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sexta-feira, 6 de junho de 2008

A essência do fanatismo

A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar. Nessa tendência tão comum de melhorar o vizinho, de corrigir a esposa, de fazer o filho engenheiro ou de endireitar o irmão, em vez de deixá-los ser. O fanático é uma das mais generosas criaturas. O fanático é um grande altruísta. Está mais interessado nos outros que em si próprio. Quer salvar a nossa alma, redimir-nos. Livrar-nos do pecado, do erro, do tabaco, da nossa fé ou da nossa carência de fé. Quer melhorar os nossos hábitos alimentares, ou curar-nos do alcoolismo e do hábito de votar. O fanático morre de amores pelo outro. Das duas uma: ou nos deita os braços ao pescoço porque nos ama de verdade, ou se atira à nossa garganta em caso de sermos irrecuperáveis. Em qualquer caso, topograficamente falando, deitar os braços ao pescoço ou atirar-se à garganta é quase o mesmo gesto. De uma maneira ou de outra, o fanático está mais interessado no outro do que em si mesmo, pela simples razão de que tem um mesmo bastante exíguo, ou mesmo nenhum mesmo.

Amos Oz, contra o fanatismo, Porto: Asa Editores, 2007, pp. 22-23.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

traições, cinismos e bichos

- Uma traição cínica quer dizer que é fria e calculada. Interesseira. "Cinismo" deriva de kínos, que no grego clássico significa "cão". Na altura própria explicar-te-ei a relação entre "cinismo" e "cão", um animal que toda a gente considera um símbolo de lealdade. É uma história um pouco longa, reveladora da ingratidão da humanidade para com os animais que lhe são mais úteis, como o cão, a mula, o cavalo, o burro, e que se converteram precisamente em termos insultuosos, enquanto que os predadores, nossos inimigos, como o leão, o tigre, o lobo, e até mesmo a águia necrófaga, recebem na maior parte das línguas um respeito imerecido. Seja como for, e voltando à tua pergunta, uma traição cínica é uma traição a sangue-frio. Uma traição sem moral nem sentimentos.

Amos Oz, Uma Pantera na Cave, Lisboa: Edições Asa, 1998, pp. 91-92.

Que pena que a história não chegou... Também fiquei a pensar no assunto.
Está difícil "desgrudar" do Amos Oz!

As excepções à regra

- Cada coisa – replicou o meu pai moderada e judiciosamente, furtando-se, como era seu hábito, a qualquer discussão -, cada coisa no mundo tem pelo menos duas faces, como todos sabem aliás, a não ser essas almas frenéticas…
Eu não fazia ideia do que eram "almas frenéticas", mas sabia muito bem que não era o momento de perguntar. Permaneceram mudos e quedos um diante do outro quase durante um minuto, exibindo ocasionais momentos de silêncio semelhantes a uma rendição; só depois intervim:
- Excepto a sombra!
Com os óculos encavalitados a meio do nariz e meneando a cabeça para cima e para baixo, o meu pai fitou-me de soslaio com aquele olhar que exprimia o sentido bíblico de “Esperava que produzisse boas uvas, mas produziu uvas azedas”. Por cima dos óculos espreitavam uns olhos azuis que reflectiam um óbvio desapontamento comigo, com os jovens em geral e com o fracasso do sistema educativo: pensava que tinha enviado uma borboleta e que lhe haviam devolvido uma crisálida.
- Que queres dizer com “sombra”? Só se for a da tua cachimónia! – disse ele.
A minha mãe atalhou:
- Em vez de o mandares calar, não seria melhor procurares inteirar-te do que ele está a tentar dizer? Ele quer exprimir qualquer coisa.
- Pois muito bem. Sim, na verdade. Então, queira Vossa Excelência fazer o obséquio de esclarecer o que pretende dizer. A que misteriosa sombra se deve a sua comunicação? À sombra das montanhas, tomada pelas montanhas? Ou à sombra pela qual suspira o escravo?
Levantei-me. Ia deitar-me e não lhe daria qualquer explicação. Todavia, respondi com brandura:
- Excepto a sombra, papá! Disseste há momentos que no mundo tudo tem pelo menos dois lados. Estiveste quase próximo da verdade. Mas esqueceste-te de que a própria sombra, por exemplo, tem apenas um lado. Verifica se não acreditas. Podes mesmo fazer uma ou duas experienciazitas. Afinal, tu próprio me ensinaste que não há regra sem excepção e que nunca se deve fazer generalizações. Esqueceste-te por completo do que me ensinaste.
Levantei-me então, pus a louça na banca e fui para o meu quarto.

Amos Oz, Uma Pantera na Cave, Lisboa: Edições Asa, 1998, pp. 14-15.

domingo, 25 de maio de 2008

A indiferença essencial da realidade

Recomeçara a chover precisamente quando entrámos no restaurante, e o pai viu nisso um bom sinal, como se a chuva tivesse esperado por nós ou o céu nos sorrisse.
Mas emendou logo:
"Quer dizer, se eu acreditasse em sinais ou que o céu se interessa por nós. Mas o céu é indiferente. À excepção do homo sapiens, o universo é todo ele indiferente. E, com efeito, a maioria dos homens também. A meu ver, a indiferença é a característica essencial da realidade."

Amos Oz, Uma História de Amor e Trevas, Lisboa: Asa Editores, p. 609

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A Insustentável objectividade de Amos Oz



Um bom artigo sobre Uma História de Amor e Trevas para ler aqui.

Sobre Amos Oz



Amos Oz, nascido Amos Klausner, (Jerusalém, 4 de Maio de 1939) é um escritor israelita e um co-fundador do movimento pacifista israelita Peace Now.
Os seus pais fugiram em 1917 de Odessa para Vilnius e daí para a Palestina em 1933. Em 1954 Oz entrou para o Kibbutz Hulda e tomou então o seu nome actual. Durante o seu estudo de Literatura e Filosofia na Universidade Hebraica de Jerusalém entre 1960 e 1963 publicou seus primeiros contos curtos. Oz participou na Guerra dos Seis Dias e na Guerra do Yom-Kippur e fundou nos anos 70, juntamente com outros, o movimento pacifista israelita Schalom Achschaw (Peace Now).
Fundador e principal representante do movimento israelita Paz Agora, é o escritor mais influente de seu país. Poucos autores escrevem com tanta compaixão e clareza sobre as agruras presentes e passadas de Israel. Em romances como Meu Michel (2002), Conhecer uma mulher (1992) ou Uma pantera na cave (1999) explora a persistência do amor durante a guerra.
Em 1991 foi eleito membro da Academia de Letras Hebraicas; Em 1992, recebeu o Prémio de Frankfurt pela Paz, e ganhou o Prémio Israel de Literatura, o mais prestigioso do país. Em 1998 (50º ano da Independência de Israel), recebeu o Prémio Femina em França e foi indicado para o Prémio Nobel de Literatura em 2002. Em 2004 recebeu o Prémio Internacional Catalunya, junto com o pacifista palestino Sari Nusseibeh, e também Prémio de Literatura do jornal alemão Die Welt, por "Uma História de Amor e Trevas". Publicou cerca de duas dezenas de livros em hebraico, e mais de 450 artigos e ensaios em revistas e jornais de Israel e internacionais (muitos dos quais para o jornal do Partido Trabalhista "Davar" e, desde o encerramento deste na década de 1990, para o "Yediot Achronot"). Tem livros e artigos seus traduzidos por todo o mundo e quase toda a sua obra se encontra traduzida em português.
Em 2007 recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias de letras.

Amos Oz com os pais, Arieh e Faina


Uma História de Amor e Trevas: a casa do senhor Agnon


Uma História de Amor e Trevas: Menahem Begin



Menachem Begin (Hebraico: מְנַחֵם בְּגִין‎, polaco: Mieczysław Biegun) (Brest-Litovsk, 16 de Agosto de 1913 — Jerusalém, 9 de Março de 1992) tornou-se o sexto primeiro-ministro de Israel em Maio de 1977. Ele negociou os Acordos de Camp David com o presidente do Egipto Muhammad Anwar al-Sadat, pelo qual ambos receberam o Prémio Nobel da Paz em 1978.



Uma História de Amor e Trevas: Ben Gurion



David Ben-Gurion, em hebraico דָּוִד בֶּן גּוּרִיּוֹן , (Płońsk, 16 de Outubro de 1886 — Tel HaShomer, 1 de Dezembro de 1973), judeu polaco, foi o primeiro chefe de governo de Israel. Um socialista, Ben-Gurion foi um líder do movimento do Sionismo socialista e um dos fundadores do Partido Trabalhista (Miflêguet Haavodá), que esteve no poder em Israel ao longo das primeiras três décadas da existência do Estado.



Uma História de Amor e Trevas: o senhor Agnon



Shmuel Yosef Agnon, (em hebraico: שמואל יוסף עגנון) nascido Shmuel Yosef Czaczkes, (17 de Julho de 1888 — 17 de Fevereiro de 1970) foi o primeiro escritor israelita a receber o Prémio Nobel da Literatura (1966). Recebeu o prémio conjuntamente com a autora Nelly Sachs.
Uma das figuras centrais da moderna ficção israelita, Agnon nasceu em Buczacz, então pertencente ao Império Austro-Húngaro, na Galícia (hoje parte da Ucrânia), mais tarde imigrou como sionista para a Palestina, e faleceu em Jerusalém em 1970. A sua obra lida com o conflito entre a vida e linguagem judaica tradicional e o mundo moderno, e a tentativa de recapturar as tradições em extinção do shtetl (aldeia) europeu. Em termos gerais, a sua criação também contribuiu para a delineação do carácter do narrador na literatura moderna.

Uma História de Amor e Trevas: Yosef Klausner



Joseph Gedaliah Klausner (1874-1958), também conhecido como Yosef Klauzner (יוסף קלוזנר) foi um judeu académico nascido em Olkeniki, Lituânia, que emigrou para a Palestina durante o mandato britânico em 1919 e morreu em Israel. Era um intelectual, especialista em história e religião judaica e moderna literatura hebraica. Era o redator chefe da Encilopédia Hebraica e ensinava literatura hebraica na Universidade Hebraica de Jerusalém. Influenciou o movimento Sionista tendo comparecido à maioria dos congressos sionistas.
Uma das suas obras mais influentes é sobre Jesus. O seu livro Jesus de Nazaré e a sequela, De Jesus a Paulo ganhou notoriedade. Nela, Klausner descreve como Jesus pode ser melhor entendido como judeu e israelita que tentava reformar a religião e como morreu como um judeu devoto. A sua posição foi atacada tanto por judeus como por cristãos.
Foi também candidato à Presidência de Israel em 1949 onde perdeu para Chaim Weizmann, declarado o primeiro presidente de Israel.
Israel Klausner, o investigador de literatura hebraica, é seu primo, e o escritor Amos Oz é seu sobrinho neto.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Uma História de Amor e Trevas: o Kibbutz


Os campos do Kibbutz Hulda

Um kibbutz (hebraico קיבוץ, קִבּוּץ literalmente “ajuntamento”, plural kibbutzim) é uma comunidade colectiva em Israel que era tradicionalmente baseada na agricultura.
O kibbutz é uma forma de vida comunal que combina o socialismo e o zionismo. Os kibbutzim começaram como comunidades utópicas, mas têm vindo gradualmente a adoptar uma atitude mais capitalista. Hoje em dia, a agricultura foi parcialmente suplantada por outras actividades económicas, incluindo fábricas e empresas de alta tecnologia. Embora os kibbutzim contenham apenas cinco por cento da população de Israel, surpreendentemente um grande número de kibbutzniks tornam-se professores, advogados, médicos e líderes políticos. Cerca de 75 por cento dos pilotos da Força Aérea Israelita cresceu em kibbutzim.

Mais sobre os kibbutzim aqui.

Ele há coincidências...

Encomendei alguns livros na loja online da nova Byblos, aproveitando a promoção inicial de portes gratuitos e oferta de um livro. Eis o livro que me enviaram:





Nem a propósito!

sábado, 19 de abril de 2008

A História, as histórias e as segundas oportunidades

Eu era um miúdo obcecado pela história. Metera-se-me na cabeça corrigir os erros dos generais do passado: assim, por exemplo, reconstituí em imaginação a grande revolta dos Judeus contra os Romanos, impedi a destruição de Jerusalém pelos exércitos de Tito, trasferi os exércitos para o terreno do inimigo, conduzi as tropas de Bar Kochba até às muralhas de Roma, tomei de assalto o Coliseu e coloquei a andeira hebraica na colina do Capitólio. (...)
Com efeito, aquele curioso impulso da minha infância - o desejo de dar uma segunda oportunidade àquilo que não tem nem voltará a ter outra hipótese - é ainda hoje o impulso que me move sempre que começo a escrever uma história.

Amoz Oz, Uma História de Amor e Trevas

sábado, 5 de abril de 2008

A generosidade, a maldade e o amor

Tendo dito isto, o seu olhar azul brilhava novamente de alegria, brincalhão, ao mesmo tempo que enunciava na sua voz lenta e quente, com palavras claras, nun iídiche imagético e fluente, o que Jean-Paul Sartre viria a descobrir anos mais tarde: «Mas o que é o inferno? E o paraíso? Tudo se passa cá dentro. Dentro de casa. Porque o inferno e o paraíso existem em todos os quartos. Por detrás de cada porta. Debaixo de cada manta de casal. É assim: basta um pouco de maldade para o homem se tornar um inferno para o homem, e basta um nadinha de compaixão para ser o paraíso.
Disse um pouco de compaixão e de generosidade, não falei de amor: não acredito no amor universal. (...) O amor é uma mistura estranha de uma coisa e do seu contrário, a mistura do egoísmo mais egoísta com a entrega mais total. Um paradoxo! Para além disso, o amor, e toda a gente passa a vida a falar de amor, sim, o amor não se escolhe, pega-se-nos, aprisiona-nos, como uma doença, uma catástrofe. E então o que é que escolhemos? Entre o quê e o quê é que os homens têm que optar a cada momento? Entre a generosidade e a maldade.»

Amos Oz, Uma História de Amor de Trevas

quinta-feira, 27 de março de 2008

Amoz Oz, em entrevista à Euronews, sobre a sua obra, Israel e a Palestina

A entrevista começa assim: "If I had to tell you in one word what my entire literary work is about I would say "families". If you give me two I'll say "unhappy families". If you give me three words you'll have to read my works"
Não temos opção senão "atacar" o livro!

segunda-feira, 17 de março de 2008

História recente da cidade de Jerusalém

Para ajudar a entender os meandros históricos da nossa actual leitura, procurei na Wikipedia uma história resumida da Jerusalém do século passado. Está lá muita informação igualmente interessante, mas aqui segue o capítulo sobre a história contemporânea:

Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, o general britânico Edmund Allenby tomou a cidade aos Otomanos. Os britânicos tornaram-se administradores da Palestina (termo que na altura se referia a uma área que é hoje ocupada por Israel, Faixa de Gaza, Cisjordânia e reino da Jordânia), de acordo com o mandato atribuído pela Liga das Nações e que terminou em 1948. A cidade de Jerusalém foi durante este período a capital deste território.
Entretanto, os conflitos entre os árabes e sionistas rebentam na década de vinte. Após o fim da Segunda Guerra Mundial alguns militantes sionistas iniciaram uma série de ataques bombistas contra os britânicos, entre os quais o ataque dos membros do Irgun ao hotel King David em 1946, que na época servia temporariamente como sede do poder britânico.
Em 1947 as Nações Unidas estabeleceram um plano que visava dividir a Palestina em dois estados, um judeu e um árabe. O plano previa que Jerusalém fosse uma cidade administrada pela comunidade internacional, com o estatuto de corpum separatum (em latim, "corpo separado"), sendo governada por um administrador designado pela ONU. Durante a primeira guerra entre o novo estado de Israel e os árabes, a cidade de Jerusalém foi um dos palcos do conflito. As forças da Jordânia entram em Jerusalém e tomam a zona oriental (onde se situam os locais sagrados), enquanto que as forças de Israel tomaram a zona ocidental, que tinham crescido durante a administração britânica e onde se situava o centro económico e as novas zonas residenciais. O armistício assinado entre Israel e a Jordânia a 3 de Abril de 1949 reconhecia a soberania de cada parte sobre as zonas conquistadas durante o conflito. Em 1950 Israel fez de Jerusalém a sua capital.
Durante a Guerra dos Seis Dias, em Junho de 1967, as forças israelitas tomam a zona oriental aos jordanos e a Knesset decreta a reunificação da cidade. Em 1980 uma lei da Knesset declara que Jerusalém é a "capital eterna de Israel", mas o Conselho de Segurança das Nações Unidas não reconhece esta lei (resolução 478).
Durante a primeira Intifada (1987-1993), a tensão entra a comunidade judaica e a comunidade muçulmana cresceu, e no ano de 1990 estalaram confrontos particularmente violentos entre o exército israelita e as forças contestárias.
O acordo de paz de 1993 levaria ao aparecimento na cidade de algumas instituições políticas e culturais ligadas aos palestinianos, ao mesmo tempo que cresciam novas zonas residenciais judias ao sul e ao norte. Em Setembro de 1996 surgem novos conflitos entre os palestinianos e o exército israelita, alegadamente motivados pela construção de um túnel entre o Muro das Lamentações e a Via Dolorosa, que os palestinianos argumentavam colocar em risco as mesquitas sagradas de Al-Aqsa e a Cúpula da Rocha.
No ano 2000, o papa João Paulo II deslocou-se a Jerusalém, tendo visitado os locais sagrados do cristianismo e uma mesquita. O papa aproveitou a ocasião para reafirmar o pedido de desculpas pelo passado antisemita da Igreja Católica, tendo realizado uma oração no Muro das Lamentações. Em Outubro do mesmo ano a violência entre israelitas e palestinianos regressou, sob protexto da visita do político israelita Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas, que terá sido o motivo para o início da segunda Intifada.
O estatuto definitivo de Jerusalém é um dos pontos mais delicados do conflito israelo-palestianiano. A Autoridade Nacional Palestiniana aspira fazer de Jerusalém Oriental a capital de um futuro estado independente palestiniano, mas ao mesmo tempo Israel não abdica da sua soberania em Jerusalém.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Do prazer de escrever e do compromisso


A AC mandou-me este pequeno texto para publicar no blogue, iniciando uma nova série dedicada à reflexão sobre o próprio acto de escrever, que como sabem as leitoras do nosso clube de leitura, é uma temática recorrente nos livros que temos lido.
Trata-se de um excerto do ensaio Do prazer de escrever e do compromisso, publicado pelo jornal Público, tirado do livro Contra o Fanatismo, de Amos Oz:

Eu fiz-me escritor por causa da pobreza, da solidão e dos gelados.
(…)
Eu morria pelo gelado, mas os meus pais costumavam demorar-se a conversar com os amigos durante sete dias e sete noites sem parar, ou, pelo menos, era o que me parecia. E tinha de fazer alguma coisa para não gritar nem ficar maluco. Assim, sentava-me ali e observava o movimento do café como um pequeno detective: gente a entrar e a sair… Como um pequeno Sherlock Holmes, reparava nas roupas, nas caras, nos gestos, estudava os sapatos, contemplava os bolsos e costumava passar o tempo a inventar pequenas histórias sobre aquela gente.
(…)
Também me converti em escritor porque vinha de uma família de refugiados com o coração destroçado.
(…)
Havia dias em que me odiava por estar ali sentado sem produzir nada. Especialmente quando vivia no kibbutz e ficava sentado a manhã inteira para escrever talvez três linhas e apagar quatro, de modo que a produção era deficitária em relação à do dia anterior. E então ía ao refeitório comunitário e dava-me vergonha comer. Havia ali gente que tinha lavrado acres de terra, ou gente que tinha ordenhado centenas de vacas, ou gente que tinha construído um muro e só depois almoçava. E eu, que tinha escrito quatro linhas e apagado cinco, como me atrevia a comer? Com o decorrer dos anos, porém, habituei-me à perspectiva do lojista. O meu trabalho consiste em ir para ali todas as manhãs, abrir a loja e esperar pelos clientes sem fazer mais nada. Se tiver clientes, é um dia muito proveitoso. Caso contrário, continuo a fazer o meu trabalho apenas sentando-me e esperando, sem pensar que me limito a esperar. Porque mesmo quando não escrevo, há coisas que passam pela minha mente, tal como quando era criança e morria por um gelado e esperava que os meus pais acabassem de conversar. Observo, imagino, fantasio. Meto-me na pele de outras pessoas. Não estou a falar de estilo, de técnicas, de temas ou parábolas; os exegetas sabem disso muito mais do que eu. O que quero compartilhar convosco é algum prazer da minha experiência de contar histórias com coragem, contar-vos de onde provém a urgência real de contar histórias, e como se vive, inclusivamente, face ao tempo, ao sofrimento, ao preconceito, à tragédia, à perda e à derrota. E como esta urgência de contar histórias é tão antiga. Creio que ela existe em todo o ser humano, não só nos escritores e romancistas: a necessidade de contar uma história, de imaginar o outro, de meter-se na pele do outro é, afinal, não só uma experiência ética e uma grande prova de humildade, não só uma boa directriz política, mas também, ao fim e ao cabo, um grande prazer.

Amoz Oz