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No site do José Eduardo Agualusa há uma secção com excertos de entrevistas feitas ao autor sobre As mulheres do meu pai. Vale muito a pena lá dar um salto.
Deixo um "cheirinho", precisamente sobre as confluências entre ficção e realidade, de que falámos na nossa reunião, a propósito desta magnífica obra:
Inicialmente, você pretendia escrever um roteiro para cinema. Como as palavras venceram a imagem?
A partir de certa altura comecei a compreender que tinha material para um romance, e também que a vida de algumas das pessoas que me acompanhavam na viagem, em particular a vida da Karen, era tão interessante quanto as idéias que queríamos desenvolver. Agradou-me a idéia de iludir o leitor, dando-lhe a sensação de estar assistindo à construção do romance. Mas é um fato que entre nós a ficção participa da realidade, interfere com ela, isso é assim mesmo. Só a realidade consegue inventar certos enredos, os enredos mais inverossímeis.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
A ficção da realidade versus o realismo da ficção
A viagem real (?)
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As fotos seguintes documentam a viagem de Agualusa, Karen e Jordi, da qual se escreve em As mulheres do meu pai. São todas de Jordi Burch, um fotógrafo catalão residente em Lisboa. Curiosamente, e posso estar enganada, mas, pelo menos que eu me tivesse apercebido, Jordi é a única personagem do romance que surge tanto na viagem ficcionada como na viagem real (ou pelo menos na ilusão de viagem real). As fotos emanam aquela mesma espécie de realismo mágico presente no livro.
Namíbia, 2005, Jordi Burch
Namibe, Angola, 2005, Jordi Burch
Lubango, Angola, 2005, Jordi Burch
As fotos foram tiradas do site de José Eduardo Agualusa.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Aqueles tipos nem sequer os podemos considerar como inimigos, são um erro, uma aberração, como uma ave sem asas...
Ri-me:
- Um arco-íris em tons de cinzento.
- Nem mais! Um rouxinol mudo...
- Uma ovelha carnívora...
- Um fadista feliz!
- Um fotógrafo cego!
- Ah, fotógrafos cegos existem realmente! - riu-se. - Conheço um francês de origem eslovena, chamado Evgen Bavcar. Cego dos dois olhos. E é bastante bom...
José Eduardo Agualusa, As mulheres do meu pai
Evgen Bavcar
domingo, 16 de agosto de 2009

Estamos parados junto ao rio Quicombo. Tenho a certeza de que existe uma imagem destes altos paredões de terra num dos quatro albuns do fotógrafo português Cunha e Morais. (...)
As fotografias do Cunha e Morais, recolhidas em Angola na segunda metade do século XIX, ajudaram-me a construir o meu primeiro romance.
José Eduardo Agualusa, As mulheres do meu pai
sábado, 24 de julho de 2004
Saiu uma crónica na revista do “Xis” do Público de hoje que achei que teria interesse para nós. Outra leitora fascinada pelo narrador/osga… Transcrevo-a na íntegra:
CRÓNICA de Faíza Hayat - Conversas com o espelho - “Osga real”
Uma osga, colada ao cristal da janela, olha a melancolia da tarde, fechada no corpo e fechada em casa. Não pode abandonar a espécie nem pode abandonar o sítio. Ali está, fazendo o melhor possível da sua nova vida, uma vida de osga, em Luanda, uma vida de alguém que já viveu em corpo de homem. Todos, em redor desta osga, olham para o seu passado o que não têm mas, precisamente, o que lhes faz mais falta. A osga habita a casa de Félix, um albino que vende memórias sob a forma articulada de biografias. Félix é um vendedor de passados: "Dê aos seus filhos um passado melhor", oferece o albino no seu cartão de visita.
A osga vê. E ri. Pertence a uma espécie rara de osgas que consegue esboçar um sorriso. O passado é o único tempo que conhecemos bem em nós. Tudo o resto é incerto e está por acontecer - uma promessa, uma profecia, um desejo. Um além. O passado é a nossa única certeza perante nós e perante os outros - nem que seja um passado mentiroso. A mentira é irrelevante. A memória é que nos sustenta. Mas não há memórias verdadeiras, como sabe José Eduardo Agualusa. Acabo de ler o seu "Vendedor de Passados". Sou uma leitora fiel, confesso, do escritor angolano. Não conheço todos os seus livros mas conheço a maior parte. O suficiente para arriscar dizer que este é o seu romance mais inteligente. De certo modo, também, o mais incómodo: se a nossa realidade é uma ficção, não se trata de sermos autênticos; temos apenas de ser convincentes. Se não conseguirmos - desgraça! - precisamos de pagar a alguém que minta por nós. Como os clientes de Félix.
O narrador deste romance apenas poderia ser uma osga: um bicho discreto, transparente e limpo, ágil mas frágil. A osga de Agualusa não tem medo da metamorfose. Tem apenas medo de lacraus. O seu corpo é apenas o suporte a partir do qual pode espreitar e sonhar. É um jogo apaixonante, este: alguém, um alguém bicho, tão repugnante como um réptil, guarda do humano o passado que já não consegue tocar, enquanto, pela casa, gente vai surgindo e desaparecendo. Desaparece por paixão, engolida pela pele e pelo passado que lhe ( s) arranjam. Félix é filho adoptivo de um alfarrabista. O seu mundo é a sua biblioteca (livros, recortes, fotografias, estilhaços de passado que ele organiza por catálogo). Jorge Luis Borges está aqui. Arriscaria dizer que Borges, o próprio escritor, reencarnou na osga Eulálio. Enquanto houver livros, não precisamos de corpo. É o sonho (a biblioteca imensa que desaba em nós a cada noite) quem nos diz quem somos, ou melhor, quem podemos ser. Alguns dos mais belos capítulos do "Vendedor de Passados" - com uma escrita exacta, de cadência curta, com uma tranquilidade sábia (Agualusa está a ficar maduro?!)- encontra-se na descrição dos sonhos.
Eulálio, a certo ponto, recorda Chatwin e a biografia do escritor britânico feita por Nicholas Shakespeare (era escusada a prosaica referência à "tradução portuguesa da Quetzal"...). Chatwin, além de grande escritor, ou por causa de o ser, foi um mentiroso genial. "Uma história não tem que ser verdadeira", dizia ele, "tem apenas que ser boa". É possível viver assim. A Patagónia de Chatwin, ou a sua Austrália aborígene, não existem. Mas milhares de pessoas procuram-nas - e encontram-nas! - todos os anos, de mochila às costas e um catálogo de mitos que mantêm o culto de Chatwin vivo. É um pouco assim a nova Angola que Agualusa nos revela no seu novo romance, por absurdo: uma sociedade pode canibalizar a realidade a tal ponto que não resta outra saída senão comprar o passado. Para viver a dignidade da mesma forma que se consome um estupefaciente. Há o perigo da alienação, claro. Mas há a vertigem de ser feliz, encontrando a vida, uma vida, de onde surgimos.
Gosto deste livro por ainda mais um detalhe: é raro encontrar escritores que revelem um conhecimento mínimo do que são (ou do que querem) as mulheres. Não sei quem ensinou a Agualusa. Parece-me que ele aprendeu o essencial: não se trata de chamar-nos gazelas ou garças. Isso qualquer homem pode fazer. Trata-se de nos mentir com talento. Como Félix sabe fazer - é por isso que a garota do livro acaba por entregar-se ao "vendedor de passados".
faiza.hayat@xis.publico.pt
terça-feira, 20 de julho de 2004
Discussão de “O Vendedor de Passados”, de José Eduardo Agualusa
Começámos por dar uma opinião geral sobre o livro e, consensualmente, considerámo-lo bastante bom. Permite uma leitura muito fluida e agradável.
Talvez o elemento que mais nos tenha cativado foi a escolha do narrador – Eulálio, a osga-tigre. Considerámos muito original, tanto pelo efeito de surpresa que provoca (de início o leitor não se apercebe de que o narrador é um animal, mais concretamente uma osga, e o facto de, a uma determinada altura, tudo começar a fazer sentido é mais um factor que aumenta o prazer da leitura). De facto, uma osga constitui um observador privilegiado – a sua capacidade de se fixar às paredes ou ao tecto permite-lhe um ponto de vista distanciado, mais objectivo, e o facto de passar despercebida permite que veja sem ser vista. No entanto, não deixa de estar implicada na narrativa. Logo desde a primeira página do romance, ela começa a estabelecer uma relação muito especial com o protagonista Félix Ventura, tornando-se na sua melhor ouvinte. Os “diálogos” entre as duas personagens são bastante unilaterais, na medida em que a única hipótese de resposta da osga consiste no emitir de gargalhadas (ficou por apurar se esses animais têm mesmo a capacidade de emitir alguma espécie de som) mas ainda assim é feed-back suficiente para que Félix escolha a sua companhia: “Desde essa altura, depois de me ter ouvido rir, chega mãos cedo. (…) Conversamos. Ou melhor, ele fala, e eu escuto. Ás vezes rio-me e isso basta-lhe. Já nos liga, suspeito, um fio de amizade”(p.15).
Temos ainda, em alguns capítulos, vislumbres da vida passada da osga, enquanto humano. Segundo o próprio Agualusa, em entrevista transcrita no blogue, o narrador/osga é uma reencarnação de Jorge Luis Borges, e alguns dos elementos biográficos referidos são inspirados na própria biografia do consagrado autor. Aliás, uma bonita citação de Borges precede a obra: “Se tivesse que nascer outra vez escolheria algo totalmente diferente. Gostaria de ser norueguês. Talvez persa. Uruguaio não, porque seria como mudar de bairro.” Não sabemos se Borges gostaria de ter renascido osga africana, mas é, decerto, totalmente diferente…
Existe ainda um outro espaço na narrativa onde as personagens humanas e Eulálio se encontram, e onde é possível o diálogo entre elas. – o espaço do sonho. Félix e Eulálio encontram-se no Sonho nº3, pp. 89-93, e no Sonho nº 4, pp. 103-105. E José Buchmann e Eulálio encontram-se no Sonho nº 5, pp 155-160, e no Sonho nº 6, pp. 219-223. São estes momentos oníricos que nos permitem um conhecimento mais profundo das personagens humanas. Uma citação da obra permite-nos uma melhor compreensão da função narrativa do sonho na obra: «“Deus deu-nos os sonhos para que possamos espreitar o outro lado”, disse Ângela Lúcia. “Para conversarmos com os nossos mais-velhos. Para conversarmos com Deus. Eventualmente, com osgas.”» (p. 93).
Por todos estes motivos considerámos a osga um dos narradores mais deliciosos de que nos lembrámos. Trata-se de uma estratégia narrativa muito original e muito bem trabalhada.
A propósito de “bem trabalhada” questionámo-nos se Agualusa teria demorado muito tempo a escrever esta obra e se a sua escrita tinha sido fluida ou teria tido necessidade de trabalhar muito o texto. Algumas opinaram que os textos que parecem mais simples são, por vezes, aqueles que mais trabalho requerem e que, essa simplicidade é apenas aparente. E, de facto, pela forma cuidadosa como está estruturado e pelo ritmo tão fluído das palavras, parece-nos que o texto mereceu especial atenção.
Também a propósito de ritmo, foi referido que existem dois ritmos completamente distintos na narrativa. O que perpassa o texto quase todo é um ritmo calmo, gingão, africano, em que pouco acontece, em que as personagens são muito mais importantes que os acontecimentos e em que estas valem por si próprias. Depois, na parte final da obra, o ritmo acelera, torna-se quase trepidante, temos um desenrolar frenético de acontecimentos em que tudo se precipita e em que, finalmente, percebemos que as personagens se encontram inter-ligadas por acontecimentos passados e que foi uma espécie de providência que as reuniu no espaço da casa do albino Félix Ventura.
A outra ideia muito original que mais agradou às leitoras foi a ideia de um homem que fabrica e vende passados. É um homem que providencia a quem necessita (geralmente políticos e personalidade influentes do país) um passado ilustre e decente. Esse homem é, curiosamente, ele próprio um homem sem passado. Ele foi abandonado em bebé à porta de um alfarrabista que o criou como se fosse seu filho. É, a todos os níveis, uma personagem excepcional. É-o fisicamente pelo que o seu aspecto físico tem de sinistro: é um negro albino. E é-o especialmente pela sua capacidade de efabulação. É senhor de uma imaginação prodigiosa para a ficção, aliada a uma escrupulosa minúcia na procura de dados reais que dão verosimilhança às vidas que inventa. Ele é, no fundo, um autor, na medida em que cria personagens fictícias as lança no mundo, à mercê do seu próprio destino. Afirma Félix: “Acho que aquilo que faço é uma forma avançada de literatura”, confidenciou-me. “Também eu crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida, atiro-os para a realidade”. (p. 91). Aliás, o tema principal que perpassa a obra é a relação entre a realidade e a ficção.
“ A realidade é dolorosa e imperfeita” dizia-me, “é essa a sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos. Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar – se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.” (p. 122).
Intimamente ligada à ideia da realidade versus a ficção está a ideia de verdade e mentira que é aqui também um dos principais vectores que atravessa a obra.
Uma das noções mais interessantes sobre o tema surge através de uma recordação de Félix do discurso de um autor, aquando da publicação do um seu livro: “a grande diferença entre as ditaduras e as democracias está em que no primeiro sistema existe apenas uma verdade, a verdade imposta pelo poder, ao passo que nos países livres cada pessoa tem o direito de defender a sua própria versão dos acontecimentos. A verdade, disse, é uma superstição.” (p. 91) Um pouco antes disto afirma: “A literatura é a maneira que um verdadeiro mentiroso tem para se fazer aceitar socialmente” (p. 91) A literatura é então uma arte socialmente aceite de criar mentiras.
Os clientes mais habituais de Félix Ventura, em busca de um passado honroso são os políticos, numa crítica evidente à hipocrisia e tentativa por parte da classe política angolana de branquear o seu passado sangrento e indigno. Como foi notado, é curioso que o capítulo em que é descrito o ministro seja imediatamente precedido pelo capítulo em que surge o lacrau…
Uma manifestação artística da ideia de que a verdade é múltipla e que é tanto mais rica quanto mais pontos de vista estiverem presentes é a obra do artista plástico britânico David Hockney. Ele é referido na obra quando Félix compara o efeito provocado pelo conjunto das fotos que lhe vai enviando Ângela Lúcia do mundo inteiro coladas na parede da sala de jantar às experiências de David Hockney com polaróides. Tivemos oportunidade de observar uma impressão de uma dessas obras, “Pearblossom Highway”, onde figura a imagem de uma estrada numa paisagem desértica. O interessante desta imagem é que é constituída por centenas de fotografias polaróide, coladas num enorme painel. Temos então uma “realidade” construída através de fragmentos de outras realidades, captadas a horas diferentes, de perspectivas diferentes. O resultado da soma de cada uma dessas pequenas partes transcende-as completamente, originando uma ficção. É assim, talvez, que também nós observamos a realidade: justapondo os fragmentos que vamos observando. Assim, a nossa percepção das coisas e das pessoas não é muito diferente da colagem de David Hockney – um acumular de perspectivas, factos e pormenores que nos permite uma macro-visão necessariamente ficcionada. E tal como, ao ler um livro somos obrigados a preencher os espaços em branco constituídos por tudo aquilo que não é descrito pelo autor, também a nossa visão do mundo nos obriga constantemente a preencher silêncios e a imaginar um todo que só existe para nós.
A capacidade de “re-ligar” o real, de ver a realidade como um todo a que todos os fragmentos de vida pertencem, é uma qualidade apenas das pessoas mais alienadas, dos loucos: “Todas as histórias estão ligadas. No fim tudo se liga.” Suspira: “Mas só alguns loucos, muito poucos e muito loucos, são capazes de compreender isso.” (p. 215).
Comentámos o conceito de felicidade veiculado na obra: “A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos. (p. 123). Os momentos felizes são aqueles em que nos desligamos das responsabilidades do mundo (e do mundo em si mesmo?). Se só somos felizes nos momentos em que fechamos os olhos, isolando-nos assim do que nos rodeia, será a felicidade um sentimento solitário, a fruir individualmente? Ou então esses momentos são tão intensos que precisamos de nos recolher momentaneamente para melhor os viver.
Fica claro também que não se é sempre feliz, temos momentos felizes. Somos felizes “para sempre” quando esse sentimento é tão pleno que nos parece eterno. (cf. p. 117).
Resta-nos terminar com uma frase que é repetida n’”O Vendedor de passados” – “o pior pecado é não amar” e terminar com um poema de Vinicius de Moraes, o “Soneto da Felicidade”, onde fica a ideia de que é imperioso viver cada momento feliz como se fosse eterno:
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
terça-feira, 13 de julho de 2004
Se quiserem conhecer o Eulálio vão a:
http://thegeckoking.www3.50megs.com/pages/ptigrinus.html
lindinho, não é?
quinta-feira, 24 de junho de 2004
Aqui transcrevo uma entrevista ao Agualusa, publicada no Jornal de Notícias:
Ana Vitória
"O vendedor de passados" é a mais recente obra de José Eduardo Agualusa, uma sátira feroz, mas divertida, à actual sociedade angolana. Mas é sobretudo uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos. Félix Ventura, o inventor de trajectos familiares para quem os procura diferentes, prefere que lhe chamem genealogista. E por isso "costura a realidade com a ficção".
[Jornal de Notícias]Como surgiu a história de "O vendedor de passados"?
[José Eduardo Agualusa]Os meus personagens transitam muito de uns contos para os outros, de uns romances para os outros, dos contos para os romances... Gosto de pensar no conjunto dos meus livros como realmente sendo um só livro. "O vendedor de passados" partiu de dois contos/crónicas que surgiram primeiro num jornal.
Félix Ventura, o tal vendedor de passados, tem alguma coisa a ver com o José Eduardo Agualusa?
Talvez tenha um pouquinho de mim, até porque é um homem apaixonado por livros, pela língua portuguesa. Um homem que gosta de utilizar arcaísmos.
Está a querer dizer que gostaria de escrever sobre passados?
Tambem gostaria, por exemplo, de escrever "autobiografias" de pessoas, porque há histórias extraordinárias. Não me importaria de trabalhar como escritor fantasma.
As vidas que há nos seus livros resultam de pesquisa?
Este livro é um um pouco diferente dos que escrevi até agora, não me exigiu muita pesquisa. O narrador é uma reencarnação de Jorge Luís Borges, o que poderá escapar a algumas pessoas. As passagens que ele recorda da sua vida anterior são da biografia de Borges, que romanceei um pouco .
Por que escolheu a osga para narrador?
É uma pequena vingança sobre o Borges, é um pequeno jogo. E depois porque acho a osga um bicho simpático. Recorda-me a minha infância e, sobretudo, as minhas férias. Sou do Huambo, vivi lá, mas passava as férias grandes em Benguela que tinha muitas osgas. Para mim, representavam as minhas férias, assim como associo as galinhas à tranquilidade. As galinhas aparecem em todos os meus livros, gosto muito delas.
E as outras personagens?
Este livro era para se ter chamado "Pura ficção". De todos os meus livros é aquele que surge apenas de dentro de mim. Tem temas que remetem para a história recente de Angola, mas os personagens, de uma forma geral, não são baseados em personagens reais.
Que distinção faz, se a faz, entre a escrita chamada jornalística e a chamada literária?
Acho que tudo o que faço está ligado. Por isso, gosto de fazer com que as personagens transitem das crónicas para os contos ou para os romances. Evidentemente, o jornalismo exige rigor e respeito por uma série de normas. O escritor começa onde o jornalista termina.
Lisboa ainda não é a sua cidade, como disse numa entrevista?
Transcreveram o que eu disse, não o que queria dizer. Lisboa sempre foi realmente uma cidade importante, neste meu percurso. Para mim, é uma cidade de abrigo. Enquanto escritor, devo tudo o que sou a Portugal e , em particular, a Lisboa.
O que é, para si, a lusofonia?
É algo que ultrapassa a língua. Inclui muitas outras referências que têm que ver com formas de sentir o Mundo, com a própria história comum de todos os países que falam Português ou onde se fala Português. Também tem que ver com a culinária, costumo dizer que a lusofonia é um pouco uma "comunidade do bacalhau".
Angola é alvo das críticas de José Eduardo Agualusa no seu livro, "O vendedor de passados"
Lusofonia é um pouco a comunidade do bacalhau
O narrador é uma reencarnação de Jorge Luís Borges
Virgindade em leilão A produtora de Madonna quer realizar um filme sobre um leilão bastante particular
Perfil
José Eduardo Agualusa
Escritor
Nascido em Huambo, Angola, em Dezembro de 1960, José Eduardo Agualusa interessou-se por bichos desde criança. Numa altura da sua infância quis ser veterinário. Não o foi, mas estudou Agronomia e Silvicultura. Escolheu, finalmente, ser jornalista e escritor. Do sonho de infância ficou-lhe o amor pelos animais. As preferências vão para as galinhas, ave que, invariavelmente, povoa todos os seus livros. Também no mais recente, "O vendedor de passados", o escritor fez com que o personagem Félix Ventura falasse destas aves.
O autor de "Estação das chuvas" (1997), "Nação crioula" (1998 Grande Prémio de Literatura RTP) "Um estranho em Goa "(2000), "O ano em que o zumbi tomou o rio" (2002) e "Catálogo de sombras" (2003) tem também uma estreia na escrita para crianças ,"Estranhos e bizarrosos".