terça-feira, 20 de julho de 2004

Discussão de “O Vendedor de Passados”, de José Eduardo Agualusa


Começámos por dar uma opinião geral sobre o livro e, consensualmente, considerámo-lo bastante bom. Permite uma leitura muito fluida e agradável.

Talvez o elemento que mais nos tenha cativado foi a escolha do narrador – Eulálio, a osga-tigre. Considerámos muito original, tanto pelo efeito de surpresa que provoca (de início o leitor não se apercebe de que o narrador é um animal, mais concretamente uma osga, e o facto de, a uma determinada altura, tudo começar a fazer sentido é mais um factor que aumenta o prazer da leitura). De facto, uma osga constitui um observador privilegiado – a sua capacidade de se fixar às paredes ou ao tecto permite-lhe um ponto de vista distanciado, mais objectivo, e o facto de passar despercebida permite que veja sem ser vista. No entanto, não deixa de estar implicada na narrativa. Logo desde a primeira página do romance, ela começa a estabelecer uma relação muito especial com o protagonista Félix Ventura, tornando-se na sua melhor ouvinte. Os “diálogos” entre as duas personagens são bastante unilaterais, na medida em que a única hipótese de resposta da osga consiste no emitir de gargalhadas (ficou por apurar se esses animais têm mesmo a capacidade de emitir alguma espécie de som) mas ainda assim é feed-back suficiente para que Félix escolha a sua companhia: “Desde essa altura, depois de me ter ouvido rir, chega mãos cedo. (…) Conversamos. Ou melhor, ele fala, e eu escuto. Ás vezes rio-me e isso basta-lhe. Já nos liga, suspeito, um fio de amizade”(p.15).

Temos ainda, em alguns capítulos, vislumbres da vida passada da osga, enquanto humano. Segundo o próprio Agualusa, em entrevista transcrita no blogue, o narrador/osga é uma reencarnação de Jorge Luis Borges, e alguns dos elementos biográficos referidos são inspirados na própria biografia do consagrado autor. Aliás, uma bonita citação de Borges precede a obra: “Se tivesse que nascer outra vez escolheria algo totalmente diferente. Gostaria de ser norueguês. Talvez persa. Uruguaio não, porque seria como mudar de bairro.” Não sabemos se Borges gostaria de ter renascido osga africana, mas é, decerto, totalmente diferente…

Existe ainda um outro espaço na narrativa onde as personagens humanas e Eulálio se encontram, e onde é possível o diálogo entre elas. – o espaço do sonho. Félix e Eulálio encontram-se no Sonho nº3, pp. 89-93, e no Sonho nº 4, pp. 103-105. E José Buchmann e Eulálio encontram-se no Sonho nº 5, pp 155-160, e no Sonho nº 6, pp. 219-223. São estes momentos oníricos que nos permitem um conhecimento mais profundo das personagens humanas. Uma citação da obra permite-nos uma melhor compreensão da função narrativa do sonho na obra: «“Deus deu-nos os sonhos para que possamos espreitar o outro lado”, disse Ângela Lúcia. “Para conversarmos com os nossos mais-velhos. Para conversarmos com Deus. Eventualmente, com osgas.”» (p. 93).

Por todos estes motivos considerámos a osga um dos narradores mais deliciosos de que nos lembrámos. Trata-se de uma estratégia narrativa muito original e muito bem trabalhada.

A propósito de “bem trabalhada” questionámo-nos se Agualusa teria demorado muito tempo a escrever esta obra e se a sua escrita tinha sido fluida ou teria tido necessidade de trabalhar muito o texto. Algumas opinaram que os textos que parecem mais simples são, por vezes, aqueles que mais trabalho requerem e que, essa simplicidade é apenas aparente. E, de facto, pela forma cuidadosa como está estruturado e pelo ritmo tão fluído das palavras, parece-nos que o texto mereceu especial atenção.

Também a propósito de ritmo, foi referido que existem dois ritmos completamente distintos na narrativa. O que perpassa o texto quase todo é um ritmo calmo, gingão, africano, em que pouco acontece, em que as personagens são muito mais importantes que os acontecimentos e em que estas valem por si próprias. Depois, na parte final da obra, o ritmo acelera, torna-se quase trepidante, temos um desenrolar frenético de acontecimentos em que tudo se precipita e em que, finalmente, percebemos que as personagens se encontram inter-ligadas por acontecimentos passados e que foi uma espécie de providência que as reuniu no espaço da casa do albino Félix Ventura.

A outra ideia muito original que mais agradou às leitoras foi a ideia de um homem que fabrica e vende passados. É um homem que providencia a quem necessita (geralmente políticos e personalidade influentes do país) um passado ilustre e decente. Esse homem é, curiosamente, ele próprio um homem sem passado. Ele foi abandonado em bebé à porta de um alfarrabista que o criou como se fosse seu filho. É, a todos os níveis, uma personagem excepcional. É-o fisicamente pelo que o seu aspecto físico tem de sinistro: é um negro albino. E é-o especialmente pela sua capacidade de efabulação. É senhor de uma imaginação prodigiosa para a ficção, aliada a uma escrupulosa minúcia na procura de dados reais que dão verosimilhança às vidas que inventa. Ele é, no fundo, um autor, na medida em que cria personagens fictícias as lança no mundo, à mercê do seu próprio destino. Afirma Félix: “Acho que aquilo que faço é uma forma avançada de literatura”, confidenciou-me. “Também eu crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida, atiro-os para a realidade”. (p. 91). Aliás, o tema principal que perpassa a obra é a relação entre a realidade e a ficção.
“ A realidade é dolorosa e imperfeita” dizia-me, “é essa a sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos. Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar – se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.” (p. 122).
Intimamente ligada à ideia da realidade versus a ficção está a ideia de verdade e mentira que é aqui também um dos principais vectores que atravessa a obra.
Uma das noções mais interessantes sobre o tema surge através de uma recordação de Félix do discurso de um autor, aquando da publicação do um seu livro: “a grande diferença entre as ditaduras e as democracias está em que no primeiro sistema existe apenas uma verdade, a verdade imposta pelo poder, ao passo que nos países livres cada pessoa tem o direito de defender a sua própria versão dos acontecimentos. A verdade, disse, é uma superstição.” (p. 91) Um pouco antes disto afirma: “A literatura é a maneira que um verdadeiro mentiroso tem para se fazer aceitar socialmente” (p. 91) A literatura é então uma arte socialmente aceite de criar mentiras.
Os clientes mais habituais de Félix Ventura, em busca de um passado honroso são os políticos, numa crítica evidente à hipocrisia e tentativa por parte da classe política angolana de branquear o seu passado sangrento e indigno. Como foi notado, é curioso que o capítulo em que é descrito o ministro seja imediatamente precedido pelo capítulo em que surge o lacrau…

Uma manifestação artística da ideia de que a verdade é múltipla e que é tanto mais rica quanto mais pontos de vista estiverem presentes é a obra do artista plástico britânico David Hockney. Ele é referido na obra quando Félix compara o efeito provocado pelo conjunto das fotos que lhe vai enviando Ângela Lúcia do mundo inteiro coladas na parede da sala de jantar às experiências de David Hockney com polaróides. Tivemos oportunidade de observar uma impressão de uma dessas obras, “Pearblossom Highway”, onde figura a imagem de uma estrada numa paisagem desértica. O interessante desta imagem é que é constituída por centenas de fotografias polaróide, coladas num enorme painel. Temos então uma “realidade” construída através de fragmentos de outras realidades, captadas a horas diferentes, de perspectivas diferentes. O resultado da soma de cada uma dessas pequenas partes transcende-as completamente, originando uma ficção. É assim, talvez, que também nós observamos a realidade: justapondo os fragmentos que vamos observando. Assim, a nossa percepção das coisas e das pessoas não é muito diferente da colagem de David Hockney – um acumular de perspectivas, factos e pormenores que nos permite uma macro-visão necessariamente ficcionada. E tal como, ao ler um livro somos obrigados a preencher os espaços em branco constituídos por tudo aquilo que não é descrito pelo autor, também a nossa visão do mundo nos obriga constantemente a preencher silêncios e a imaginar um todo que só existe para nós.
A capacidade de “re-ligar” o real, de ver a realidade como um todo a que todos os fragmentos de vida pertencem, é uma qualidade apenas das pessoas mais alienadas, dos loucos: “Todas as histórias estão ligadas. No fim tudo se liga.” Suspira: “Mas só alguns loucos, muito poucos e muito loucos, são capazes de compreender isso.” (p. 215).

Comentámos o conceito de felicidade veiculado na obra: “A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos. (p. 123). Os momentos felizes são aqueles em que nos desligamos das responsabilidades do mundo (e do mundo em si mesmo?). Se só somos felizes nos momentos em que fechamos os olhos, isolando-nos assim do que nos rodeia, será a felicidade um sentimento solitário, a fruir individualmente? Ou então esses momentos são tão intensos que precisamos de nos recolher momentaneamente para melhor os viver.
Fica claro também que não se é sempre feliz, temos momentos felizes. Somos felizes “para sempre” quando esse sentimento é tão pleno que nos parece eterno. (cf. p. 117).

Resta-nos terminar com uma frase que é repetida n’”O Vendedor de passados” – “o pior pecado é não amar” e terminar com um poema de Vinicius de Moraes, o “Soneto da Felicidade”, onde fica a ideia de que é imperioso viver cada momento feliz como se fosse eterno:

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

2 comentários:

carolina disse...

uma pequena correção: as fotos na colagem 'pearblossom' não são polaroides. estas têm bordas, e foram usadas por david rockney em sua primeira fase de experimentos fotográficos. ao optar para fotos comuns, rockney acredita ter chegado mais perto do intento de representar, com maior fidelidade, a impressão do olho humano ao fitar uma paisagem. pearblossom', segundo o artista, o ponto mais alto de seus experimentos fotográficos.

Anónimo disse...

* 'pearblossom, segundo o artista, é o ponto mais alto de seus experimentos fotográficos.