Na esperança de podermos ir ao concerto, aqui fica um "cheirinho"!
sexta-feira, 9 de maio de 2008
domingo, 4 de maio de 2008
Bifes e filhos
Estava hoje ao almoço a petiscar uns mariscos na esplanada em frente a minha casa com a minha amiga Ica, quando ela repara na seguinte cena: um casal e duas filhas, uma de uns 10 outra de uns 15 anos, almoçavam numa mesa próximo da nossa. Quando vem a comida, bifes, cada um dos pais, com a displicência de quem o faz sempre, começa a cortar os bifes nos pratos de cada uma das filhas. Ficámos a pensar: até que idade é razoável que os pais façam uma coisa dessas? A partir de quando um acto que é necessário quando se trata de uma criança pequena se torna ridículo e mesmo prejudicial ao saudável desenvolvimento das crianças?
Claro que ainda hoje me delicio quando vou comer a casa dos meus pais e um deles me descasca uma laranja aos gomos ou uma maçã em quartos, mas isso são miminhos que sabem bem em qualquer idade.
Gostaria de algum feedback por parte dos que já são pais: quando tencionam deixar os vossos filhotes cortar os seus próprios bifes?
Dia da Mãe

Ferdinand Georg Waldmüller (1793-1865)
Junge Bäuerin mit drei Kindern im Fenster /
Jovem camponesa à janela com três filhos (1840)
Na Neue Pinakothek, em Munique
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Dia do Trabalhador
História do dia do trabalhador
No dia 1º de Maio de 1886, 500 mil trabalhadores saíram às ruas de Chicago, nos Estados Unidos, em manifestação pacífica, exigindo a redução da jornada para oito horas de trabalho. A polícia reprimiu a manifestação, dispersando a concentração, depois de ferir e matar dezenas de operários.
Mas os trabalhadores não se deixaram abater, todos achavam que eram demais as horas diárias de trabalho, por isso, no dia 5 de Maio de 1886, quatro dias depois da reivindicação de Chicago, os operários voltaram às ruas e foram novamente reprimidos: 8 líderes presos, 4 trabalhadores executados e 3 condenados a prisão perpétua.
Foi este o resultado desta segunda manifestação.
A luta não parou e a solidariedade internacional pressionou o governo americano a anular o falso julgamento e a elaborar novo júri, em 1888. Os membros que constituíam o júri reconheceram a inocência dos trabalhadores, culparam o Estado americano e ordenaram que soltassem os 3 presos.
Em 1889 o Congresso Operário Internacional, reunido em Paris, decretou o 1º de Maio, como o Dia Internacional dos Trabalhadores, um dia de luto e de luta. E, em 1890, os trabalhadores americanos conquistaram a jornada de trabalho de oito horas.
116 anos depois das grandiosas manifestações dos operários de Chicago pela luta das oito horas de trabalho e da brutal repressão patronal e policial que se abateu sobre os manifestantes, o 1º de Maio mantém todo o seu significado e actualidade.
Nos Estados Unidos da América o Dia do Trabalhador celebra-se no dia 3 de Setembro e é conhecido por "Labor Day". É um feriado nacional que é sempre comemorado na primeira segunda-feira do mês de Setembro e está relacionado com o período das colheitas e com o fim do Verão.
No Canadá este feriado chama-se "Dia de Oito Horas". Tem este nome porque se comemora a vitória da redução do dia de trabalho para oito horas.
Na Europa o "Dia do Trabalhador" comemora-se sempre no dia 1 de Maio.
Esta informação veio daqui.
Em Portugal, o 1º de Maio só voltou a ser celebrado abertamente após o 25 de Abril de 1974.
No Algarve, a tradição neste dia é fazer um pick-nick em família, ou comer a primeira caracolada da época.
Bom dia do trabalhador para todos!
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Self Portraits
500 anos de auto-retratos masculinos na arte ocidental
Outra "pérola" de Philip Scott Johnson
Dos perigos da Internet: agora a história por detrás do texto anterior
Bem, é assim: parece que circula na internet há anos uma versão em espanhol do texto anterior em que surge atribuído a Pablo Neruda.
O mais engraçado é que o logro tomou proporções internacionais:
O senador democrata-cristão, Clemente Mastella, que provocou a queda em Janeiro deste ano do primeiro-ministro Romano Prodi, recitou o 'falso' poema de Pablo Neruda para explicar as razões de sua deslealdade ao governo de centro-esquerda.
Para explicar as razões de sua mudança de bancada, Mastella terá lido o poema "A Morte devagar", que atribuiu a Pablo Neruda. A atitude do senador gerou divertidas controvérsias na Itália, já que o poema não era do chileno, mas da brasileira Martha Medeiros.
Segundo a Passigli Editore, a casa italiana das obras de Pablo Neruda, "a poesia recitada por Mastella não é do grande poeta chileno"."Trata-se de uma brincadeira que há anos circula na internet", garantiu a editora que desqualifica os versos por seu estilo new age e "nada nerudianos"."Melhor assim: consideramos que Pablo Neruda, que tinha grandes ideais políticos, não teria gostado de ter sido citado nesta ocasião com um poema seu", concluiu a editora que fazia alusão à longa militância comunista do poeta chileno, Prêmio Nobel de literatura em 1971. Mastella, líder da União de Democratas, renunciou posteriormente ao cargo de ministro da Justiça depois de saber que está a ser investigado por corrupção política e abuso de poder.
Entretanto li aqui um comentário da autora ao logro:
No dia seguinte [ao discurso], quem diria: os principais jornais da Itália estampavam uma foto minha, creditando a mim a verdadeira autoria do texto que abalou o governo. Meus 15 minutos de fama internacional.Achei a maior graça, vou fazer o quê, chorar? Jamais um texto meu seria lido tão longe e por um motivo tão sério se não achassem que o autor era um Nobel de Literatura. Francamente, quem é que sabe que eu existo na Itália? Bom, agora sabem. Indiretamente, saí ganhando com esse equívoco, mas vamos pensar juntos: por que o senador não leu um texto com autoria comprovada? Simples: porque foi mais um que se deixou levar pelas "facilitações" da internet. Porque é provável que ele nunca tenha lido Neruda na vida, ou saberia reconhecer o estilo do chileno. Porque ele foi apressado e confiou demais no mundo virtual quando deveria seguir confiando em livros.”
O caso é divertido e a autora deve ter dado pulos de contente, mas realmente dá que pensar a facilidade com que encontramos (des)informação na net e em como nos vamos desabituando a conferir as fontes. Por muito que goste de blogues, e páginas web, e de ter o mundo sob os meus dedos, vivam os livros!
A Morte Devagar
Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.
Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado.
Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário.
Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo. Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois, quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.
Martha Medeiros
Sobre a autora:Martha Medeiros nasceu em Porto Alegre em 1961. Formada em Publicidade. Escreveu livros de poesias e de crônicas, o seu mais recente lançamento é o livro de ficção Divã. Martha é cronista do jornal Zero Hora.
Os matizes da escrita
Escrever um romance, disse eu um dia, é como montar a cadeia das montanhas de Edom com cubos de Lego. Ou como pôr de pé Paris inteira, com os seus edifícios, as suas praças, alamedas, torres e bairros até ao último banco de rua, com fósforos e partes de fósforos colados.
Para escrever um romance com oitocentas mil palavras é preciso tomar um milhão de decisões. Não apenas sobre o enredo, sobre quem fica vivo e quem morre, quem ama ou quem engana, quem será rico ou quem ficará pobre, quais serão os nomes das personagens, como serão os seus rostos, os seus hábitos e as suas ocupações, ou como dividir o livro em capítulos, qual o nome do livro (estas são as decisões simples, as mais gerais); não apenas o que se deve contar ou omitir, o que deve vir antes ou depois, e o que se deve revelar explicitamente ou apenas por alusão (estas também são decisões bastante fáceis), mas também tomar uma infinidade de decisões subtis, como por exemplo, se ali, no final da terceira frase, se deve dizer azul ou azulado? Ou será azul-celeste? Ou antes azul-claro? Ou talvez azul-escuro? Provavelmente o melhor é azul acinzentado? E este azul acinzentado é melhor colocá-lo no início da frase? Ou no final? E se for no meio? Ou transformá-lo numa frase independente muito breve, com um ponto atrás e outro à frente? E não será melhor que esse matiz entre no fluir de uma frase complexa, com muitas subordinadas? Se calhar mais vale escrever simplesmente as três palavras “luz do entardecer” sem a colorir de azul acinzentado, de azul cinza, ou de outra coisa qualquer?
Amos Oz, Uma História de Amor e Trevas, Porto: Asa Editores, 2007, pp. 330-1.
domingo, 27 de abril de 2008

Ventana sobre el cuerpo
La Iglesia dice: El cuerpo es una culpa.
La ciencia dice: El cuerpo es una máquina.
La publicidad dice: El cuerpo es un negocio.
El cuerpo dice: Yo soy una fiesta.
Eduardo Galeano (con grabados de J. Borges), Las Palabras Andantes, México, D.F.: siglo veintiuno editores, 1993.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Dia Mundial de mim :-)
Ok, eu reconheço que tem vindo a perder ligeiramente em importância: dia mundial da terra no dia 22, dia mundial do livro no dia 23 e dia 24 é... ups, dia de minzinha! Mundial será, na medida em que cada um de nós constitui o seu próprio mundo. Não queria deixar de agradecer aos outros mundinhos todos que gravitam em órbitas paralelas à minha, que são aqueles que me acompanham desde sempre e com os quais sempre contarei, àqueles com trajetórias divergentes, que em algum momento se cruzaram comigo e que seguiram o seu caminho, e mesmo aos mundinhos de trajetórias convergentes, que ainda não conheço, mas que um destes dias encontrarei, em rota de colisão ou apenas para uma aproximação ligeira. Obrigada a todos por tornarem a viagem mais rica.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
terça-feira, 22 de abril de 2008
Dia Mundial da Terra
O dia 22 de Abril marca a luta pelo meio ambiente, um pouco por todo o mundo. Milhões de pessoas manifestam-se de modo a chamar a atenção dos governantes para os problemas que afectam o nosso planeta, nomeadamente o aquecimento global e a poluição.
O Dia da Terra foi instituído em 1970 pelo Senador norte-americano Gaylord Nelson, que convocou o primeiro protesto a nível nacional contra a poluição, protesto esse coordenado a nível nacional por Denis Hayes. Esse dia conduziu à criação da Agência de Protecção Ambiental dos Estados Unidos (EPA).
A partir de 1990, o dia 22 de Abril foi adoptado mundialmente como o Dia da Terra, dando um grande impulso aos esforços de reciclagem a nível mundial e ajudando a preparar o caminho para a Cimeira do Rio (1992).
Actualmente, uma organização internacional, a Rede Dia da Terra coordena eventos e actividades a nível mundial que celebram este dia.
domingo, 20 de abril de 2008
Women In Art
A representação da mulher na pintura ao longo de séculos. Vale muito a pena!
Por Philip Scott Johnson (eggman913)
sábado, 19 de abril de 2008
I belong in Dublin
You Belong in Dublin |
You're the perfect person to go wild on a pub crawl... or enjoy a quiet bike ride through the old part of town. |
Wow!!! Nem a propósito! Afinal eu sou uma Dubliner!
Fiquem a saber qual a cidade europeia perfeita para vocês aqui.
A História, as histórias e as segundas oportunidades
Eu era um miúdo obcecado pela história. Metera-se-me na cabeça corrigir os erros dos generais do passado: assim, por exemplo, reconstituí em imaginação a grande revolta dos Judeus contra os Romanos, impedi a destruição de Jerusalém pelos exércitos de Tito, trasferi os exércitos para o terreno do inimigo, conduzi as tropas de Bar Kochba até às muralhas de Roma, tomei de assalto o Coliseu e coloquei a andeira hebraica na colina do Capitólio. (...)
Com efeito, aquele curioso impulso da minha infância - o desejo de dar uma segunda oportunidade àquilo que não tem nem voltará a ter outra hipótese - é ainda hoje o impulso que me move sempre que começo a escrever uma história.
Amoz Oz, Uma História de Amor e Trevas
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Borboletas e tornados
Morreu Edward Lorenz, pai da Teoria do Caos
Morreu hoje, aos 90 anos, Edward Lorenz, pai da Teoria do Caos. Lorenz defendia que pequenos acontecimentos num ponto do planeta podem originar grandes mudanças no ponto oposto – o chamado efeito borboleta. O anúncio da sua morte foi feito pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), a que Lorenz pertencia.Lorenz, meteorologista de formação, defendeu na década de 60 que pequenas alterações em qualquer sistema dinâmico, como a atmosfera, que bem conhecia, podem desencadear grandes transformações, mesmo a muitos milhares de quilómetros de distância. Em 1972 defendeu a sua teoria num estudo a que chamou: “Previsibilidade: o bater de asa de uma borboleta no Brasil pode originar um tornado no Texas?”
quarta-feira, 16 de abril de 2008
A propósito de nada, apenas porque o poema é lindo
“Noches de boda”
Que el maquillaje no apague tu risa,
que el equipaje no lastre tus alas,
que el calendario no venga con prisas,
que el diccionario detenga las balas.
Que las persianas corrijan la aurora,
que gane el quiero la guerra del puedo,
que los que esperan no cuenten las horas,
que los que matan se mueran de miedo.
Que el fin del mundo te pille bailando,
que el escenario te tiña las canas,
que nunca sepas ni cómo, ni cuándo,
ni ciento volando, ni ayer ni mañana.
Que el corazón no se pase de moda,
que los otoños te doren la piel,
que cada noche sea noche de bodas,
que no se ponga la luna de miel.
Que todas las noches sean noches de boda,
que todas las lunas sean lunas de miel.
Que las verdades no tengan complejos,
que las mentiras parezcan mentira,
que no te den la razón los espejos,
que te aproveche mirar lo que miras.
Que no se ocupe de ti el desamparo,
que cada cena sea tu última cena,
que ser valiente no salga tan caro,
que ser cobarde no valga la pena.
Que no te compren por menos de nada,
que no te vendan amor sin espinas,
que no te duerman con cuentos de hadas,
que no te cierren el bar de la esquina.
Joaquín Sabina
terça-feira, 15 de abril de 2008
Os livros e os cambiantes da vida
No fim, o pai explicou-me durante cerca de vinte minutos as realidades da vida. Não me escondeu nada. Iniciou-me no segredo dos deuses do mundo dos bibliotecários: revelou-me a via real e os caminhos transversais, as paisagens vertiginosas das variantes, das nuances, das fantasias, das avenidas distantes, das tonalidades audaciosas e até dos caprichos excêntricos: podiam classificar-se os livros por títulos, por ordem alfabética de nome de autor, por colecções e editores, cronologicamente, por língua, por assunto, por género ou tema, ou até mesmo por local de edição, etc…
E foi assim que me iniciei nos mistérios dos cambiantes: a vida comporta diferentes vias. As coisas podem acontecer desta ou daquela maneira, segundo diferentes partituras ou lógicas paralelas. Cada um desses raciocínios é consequente e coerente à sua maneira, perfeito em si e indiferente a todos os outros.
Amos Oz, Uma história de amor e trevas
domingo, 13 de abril de 2008
Mōkai Rangatira (Māori Animal Myths)
Ganhei de presente um livro para crianças em maori.
Aqui ficam algumas das encantadoras ilustrações.
Te Aihe (o golfinho)
Te Mokomoko (o lagarto)
Te Kiwi (o kiwi)
Te Kuri (o cão)
quinta-feira, 10 de abril de 2008
segunda-feira, 7 de abril de 2008
sábado, 5 de abril de 2008
A generosidade, a maldade e o amor
Tendo dito isto, o seu olhar azul brilhava novamente de alegria, brincalhão, ao mesmo tempo que enunciava na sua voz lenta e quente, com palavras claras, nun iídiche imagético e fluente, o que Jean-Paul Sartre viria a descobrir anos mais tarde: «Mas o que é o inferno? E o paraíso? Tudo se passa cá dentro. Dentro de casa. Porque o inferno e o paraíso existem em todos os quartos. Por detrás de cada porta. Debaixo de cada manta de casal. É assim: basta um pouco de maldade para o homem se tornar um inferno para o homem, e basta um nadinha de compaixão para ser o paraíso.
Disse um pouco de compaixão e de generosidade, não falei de amor: não acredito no amor universal. (...) O amor é uma mistura estranha de uma coisa e do seu contrário, a mistura do egoísmo mais egoísta com a entrega mais total. Um paradoxo! Para além disso, o amor, e toda a gente passa a vida a falar de amor, sim, o amor não se escolhe, pega-se-nos, aprisiona-nos, como uma doença, uma catástrofe. E então o que é que escolhemos? Entre o quê e o quê é que os homens têm que optar a cada momento? Entre a generosidade e a maldade.»
Amos Oz, Uma História de Amor de Trevas
domingo, 30 de março de 2008
Leituras paralelas - a Loucura
"El miedo ante el loco precede a la compasión, que a veces nunca llega. Quizá, creía él, porque intuimos que esa enfermedad forma parte de una especie de alma común y anda por ahí suelta, escogiendo uno u otro cuerpo según le cuadre. De ahí la tendencia a hacer invisible al enfermo."
Manuel Rivas, El lápiz del carpintero
Leituras paralelas - as fronteiras
"Recuerdo una cosa terrible que me dijo un hombre. Mi abuelo fue lo peor que se puede ser en la vida. ¿Qué hizo entonces, mató?, le pregunté. No, no. Mi abuelo por parte de padre fue sirviente de un portugués. Estaba borracho de bilis histórica. Pues yo, le dije para fastidiarlo, si pudiese escoger pasaporte, sería portugués. Pero por suerte esa frontera se irá difuminando en su propio absurdo. Las fronteras de verdad son aquellas que mantienen a los pobres apartados del pastel.”
Manuel Rivas, El lápiz del carpintero
Leituras paralelas - Pintar o Mar

Joseph Mallord William Turner, Slave Ship, 1840
(...) Y le enseñaba cosas. Por ejemplo, que lo más difícil de pintar era la nieve. Y el mar, y los campos. Las amplias superficies de apariencia monocolor. Los esquimales, le dijo el pintor, distinguen hasta cuarenta colores de la nieve, cuarenta clases de blancura. Por eso, los que mejor pintan el mar, los campos y la nieve son los niños. Porque la nieve puede ser verde y el campo blanquear, como las canas de un anciano campesino. (...)
Un pintor cabal, cuanto más realista quiera ser, sabe que el mar no se puede llevar a un lienzo. Hubo un pintor, un inglés, se llamaba Turner, que lo hizo muy bien. La imagen más impresionante que existe del mar es un naufragio de un barco de negreros. Allí se escucha el mar. Es el grito de los esclavos, esclavos que quizá no conociesen del mar más que el vaivén en las bodegas. A mí me gustaría pintar el mar desde dentro, pero no como un ahogado sino con escafandra. Bajar con lienzo, pinceles y todo.
Manuel Rivas, El lápiz del carpintero
quinta-feira, 27 de março de 2008
Dia Mundial do Teatro
All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages.
William Shakespeare, As You Like It Act 2, scene 7, 139–143
Amoz Oz, em entrevista à Euronews, sobre a sua obra, Israel e a Palestina
A entrevista começa assim: "If I had to tell you in one word what my entire literary work is about I would say "families". If you give me two I'll say "unhappy families". If you give me three words you'll have to read my works"
Não temos opção senão "atacar" o livro!
O escafandro e a borboleta
segunda-feira, 24 de março de 2008
Dia Mundial da Árvore, parte dois

Hoje recebi um postal da Nova Zelândia, da minha amiga mais andarilha. Vem três dias atrasado para o dia mundial da árvore, mas tendo em conta que veio dos antípodas, perdoamos-lhe a demora. Gosto tanto de árvores! São mesmo uns seres com uma grande dignidade! Obrigada, querida amiga, pelo abraço que deste por mim a esta em particular. Um dia lá irei dá-lo também em pessoa.
sexta-feira, 21 de março de 2008
Dia 21 de Março - Dia Mundial da Árvore
Forço e quero ao fundo delicadamente
Como subindo no sentido da seiva
Espraiar-me nas folhas verdejantes,
Espaçado vento repousando em taças,
Mão que se alarga e espalma em verde lava,
Tronco em movimento enraizado,
Surto da terra, habitante do ar,
Flexíveis palmas, movimentos, haustos,
Verde unidade quase silenciosa.
António Ramos Rosa
Dia 21 de Março - Dia Mundial da Poesia
A leitora
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.
Ela adere à matéria porosa, à matéria do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,
branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
António Ramos Rosa
segunda-feira, 17 de março de 2008
História recente da cidade de Jerusalém
Para ajudar a entender os meandros históricos da nossa actual leitura, procurei na Wikipedia uma história resumida da Jerusalém do século passado. Está lá muita informação igualmente interessante, mas aqui segue o capítulo sobre a história contemporânea:
Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, o general britânico Edmund Allenby tomou a cidade aos Otomanos. Os britânicos tornaram-se administradores da Palestina (termo que na altura se referia a uma área que é hoje ocupada por Israel, Faixa de Gaza, Cisjordânia e reino da Jordânia), de acordo com o mandato atribuído pela Liga das Nações e que terminou em 1948. A cidade de Jerusalém foi durante este período a capital deste território.
Entretanto, os conflitos entre os árabes e sionistas rebentam na década de vinte. Após o fim da Segunda Guerra Mundial alguns militantes sionistas iniciaram uma série de ataques bombistas contra os britânicos, entre os quais o ataque dos membros do Irgun ao hotel King David em 1946, que na época servia temporariamente como sede do poder britânico.
Em 1947 as Nações Unidas estabeleceram um plano que visava dividir a Palestina em dois estados, um judeu e um árabe. O plano previa que Jerusalém fosse uma cidade administrada pela comunidade internacional, com o estatuto de corpum separatum (em latim, "corpo separado"), sendo governada por um administrador designado pela ONU. Durante a primeira guerra entre o novo estado de Israel e os árabes, a cidade de Jerusalém foi um dos palcos do conflito. As forças da Jordânia entram em Jerusalém e tomam a zona oriental (onde se situam os locais sagrados), enquanto que as forças de Israel tomaram a zona ocidental, que tinham crescido durante a administração britânica e onde se situava o centro económico e as novas zonas residenciais. O armistício assinado entre Israel e a Jordânia a 3 de Abril de 1949 reconhecia a soberania de cada parte sobre as zonas conquistadas durante o conflito. Em 1950 Israel fez de Jerusalém a sua capital.
Durante a Guerra dos Seis Dias, em Junho de 1967, as forças israelitas tomam a zona oriental aos jordanos e a Knesset decreta a reunificação da cidade. Em 1980 uma lei da Knesset declara que Jerusalém é a "capital eterna de Israel", mas o Conselho de Segurança das Nações Unidas não reconhece esta lei (resolução 478).
Durante a primeira Intifada (1987-1993), a tensão entra a comunidade judaica e a comunidade muçulmana cresceu, e no ano de 1990 estalaram confrontos particularmente violentos entre o exército israelita e as forças contestárias.
O acordo de paz de 1993 levaria ao aparecimento na cidade de algumas instituições políticas e culturais ligadas aos palestinianos, ao mesmo tempo que cresciam novas zonas residenciais judias ao sul e ao norte. Em Setembro de 1996 surgem novos conflitos entre os palestinianos e o exército israelita, alegadamente motivados pela construção de um túnel entre o Muro das Lamentações e a Via Dolorosa, que os palestinianos argumentavam colocar em risco as mesquitas sagradas de Al-Aqsa e a Cúpula da Rocha.
No ano 2000, o papa João Paulo II deslocou-se a Jerusalém, tendo visitado os locais sagrados do cristianismo e uma mesquita. O papa aproveitou a ocasião para reafirmar o pedido de desculpas pelo passado antisemita da Igreja Católica, tendo realizado uma oração no Muro das Lamentações. Em Outubro do mesmo ano a violência entre israelitas e palestinianos regressou, sob protexto da visita do político israelita Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas, que terá sido o motivo para o início da segunda Intifada.
O estatuto definitivo de Jerusalém é um dos pontos mais delicados do conflito israelo-palestianiano. A Autoridade Nacional Palestiniana aspira fazer de Jerusalém Oriental a capital de um futuro estado independente palestiniano, mas ao mesmo tempo Israel não abdica da sua soberania em Jerusalém.
terça-feira, 11 de março de 2008
sábado, 8 de março de 2008
Dia Internacional da Mulher (2)
Biografia
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar
sexta-feira, 7 de março de 2008
Propostas de leitura para este mês
Foram as seguintes:
The Gathering / Corpo Presente, de Anne Enright
A rapariga que roubava livros, de Markus Zusak
Uma História de Amor e Trevas, de Amos Oz
O prazer de Eliza Lynch, de Anne Enright
Património, de Philip Roth
Pânico no Scala, de Dino Buzzati
Para desespero de algumas leitoras, que esperavam um livro mais pequeno, ganhou Uma História de Amor e Trevas, de Amos Oz. Boa leitura!
quinta-feira, 6 de março de 2008
Um comentário pessoal a Gente Independente
Gostei mesmo muito de Gente Independente… Eu sei que é duro, por vezes mesmo brutal, na forma como retrata aquelas gentes camponesas da Islândia, mas nunca perde a poesia, nem mesmo o sentido de humor. O livro conta a história de um camponês, desde o momento em que finalmente consegue comprar uma fazenda, após muitos anos a trabalhar para terceiros, até ao tempo em que a perde, em parte devido à sua própria obstinação, e é forçado a começar de novo. Ao longo do período de cerca de vinte anos ele perde duas mulheres, vários filhos (uns para a morte, outros para a emigração), as suas ovelhas (e esta perda não é inferior para esta personagem às anteriores mencionadas), as vacas, o amor da sua vida.
A sua principal característica é um incomensurável amor à independência, que valoriza acima de tudo o resto, incluindo o seu bem-estar e o da sua família. E ainda que possa ser enervante, e por vezes mesmo execrável, há algo nele que me agrada imenso: a sua resiliência, a sua atitude perante as adversidades. Esta personagem acredita que não vale a pena chorar alguma coisa que se tenha perdido. Enquanto houver um último fôlego dentro de cada um de nós, a única direcção para onde olhar é para a frente. Toda a história é uma importante lição em como não tomar as coisas como garantidas.
Vivemos numa sociedade onde o mais importante é “alcançar” objectivos e adquirir coisas. Mas custa-nos muito lidar com a perda de algo que considerávamos nosso para sempre, uma vez “adquirido”. Passamos toda a nossa vida tentando “chegar” a algum lado, e angustiamo-nos tentando manter aquilo que fomos arrecadando ao longo da vida. Esquecemo-nos de viver. Esta projecção para os nossos objectivos futuros, combinada com a nostalgia daquilo que tivemos um dia, incapacita-nos para viver o presente.
A mesma voracidade de “adquirir” está presente na forma como a maior parte das pessoas viaja (e não me vou colocar de fora, pois acabo, na maior parte das vezes, por fazer a mesmíssima coisa que critico aqui). Fazemos listas de tudo o que queremos ver e queremos fazer lá fora e, uma vez nos nossos destinos, tudo o que fazemos é ir riscando os vários itens da nossa lista. Consideramos as nossas viagens tão mais bem sucedidas quanto mais conseguimos fazer e ver daquilo que nos propusemos ainda antes de embarcarmos na viagem. A mentalidade do “been there, done it” impede-nos de realmente apreciar o que fazemos, uma, duas, três, e de cada vez que as fazemos. Não há um limite de vezes para apreciar, por exemplo, um pôr-do-sol sobre o oceano, um passeio ao longo do Sena em Paris, o verde do campo na Inglaterra, a beleza de um quadro do Klimt num museu de Viena. Tal como relemos sempre com o mesmo prazer um poema especial de Fernando Pessoa, ou ouvimos uma, outra e as vezes que nos apetecer uma música que nos entrou no ouvido.
E, no entanto, quando viajamos, procuramos sempre o que é novo, aquilo que nunca vimos, procuramos acrescentar mais um item à nossa lista de experiências, de conhecimento. Esquecemo-nos que o principal é retirar prazer do processo e deixarmo-nos surpreender por aquilo / aqueles que encontramos. Claro que as viagens sempre foram vistas como metáforas da vida, daí a importância colocada pelo Taoísmo no caminho por ele próprio, em oposição ao local onde nos leva. Estou, obviamente, já longe de Laxness, e longe de mim propor uma leitura taoista da obra deste autor. Mas é normal em mim ser transportada para outras paragens quando leio um livro, ou vejo um filme, ou o que quer que seja… Agora mal posso esperar por embarcar numa viagem a Israel!
terça-feira, 4 de março de 2008
Resiliência
Sempre fui da opinião, disse ele, que uma pessoa nunca deve desistir enquanto for viva, mesmo que nos tenham tirado tudo. Uma pessoa tem sempre o fôlego que paira dentro de si, ou pelo menos pode ser-nos emprestado. Sim, minha pequena, esta noite comi pão roubado e deixei o meu filho em companhia de homens que tencionam dar uma sova às autoridades, por isso achei por bem vir à tua procura hoje de manhã.
Hálldor Laxness, Gente Independente, p. 474
Dois seres humanos
E ela olha para ele com o coração palpitante sabendo que está a falar de um assunto sério, ainda que tenha difuculdade em entendê-lo, dois seres humanos têm tanta dificultade em se entenderem, nada é tão trágico como dois seres humanos.
Hálldor Laxness, Gente Independente, p. 304
O sonho
Mas dentro de cada quinta habita um sonho sobre algo melhor, e durante mil anos homens imaginaram que conseguiriam sair da crise de um modo misterioso e seriam proprietários duma herdade e se tornariam grandes agricultores, é este o eterno sonho. Alguns crêem que só se realizará no céu.
Hálldor Laxness, Gente Independente, p. 19
segunda-feira, 3 de março de 2008
Spa de Letras

Como já vem sendo tradição, o nosso "Spa de Letras" proporcionou um fim-de-semana fantástico a todas as leitoras. O Parque Thalasso provou ser um inimigo mortal do stress acumulado, as massagens e outros tratamentos ajudaram-nos a relaxar ainda mais, e os magnificos pequeno-almoço e jantar arruinaram qualquer hipótese de se perder algum quilito mais incauto. Para a história do clube de leitura fica ainda a primeira discussão/festa de pijama. Fica a recordação da vista dos nossos quartos.
sábado, 1 de março de 2008
A Islândia da A. e Gente Independente
Quase em cima da nossa discussão do livro, aqui vos deixo mais um pouco de Islândia. Desta vez são fotos da minha amiga A. que me enviou as que mais lhe fizeram lembrar "Gente Independente". Espero que gostem.














