es­tá por acontecer - uma promessa, uma profecia, um desejo. Um além. O passado é a nossa única certeza pe­rante nós e perante os outros - nem que seja um passado mentiroso. A mentira é irrelevante. A memória é que nos sustenta. Mas não há me­mórias verdadeiras, como sabe Jo­sé Eduardo Agualusa. Acabo de ler o seu "Vendedor de Passados". Sou uma leitora fiel, confesso, do escri­tor angolano. Não conheço todos os seus livros mas conheço a maior parte. O suficiente para arriscar di­zer que este é o seu romance mais in­teligente. De certo modo, também, o mais incómodo: se a nossa realida­de é uma ficção, não se trata de ser­mos autênticos; temos apenas de ser convincentes. Se não conseguirmos - desgraça! - precisamos de pagar a alguém que minta por nós. Como os clientes de Félix.
O narrador deste romance apenas poderia ser uma osga: um bicho dis­creto, transparente e limpo, ágil mas frágil. A osga de Agualusa não tem medo da metamorfose. Tem apenas medo de lacraus. O seu corpo é ape­nas o suporte a partir do qual pode espreitar e sonhar. É um jogo apai­xonante, este: alguém, um alguém ­bicho, tão repugnante como um rép­til, guarda do humano o passado que já não consegue tocar, enquanto, pe­la casa, gente vai surgindo e desapa­recendo. Desaparece por paixão, en­golida pela pele e pelo passado que lhe ( s) arranjam. Félix é filho adopti­vo de um alfarrabista. O seu mundo é a sua biblioteca (livros, recortes, fo­tografias, estilhaços de passado que ele organiza por catálogo). Jorge Luis Borges está aqui. Arriscaria di­zer que Borges, o próprio escritor, re­encarnou na osga Eulálio. Enquan­to houver livros, não precisamos de corpo. É o sonho (a biblioteca imen­sa que desaba em nós a cada noite) quem nos diz quem somos, ou me­lhor, quem podemos ser. Alguns dos mais belos capítulos do "Vende­dor de Passados" - com uma escrita exacta, de cadência curta, com uma tranquilidade sábia (Agualusa está a ficar maduro?!)- encontra-se na des­crição dos sonhos.
Eulálio, a certo ponto, recorda Cha­twin e a biografia do escritor britâ­nico feita por Nicholas Shakespeare (era escusada a prosaica referência à "tradução portuguesa da Quet­zal"...). Chatwin, além de grande escritor, ou por causa de o ser, foi um mentiroso genial. "Uma histó­ria não tem que ser verdadeira", di­zia ele, "tem apenas que ser boa". É possível viver assim. A Patagónia de Chatwin, ou a sua Austrália aborí­gene, não existem. Mas milhares de pessoas procuram-nas - e encon­tram-nas! - todos os anos, de mochi­la às costas e um catálogo de mitos que mantêm o culto de Chatwin vi­vo. É um pouco assim a nova Angola que Agualusa nos revela no seu no­vo romance, por absurdo: uma socie­dade pode canibalizar a realidade a tal ponto que não resta outra saída senão comprar o passado. Para viver a dignidade da mesma forma que se consome um estupefaciente. Há o perigo da alienação, claro. Mas há a vertigem de ser feliz, encontrando a vida, uma vida, de onde surgimos.
Gosto deste livro por ainda mais um detalhe: é raro encontrar escritores que revelem um conhecimento mí­nimo do que são (ou do que querem) as mulheres. Não sei quem ensinou a Agualusa. Parece-me que ele apren­deu o essencial: não se trata de cha­mar-nos gazelas ou garças. Isso qual­quer homem pode fazer. Trata-se de nos mentir com talento. Como Félix sabe fazer - é por isso que a garota do livro acaba por entregar-se ao "ven­dedor de passados".

faiza.hayat@xis.publico.pt

1 comentário:

jennifer disse...

Na sequência do aniversário de morte do nosso querido autor de momento (Truman Capote), deixo para vossa leitura um artigo publicado no público de hoje:

Truman Capote
Por KATHLEEN GOMES
Quarta-feira, 25 de Agosto de 2004

O encantador e a serpente

Sobre Truman Capote, James Wolcott escreveu na revista "Vanity Fair" que "ele tanto era o encantador de serpentes como a própria serpente". É uma dessas definições invejáveis, verdadeiramente "à la Capote": eficaz, certeira, profunda, mordaz.

De Capote se pode dizer uma e outra coisa: por exemplo, que foi um autor que fez da escrita uma experiência estética, e que foi um "poseur", um arrivista dado às mundanidades que só tinha um objectivo em mente - a fama.

Uma forma de resumir este Truman Capote dois-em-um é dizer que foi a mais fascinante figura literária da era dos "talk-shows". As suas primeiras e últimas aparições televisivas constituem a cartografia da ascensão e queda de um mito, entre o menino-prodígio que nos anos 50 minimizou a obra de Jack Kerouac ("não é escrita - é dactilografia") e o velho que se tornara um embaraço no final da década de 70 e que apareceu bêbado num programa de televisão depois de ter pedido ao apresentador para não falar dos seus problemas de alcoolismo.

Um e outro - o encantador e a serpente - não perderam o fascínio, 20 anos após a morte de Truman Capote. Por causa de um e de outro, ainda há quem resista em incluí-lo entre os grandes escritores norte-americanos do século XX. "Enfant terrible" da literatura americana do pós-guerra é aceitável, mas "grande escritor"?

Não ajuda que Capote tenha produzido uma obra mais ou menos dispersa, mais ou menos irregular, quase sempre sob a forma de pequenas narrativas (contos, novelas, ensaios), que não chegasse a terminar o seu prometido "opus" proustiano, que tivesse a pretensão de aproximar o jornalismo da arte literária.

Não ajuda, enfim, que as suas aspirações incluíssem "ser rico e famoso". "Eu tinha que ter sucesso e tinha que tê-lo cedo", afirmou em 1978. "O que acontece com pessoas como eu é que sempre soubemos o que íamos fazer. Muitas pessoas passam metade da vida sem saber. Mas eu era muito especial e tinha de ter uma vida especial. Não fui destinado a trabalhar num escritório ou algo do género, embora fosse certo que teria êxito no que quer que fizesse. Mas sempre soube que queria ser um escritor e que queria ser rico e famoso."

Ascensão...

E, apesar de tudo, criou e solidificou um estilo. No prefácio de "Música Para Camaleões" (1980) diz que pretendia alcançar "a credibilidade dos factos, a imediatez do cinema, a profundidade da prosa e a exactidão da poesia". As três últimas, pelo menos, são visíveis em "A Sangue Frio" (1965), espécie de texto sagrado da "nonfiction novel", da "reportagem narrativa".

Lendo entrevistas do autor à altura, e outros textos seus, tem-se a impressão de que foi um romance - de não-ficção, como dizia, mas ainda assim um romance - feito para provar uma teoria: a de que "a reportagem podia ser tão interessante e tão artística quanto a ficção".

Capote já tinha feito um ensaio com "Ouvem-se as Musas" (1956), relato da viagem à URSS da companhia de teatro americana de "Porgy and Bess", que é também um fresco sobre os equívocos e "clichés" com que a América via os russos e vice-versa.

Além disso, Capote tinha treinado intensamente a memória para não precisar de gravadores nem de blocos-de-notas nas entrevistas e reportagens. Para que nada interferisse entre predador e presa. Quando, a 16 de Novembro de 1959, o "New York Times" publicou uma pequena notícia sobre um homicídio múltiplo numa quinta isolada do Kansas, Capote partiu de comboio para o Midwest e durante seis anos trabalhou em "A Sangue Frio", recolhendo testemunhos, verificando pistas, privando com os assassinos até à execução da pena de morte.

O resultado foi uma obra sem precedente, que, numa extraordinária combinação de montagem paralela e detalhe, condensava uma espécie de fim trágico do sonho americano - as vítimas, os Clutter, pai, mãe, filha e filho, personificavam um modelo exemplar da família americana.

Norman Mailer, autor de "A Canção do Carrasco", no que viria a ser um dos episódios da célebre inimizade que o unia a Capote, descreveu "A Sangue Frio" como uma "falha de imaginação", pressupondo que um verdadeiro romancista deveria escrever sobre o seu imaginário e não sobre a realidade.

O que seria produto de intriga, mais do que qualquer outra coisa: um dos sortilégios de "A Sangue Frio" é a moldura tão impossivelmente real das personagens (mas tão potencialmente ficcional), a omnisciência do autor, a sua capacidade para reproduzir, por exemplo, os pensamentos de uma rapariga de 16 anos, Nancy Clutter - em suma, a sua habilidade para transcender a realidade.

Sobre a "credibilidade factual" que Capote tanto defendeu, cite-se o "Auto-retrato", de 1972 (incluído em "Os Cães Ladram", ed. Relógio d'Água): "A arte e a verdade não são necessariamente parceiros sexuais compatíveis."

A verdade é que Norman Mailer fez parte de uma minoria. "A Sangue Frio" foi pré-publicado em série na revista "New Yorker", estabelecendo um recorde de vendas, e o livro vendeu mais de 300 mil exemplares, permanecendo 35 semanas na lista de "best-sellers" do "New York Times". Capote, que já tinha ampla notoriedade, tinha conseguido: era rico e famoso.

Comemorou o êxito com um baile de máscaras no Plaza Hotel, Nova Iorque, em 1966: o "Black and White Ball", também conhecido como "a última grande festa americana", foi uma festa para mais de 500 "escolhidos", entre estrelas de Hollywood e uma elite aristocrática.

"A Sangue Frio" valeu-lhe um contrato milionário com a Random House, para um livro que o autor teria de entregar em dois anos. Ressentido pelo facto de o Pulitzer e o National Book Award terem ido para Mailer, Capote projectou o que ambicionava ser o seu legado canónico, uma espécie de "Em Busca do Tempo Perdido" contemporâneo, baseado nos seus diários, correspondência e anotações ao longo de anos: "Súplicas Atendidas".

... e queda

Viria a ser o seu eterno "work-in-progress", e um anti-clímax amargo: Capote não só não terminou o livro, como os excertos publicados na "Esquire" lhe custaram a amizade do que chamava os seus "cisnes" - mulheres da sociedade-caviar, o "jet-set" feminino com quem forjara cumplicidade tanto tempo.

Foi, sobretudo, o capítulo "La Côte Basque" que surgiu como uma traição: um relato de inconfidências feitas à mesa de um restaurante numa mistura de vícios privados, misoginia e muita, muita fofoca. Quando lhe pediram contas, respondeu: "O que é que eles esperavam? Sou um escritor e uso tudo. Será que todas aquelas pessoas pensavam que eu estava lá só para as entreter?" Capote refugiou-se no álcool e em anti-depressivos, assegurando a todos os interessados e não-interessados que continuava a trabalhar em "Súplicas Atendidas" - que permaneceu inacabado e foi publicado postumamente, em 1986, com os mesmos capítulos que tinham aparecido na "Esquire".

Morreu a 25 de Agosto de 1984, a pouco mais de um mês de completar 60 anos, em Los Angeles, na casa da amiga Joanne Carson, ex-mulher do apresentador de "talk-shows" Johnny Carson. No seu obituário, pelo sim pelo não, o "New York Times" citava o comandante da polícia de L.A.: "Não há qualquer indicação de que seja uma partida." Porque, afinal, Capote era capaz de tudo pela fama.

Andy Warhol relata nos seus diários que, em 1978, o "New York Times" publicou um artigo sobre Capote com uma fotografia "que não parecia Truman". "Parecia a mãe dele. Ele estava de pé na relva, com um chapéu de palha e um lençol que o fazia parecer grávido. (...) Ele disse: 'Olha, sou eu. Gostas?' E enquanto isso falava do artigo, que mencionava a palavra 'declínio'. E ele disse: 'Declínio? Que declínio? Sou o escritor sobre o qual mais se escreve no mundo.'"