segunda-feira, 20 de setembro de 2004




Encontrei a lei de que falavamos ontem e não se chama Macedo mas sim Miranda, portanto “Miranda Warning”. Pela data em que foi, parece que nem o Dick ou Perry beneficiaram dela. Transcrevo (em inglês) em baixo, uma explicação simplificada do aparecimento da lei. Quem quiser mais detalhes pode clicar no link em baixo.

http://www.crimelibrary.com/notorious_murders/not_guilty/miranda/3.html?sect=14



United StatesLaws and Rights
You Have the Right
In most cases, before making an arrest a police officer must read this list of rights to the suspect. It is called the Miranda warning because of the 1966 Supreme Court decision, Miranda v. Arizona. When Ernesto Miranda was arrested and questioned by the police, the information he gave them was used against him at his trial. This was a direct violation of the Fifth Amendment of the Bill of Rights. Miranda appealed, claiming that his rights were violated. The Supreme Court agreed; since then, in most cases people are read the Miranda warning upon arrest.
Miranda Warning
You have the right to remain silent and refuse to answer any questions.
Anything you say may be used against you in a court of law.
As we discuss this matter, you have a right to stop answering my questions at any time you desire.
You have a right to a lawyer before speaking to me, to remain silent until you can talk to him or her, and to have your lawyer present when you are being questioned.
If you want a lawyer but cannot afford one, one will be provided to you without cost.
Do you understand each of these rights I have explained to you?
Now that I have advised you of your rights, are you willing to answer my questions without an attorney present?

Aqui fica um artigo da Máxima, sobre o nosso próximo livro, enviado pela Ana:

Mafalda Ivo Cruz recebe Grande Prémio de Romance e Novela 2003

Lusa
A escritora Mafalda Ivo Cruz recebeu hoje, em Tróia o Grande Prémio de Romance e Novela 2003 da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pelo seu romance "Vermelho". Na cerimónia, o Presidente da República, Jorge Sampaio, apelou à valorização da língua portuguesa.Na entrega do Prémio, Jorge Sampaio afirmou que a língua portuguesa deve ser considerada "uma prioridade, não apenas retórica, mas efectiva". "Quer isto dizer, com meios, com ambição, com estratégia, com vontade", sublinhou o chefe de Estado.Fazendo a ligação deste prémio com a Cimeira dos Países de Língua Portuguesa, em que participou na passada semana em São Tomé e Príncipe, o Presidente da República salientou o trabalho que alguns desses países fazem na promoção da língua portuguesa, nomeadamente através da pressão para que o português seja língua oficial em organismos internacionais."Este é o grande elo civilizacional com que nós temos assinalado a nossa presença no mundo", frisou.Sobre a premiada na 22ª edição do prémio, a cuja entrega Sampaio habitualmente preside, o Presidente salientou a juventude de Mafalda Ivo Cruz e o facto de ser mulher."Sabendo-se que a arte visa o universal, o aparecimento de tão boas escritoras não deixa de ser sintomático da transformação da nossa sociedade", destacou Sampaio, elogiando o papel do mecenato na solidificação da cultura portuguesa.Mafalda Ivo Cruz foi galardoada pelo seu romance "Vermelho" e reconheceu a importância deste prémio, até pelo valor monetário: 15 mil euros."Este prémio é uma grande ajuda: permite aos escritores que o recebem criar um espaço vital, sem interferir no seu trabalho", afirmou a autora aos jornalistas no final da cerimónia, lembrando que a profissão de escritora "é extremamente mal paga".O Grande Prémio de Romance e Novela é atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores desde 1982 e já premiou autores como Virgílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes ou Lídia Jorge.Patrocinam este galardão a Fundação Calouste Gulbenkian, o Instituto Camões, o Ministério da Cultura, a Sociedade Portuguesa de Autores, a Imprensa Nacional Casa da Moeda, a Câmara de Grândola e a Torralta.O júri que escolheu a obra, por maioria, foi este ano constituído por Margarida Braga Neves, Eduardo Prado Coelho, José Carlos Seabra Pereira, Júlio Moreira, José Correia Tavares e Maria Isabel Barreno.Mafalda Ivo Cruz nasceu em finais dos anos 50, concluiu o curso de piano no Conservatório de Lisboa, foi bolseira do Governo francês durante três anos, em Paris, e dedicou-se ao ensino em Portugal e em França.Sobrinha do maestro Manuel Ivo Cruz, foi colaboradora de algumas publicações periódicas, caso do suplemento "Mil Folhas" do jornal Público, da revista Rodapé, da Biblioteca de Beja, e da Colóquio-Letras."Um requiem Português" (1995), "A Casa do Diabo" (2000) e "O Rapaz de Boticelli" (2002) são algumas das suas obras já publicadas.


Mafalda Ivo Cruz - A dança da escrita
por Leonor Xavier -fotografia de Pedro Ferreira

O que significa ser artista? Através do mundo do ballet, a escritora tenta responder a esta pergunta no seu mais recente romance. Nascer numa família de músicos colocou-a no cerne da questão.



Fala muito depressa, quase murmura mais do que diz, pula de uns para outros assuntos, diverte-se com os comentários que em paralelo vai inventando. Pelo sangue herdou o sentido de humor, a criatividade, a imaginação que fazem da família Ivo Cruz uma referência de afectos, de momentos partilhados, de muitas histórias contadas. Desde sempre Mafalda Ivo Cruz terá ouvido essas histórias, desde pequena conviveu com a ideia de que a conversa é o centro de todas as coisas, exercício maior de inteligência.
Define-se como conservadora no rigor da educação e também desde sempre co-nheceu a arte como razão de ser, profissão e modo de vida, numa família que vai já na quarta geração de músicos. Depois do curso de piano feito no Conservatório de Lisboa, foi pianista e bolseira do governo francês em Paris, cidade onde viveu desde os anos 80 até 1999, quando voltou para Portugal.
Sem imaginar que lhe pudesse acontecer, a escrita surprendeu-a: "Vejo-me como uma pessoa que tem a escrita como o melhor instrumento de comunicação, a imagem de escritora é um acidente, é um acaso que me aconteceu." Acaso que foi considerado uma fantástica revelação, pelas críticas elogiosas de Eduardo Prado Coelho e de Fátima Maldonado ao seu livro de estreia, Um Requiem Português, publicado em 1995. Autora de mais dois romances, A Casa do Diabo (2000) e O Rapaz de Botticelli (2002, ambos das Publicações D. Quixote), está agora a escrever o seu quarto livro com o apoio do Ministério da Cultura, através de uma bolsa de criação literária para o ano de 2002.
Se não tivesse sido pianista e escritora, Mafalda Ivo Cruz teria uma outra vocação perfeitamente definida: "Podia ter sido bailarina se tivesse um bom corpo e bons professores. Mas viveria sempre nesse meio que me apaixona. Faço dança todos os dias, como era pianista preciso de actividades físicas." Curiosa, inquieta, interessada, é sistemática na avaliação do mundo que nos cerca: "Não saio de Portugal desde que voltei, há três anos. Ando a ver tudo o que há a ver, vou aos espectáculos sempre com um olho crítico, de uma maneira egocêntrica, à procura do que me convém. Quando escrevemos, somos cobaias de nós próprios."

Falamos na sala de casa, desfilam inter-rupções, assuntos cruzados, sentimentos, comentários de outras casas em outros tempos, e muitas pessoas de querer bem invisíveis, a passar por ali. Não sabe Mafalda Ivo Cruz como é comovente o seu livro, pretexto para a conversa, O Rapaz de Botticelli.
Raro e requintado livro, importante, as páginas correm a construir-se e desconstruir-se. Incrível. Logo nas primeiras, um fragmento ilustra o pensamento de Mafalda Ivo Cruz: "Subi para cima do pequeno palco que nos servia para ensaiar e fiz uma variação 'Corsário'. Sem música. À medida que caía a noite. Só se ouvia o barulho surdo dos meus pés, nos saltos, e o barulho da respiração. Fazia tudo com facilidade, embora me sentisse tenso. A respiração só se tornou arquejante no final. No momento em que o professor se aproximou e me entregou a minha toalha e disse com ar pensativo, 'sim, pode dançar'. E eu arquejava, dobrado para a frente com as mãos apoiadas nos joe-lhos. Tinha feito a coisa mais importante da minha vida. E então encarámo-nos e começámos os dois a rir. 'A técnica, Cage, a técnica. Sim, Efron Cage, pode dançar.'"
"O livro passa-se todo no ambiente do ballet e bastidores. É um testemunho inspirado pela história dos bailarinos, é um livro de amor, é uma maneira de guardar as coisas e de contar as pessoas, é um álbum de família. Há um caroço sobre o qual se vão alargando camadas. Se me perguntarem quem é que inspirou o papel principal, digo que essa pessoa não existe, que é uma articulação de várias coisas e de várias pessoas reais. Mas antes de mais, gostava de falar do Alexei, um bailarino que aparece no livro e que tem uma história muito interessante. Ele é russo, cresceu no Ballet Bolchoi, foi para lá pequeno, preparado para fazer uma carreira na dança. A avó nasceu em 1904 e vivia numa grande casa da família, uma daquelas casas aristocráticas que depois da Revolução foram ocupadas e divididas em apartamentos comunitários. Em 1917, ela tinha 13 anos e estudava piano." Foi o ano da revolução na antiga União Soviética.



Mafalda Ivo Cruz - A dança da escrita
por Leonor Xavier -fotografia de Pedro Ferreira

"Quando vieram os comissários despejar a casa, havia um piano de cauda de concerto que não cabia nas escadas, e por isso atiraram-no do terceiro andar. Enquanto viveu, a avó ouvia sempre aquele estrondo do piano a partir-se todo na rua. Em 1936, ela foi deportada para o Cazaquistão, considerada inimiga do povo por ter casado com um estrangeiro, apesar do marido ter sido fuzilado nos anos 20. Quando era mais crescida, ela fazia dança. O Alexei é parecido com a avó, identifica-se com ela. Entretanto, o pai, que era um cientista pró--Brejnev e que fazia bombas, passou a pertencer à classe da nomenclatura, o que dava à família uma vida protegida, fácil, com férias no Mar Negro e todo o conforto. Em 1989, o Bolchoi desfez-se, os bailarinos começaram a emigrar, ele foi para a Grécia, onde ficou algum tempo antes de vir para a Companhia de Dança de Lisboa. Apaixonou-se por uma portuguesa, resolveu ficar em Portugal. Depois de ter saído da CDL, foi percebendo as dificuldades da vida fora da Companhia, o que é muito duro para um bailarino que nunca tinha tido contacto com esta realidade. Começou a dar aulas, é o meu professor de dança, estava a morrer de saudades de dançar, reuniu um grupo de oito pessoas que formaram o Projecto Fokine, para fazer ballet clássico, hoje quase banido porque tudo é dança contemporânea. Começaram a trabalhar sem ajudas nem subsídios, fizeram um guarda-roupa inteiro com todo o dinheiro que tinham. Foram à Guarda, não havia condições para o espectáculo mas apesar disso fizeram-no, ninguém teve o menor cuidado com eles, a sala estava quase vazia, não os acompanharam ao comboio, da Câmara Municipal apareceu um representante. Foi uma solidão. O Alexei tem paixão por aquilo que faz, é mal pago mas vive com essa paixão, isso é muito bonito. Trabalha, é muito mais culto que os europeus."

Os elementos do Rapaz de Botticelli vão-se desenhando, através das reflexões de Mafalda Ivo Cruz, em alusões e descrições, são o conjunto variado de experiências vividas, de ambientes, de glórias e fracassos, numa sequência nem sempre lógica. Almada Negreiros tem um espaço na narrativa, com as suas facetas de bailarino e coreógrafo.
"Fiz um trabalho sobre o Nijinsky. A partir desse artigo, o Luís Gaspar [ilustrador] telefonou-me por causa da ligação de grande amizade que o Almada Negreiros teve na juventude com a minha avó. Começaram a juntar-se coisas: a minha avó e uma das mi-nhas tias fizeram um jornal chamado Paradoxo. Pelo Gonçalo Melo Breyner conheceram o Almada, e transformaram o seu clube de meninas num clube futurista. O Almada fez a coreografia de uns bailados que elas dançaram, com músicas de Schumann e Grieg também escolhidas por ele. Na época, o Almada teve uma paixão pela minha tia, que tinha 16 anos, e a minha avó no meio dos dois fingia que não sabia de nada."
A entrevista que no livro é feita por Mariana ao crítico de arte Delfim Sardo, sem lhe alterar o nome, foi na realidade uma conversa de Mafalda Ivo Cruz com "um professor que é adorado pelos alunos e que é uma pessoa adorável", num ambiente de grande emoção, como conta: "Durante essa conversa, estava irritada com a pobreza dos bailarinos, estava a escrever sobre isso, o que é um artista e o que é a vida trágica desses profissionais que não têm dinheiro nem sequer um sindicato, que são uns corsários, uns malucos. Os bailarinos de quem eu falava queriam fazer ballet clássico, mas só há subsídios se o ballet clássico for considerado uma actividade pedagógica, o que dificilmente acontece. Estava a falar com um crítico de arte contemporânea numa atitude provocatória, cheguei a ser agressiva e ele, calmamente, como quem fala com uma aluna, disse-me: 'Ponha-se com essas coisas e ainda lhe vai acontecer como ao Jean Clair, director do Museu Picasso, que passou a escrever numa revista de extrema-direita.' Sai o Vasco Graça Moura, três meses depois, a confirmar o que o Delfim tinha previsto, com uma série de artigos em que toma posições extremamente agressivas em relação à cultura, aos subsídios, à política cultural."
E há em O Rapaz de Botticelli uma pergunta que tudo explica através de Efron Cage, o protagonista, seu auge e decadência, ou a razão de ser do livro: "Além de motivações pessoais, porque é que fazemos isto, porque é que os artistas fazem arte, como é que a gente está a lidar com coisas profundas que até podem ser perigosas, até que ponto nós lidamos com isso." Questão enunciada em escrita: "[...] E que o nosso navio era enorme. E que éramos uma fraternidade de homens e mulheres temíveis que se lançavam no mar, alguns por ganância outros porque procuravam o seu próprio renascente, o seu próprio monstro. Outros ainda porque tinham a vocação de lutar com a morte. Ou apenas porque se batiam e sabiam bater-se bem, muito bem. Muitíssimo bem, mesmo. No nosso rasto ficava um inferno de gritos e dor e sangue e luto. Mas o nosso horizonte era, claro, radioso. A mais clara das auroras. E, sim. Foi a minha vida."

O avô de Mafalda Ivo Cruz fez o curso de Direito e estudou composição na Alemanha, foi compositor e director do Conservatório Nacional. O pai, Manuel Ivo Cruz, é maestro, e a mãe, Dinorah Leitão, é pianista. Os três irmãos têm a música por motivo: Nuno é flautista na Orquestra Sinfónica Portuguesa e casado com uma flautista americana. Miguel toca viola de gamba e violoncelo na Capela Real, um conjunto de música bar-roca, e faz mestrado no Conservatório em Haia. Rui, não sendo músico, é técnico de pianos e trabalha no Teatro de S. Carlos. O sobrinho Tiago Alvim, filho de Miguel, é pianista, usando o nome da mãe. O tio, Duarte Ivo Cruz, é professor de História de Teatro no Conservatório. E a avó paterna foi uma presença essencial para a formação e personalidade desta neta mais velha: "A mi-nha avó tomou muitas vezes conta de mim, vivi muito com ela, perto dela, ao colo
dela, a sensação que me foi transmitida é a de que não compreendo bem a vida fora desse âmbito mental que ela me contava através das histórias da família Burnay, uma família muito louca, cheia de episódios movimentados. A minha avó teve uma infância fantástica e uma vida brilhante, fora das normas. Tinha uma irmã com um ano de diferença, que morreu, tinham uma ligação fortíssima. A minha avó foi educada a acreditar que tinha de ficar direita acontecesse o que acontecesse, nunca se ia abaixo."
Quando se reúnem, são talvez originais por terem em comum o tema Conservatório Nacional: "Nos almoços de família juntamo-nos todos a falar da 'loja', ficamos muito unidos a falar da Rua dos Caetanos." A música "não é uma graça" que se faça de improviso, na sala de estar. Entre os pais, hoje separados, a mesma música teria sido motivo de controvérsias: "Era uma relação crispada porque havia coisas profissionais." Vivem ao invés dos ritmos gerais: "Não há fins-de-semana, os dias acabam às três da manhã, nunca nada está pronto, é sempre preciso recomeçar."

Casada há 20 anos, o marido médico foi na vida real uma das personagens ficcionadas por José Cardoso Pires em A Balada da Praia dos Cães, e motivo de inspiração para o primeiro romance de Mafalda Ivo Cruz: "Comecei a escrever por causa da história dele, uma história bonita vista pelo lado da mãe, francesa, que era linda. No livro eu encarnei a mãe, queria protegê-lo, fui à procura das histórias de infância, dos tempos de escola. Acabei Um Requiem Português em 1994. Escrevi-o a correr, em Paris, na cozinha da casa, onde fazia tudo ao mesmo tempo. Encontrei o editor da Presença, que o publicou em 1995." O segundo li-vro, A Casa do Diabo, lançado em 2000, escrito "para continuar uma possibilidade aberta", depois de entregue, esperou muito até ver a luz do dia: "Pus o manuscrito nas Publicações Dom Quixote, esperei resposta durante um ano, estava para ser devolvido, mas afinal, em vez disso, tive uma reunião marcada com o Nelson de Matos."
Entre os escritores que tem conhecido, confessa uma admiração intensa por Leonel Brim: "Tenho um contacto muito estreito com ele, foi um encontro raro, é bem educado, é de uma imensa cortesia. E na escrita tem uma fluência, uma agilidade, uma perfeição. Em Julho de 1999, quando comecei a escrever no suplemento Leituras, do Público, fiz uma recensão sobre um livro
dele, Magistério e Desgosto, da Bizâncio. Foi um livro dificílimo, duro e agressivo, de uma grande qualidade. Depois pedi-lhe emprestado outro livro, Talvez Pinóquio, escrito há 15 anos, que não chegou a ser distribuído, que é um deslumbramento. O Leonel Brim ultrapassou a questão do ego dos escritores, que é muito complicada. Até aos 50 anos hesitou entre ser cineasta ou pintor, é casado com uma artista plástica, é um mestre."

Este ano de 2002, Mafalda Ivo Cruz não pode escrever em jornais, porque a exclusiva dedicação ao próximo romance lhe é exigida pelas regras da sua bolsa de criação literária.
"O tema do quarto livro é a loucura, é o discurso da loucura levado ao extremo", adianta. Não tem rotina, tempos certos de criação, dá ideia que tudo lhe vai nascendo por dentro, a expressão dos olhos sugere que sim. "Não sou disciplinada, escrever com prazo é uma aflição, ando sempre a correr, angustiadíssima", diz.
Sobre ser difícil de ler, não é por isso que se aflige: "Dizem que sim, as coisas são como são, escrevo como sei escrever, não sei fazer mais fácil." Tão simples como isto. E a verdade é que quem lê o seu texto não o esquece mais, leva-o na vida real e tem-no ao vivo em extraordinários sonhos.

A nossa próxima leitura é:

"Vermelho", de Mafalda Ivo Cruz.

Boas leituras!!

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

Na sequência do aniversário de morte do nosso querido autor de momento (Truman Capote), junto ao nosso blog um artigo publicado ontém no jornal Publico. Boas leituras.

Truman Capote Por KATHLEEN GOMESQuarta-feira, 25 de Agosto de 2004
O encantador e a serpente
Sobre Truman Capote, James Wolcott escreveu na revista "Vanity Fair" que "ele tanto era o encantador de serpentes como a própria serpente". É uma dessas definições invejáveis, verdadeiramente "à la Capote": eficaz, certeira, profunda, mordaz.
De Capote se pode dizer uma e outra coisa: por exemplo, que foi um autor que fez da escrita uma experiência estética, e que foi um "poseur", um arrivista dado às mundanidades que só tinha um objectivo em mente - a fama.
Uma forma de resumir este Truman Capote dois-em-um é dizer que foi a mais fascinante figura literária da era dos "talk-shows". As suas primeiras e últimas aparições televisivas constituem a cartografia da ascensão e queda de um mito, entre o menino-prodígio que nos anos 50 minimizou a obra de Jack Kerouac ("não é escrita - é dactilografia") e o velho que se tornara um embaraço no final da década de 70 e que apareceu bêbado num programa de televisão depois de ter pedido ao apresentador para não falar dos seus problemas de alcoolismo.
Um e outro - o encantador e a serpente - não perderam o fascínio, 20 anos após a morte de Truman Capote. Por causa de um e de outro, ainda há quem resista em incluí-lo entre os grandes escritores norte-americanos do século XX. "Enfant terrible" da literatura americana do pós-guerra é aceitável, mas "grande escritor"?
Não ajuda que Capote tenha produzido uma obra mais ou menos dispersa, mais ou menos irregular, quase sempre sob a forma de pequenas narrativas (contos, novelas, ensaios), que não chegasse a terminar o seu prometido "opus" proustiano, que tivesse a pretensão de aproximar o jornalismo da arte literária.
Não ajuda, enfim, que as suas aspirações incluíssem "ser rico e famoso". "Eu tinha que ter sucesso e tinha que tê-lo cedo", afirmou em 1978. "O que acontece com pessoas como eu é que sempre soubemos o que íamos fazer. Muitas pessoas passam metade da vida sem saber. Mas eu era muito especial e tinha de ter uma vida especial. Não fui destinado a trabalhar num escritório ou algo do género, embora fosse certo que teria êxito no que quer que fizesse. Mas sempre soube que queria ser um escritor e que queria ser rico e famoso."
Ascensão...
E, apesar de tudo, criou e solidificou um estilo. No prefácio de "Música Para Camaleões" (1980) diz que pretendia alcançar "a credibilidade dos factos, a imediatez do cinema, a profundidade da prosa e a exactidão da poesia". As três últimas, pelo menos, são visíveis em "A Sangue Frio" (1965), espécie de texto sagrado da "nonfiction novel", da "reportagem narrativa".
Lendo entrevistas do autor à altura, e outros textos seus, tem-se a impressão de que foi um romance - de não-ficção, como dizia, mas ainda assim um romance - feito para provar uma teoria: a de que "a reportagem podia ser tão interessante e tão artística quanto a ficção".
Capote já tinha feito um ensaio com "Ouvem-se as Musas" (1956), relato da viagem à URSS da companhia de teatro americana de "Porgy and Bess", que é também um fresco sobre os equívocos e "clichés" com que a América via os russos e vice-versa.
Além disso, Capote tinha treinado intensamente a memória para não precisar de gravadores nem de blocos-de-notas nas entrevistas e reportagens. Para que nada interferisse entre predador e presa. Quando, a 16 de Novembro de 1959, o "New York Times" publicou uma pequena notícia sobre um homicídio múltiplo numa quinta isolada do Kansas, Capote partiu de comboio para o Midwest e durante seis anos trabalhou em "A Sangue Frio", recolhendo testemunhos, verificando pistas, privando com os assassinos até à execução da pena de morte.
O resultado foi uma obra sem precedente, que, numa extraordinária combinação de montagem paralela e detalhe, condensava uma espécie de fim trágico do sonho americano - as vítimas, os Clutter, pai, mãe, filha e filho, personificavam um modelo exemplar da família americana.
Norman Mailer, autor de "A Canção do Carrasco", no que viria a ser um dos episódios da célebre inimizade que o unia a Capote, descreveu "A Sangue Frio" como uma "falha de imaginação", pressupondo que um verdadeiro romancista deveria escrever sobre o seu imaginário e não sobre a realidade.
O que seria produto de intriga, mais do que qualquer outra coisa: um dos sortilégios de "A Sangue Frio" é a moldura tão impossivelmente real das personagens (mas tão potencialmente ficcional), a omnisciência do autor, a sua capacidade para reproduzir, por exemplo, os pensamentos de uma rapariga de 16 anos, Nancy Clutter - em suma, a sua habilidade para transcender a realidade.
Sobre a "credibilidade factual" que Capote tanto defendeu, cite-se o "Auto-retrato", de 1972 (incluído em "Os Cães Ladram", ed. Relógio d'Água): "A arte e a verdade não são necessariamente parceiros sexuais compatíveis."
A verdade é que Norman Mailer fez parte de uma minoria. "A Sangue Frio" foi pré-publicado em série na revista "New Yorker", estabelecendo um recorde de vendas, e o livro vendeu mais de 300 mil exemplares, permanecendo 35 semanas na lista de "best-sellers" do "New York Times". Capote, que já tinha ampla notoriedade, tinha conseguido: era rico e famoso.
Comemorou o êxito com um baile de máscaras no Plaza Hotel, Nova Iorque, em 1966: o "Black and White Ball", também conhecido como "a última grande festa americana", foi uma festa para mais de 500 "escolhidos", entre estrelas de Hollywood e uma elite aristocrática.
"A Sangue Frio" valeu-lhe um contrato milionário com a Random House, para um livro que o autor teria de entregar em dois anos. Ressentido pelo facto de o Pulitzer e o National Book Award terem ido para Mailer, Capote projectou o que ambicionava ser o seu legado canónico, uma espécie de "Em Busca do Tempo Perdido" contemporâneo, baseado nos seus diários, correspondência e anotações ao longo de anos: "Súplicas Atendidas".
... e queda
Viria a ser o seu eterno "work-in-progress", e um anti-clímax amargo: Capote não só não terminou o livro, como os excertos publicados na "Esquire" lhe custaram a amizade do que chamava os seus "cisnes" - mulheres da sociedade-caviar, o "jet-set" feminino com quem forjara cumplicidade tanto tempo.
Foi, sobretudo, o capítulo "La Côte Basque" que surgiu como uma traição: um relato de inconfidências feitas à mesa de um restaurante numa mistura de vícios privados, misoginia e muita, muita fofoca. Quando lhe pediram contas, respondeu: "O que é que eles esperavam? Sou um escritor e uso tudo. Será que todas aquelas pessoas pensavam que eu estava lá só para as entreter?" Capote refugiou-se no álcool e em anti-depressivos, assegurando a todos os interessados e não-interessados que continuava a trabalhar em "Súplicas Atendidas" - que permaneceu inacabado e foi publicado postumamente, em 1986, com os mesmos capítulos que tinham aparecido na "Esquire".
Morreu a 25 de Agosto de 1984, a pouco mais de um mês de completar 60 anos, em Los Angeles, na casa da amiga Joanne Carson, ex-mulher do apresentador de "talk-shows" Johnny Carson. No seu obituário, pelo sim pelo não, o "New York Times" citava o comandante da polícia de L.A.: "Não há qualquer indicação de que seja uma partida." Porque, afinal, Capote era capaz de tudo pela fama.
Andy Warhol relata nos seus diários que, em 1978, o "New York Times" publicou um artigo sobre Capote com uma fotografia "que não parecia Truman". "Parecia a mãe dele. Ele estava de pé na relva, com um chapéu de palha e um lençol que o fazia parecer grávido. (...) Ele disse: 'Olha, sou eu. Gostas?' E enquanto isso falava do artigo, que mencionava a palavra 'declínio'. E ele disse: 'Declínio? Que declínio? Sou o escritor sobre o qual mais se escreve no mundo.'"

sábado, 24 de julho de 2004

E aqui fica também um artigo em português (brazuca) para quem tem mais dificuldade em ler em inglês:

Jornalismo à queima-roupa
A partir de um crime bárbaro no Kansas, Truman Capote produziu uma obra-prima da reportagem

Rodrigo Alves

Nos salões da alta roda ou na solidão da máquina de escrever, Truman Capote nunca foi de se render aos padrões vigentes. A sangue frio, sua obra máxima, já começa sob este signo. Subvertendo uma das regras mais básicas das escolas de jornalismo, o autor dribla o gesso do lead clássico e gasta quatro páginas com descrições de cenários antes de anunciar, numa frase curta e vaga, do que trata sua reportagem: ''Quatro disparos de espingarda que, no fim das contas, deram cabo de um total de seis vidas humanas.''
Mais adiante, o leitor vai descobrir que estas seis vidas eram de quatro membros da família Clutter - Herb, Bonnie, Nancy e Kenyon, friamente executados numa pequena cidade do Kansas - e seus dois assassinos, Dick e Perry, levados à forca quatro anos depois.
Descontada a carga trágica, a história em si não chega a ser um achado literário, mas foi o bastante para chamar a atenção de Capote na página 39 do New York Times em 16 de novembro de 1959. A matéria em uma coluna noticiava sem muito alarde: ''Um rico plantador de trigo, sua mulher e dois filhos foram encontrados mortos hoje em sua casa. Foram assassinados com tiros à queima-roupa, depois de serem amarrados e amordaçados.''
Passou um mês e lá estava Capote a caminho de Holcomb, uma cidade tranqüila do Meio-Oeste americano que passou a viver em pânico após o crime. A intenção do jornalista era registrar esta epidemia de medo num artigo para a revista The New Yorker. Sem pressa editorial, a apuração poderia durar várias semanas. Acabou durando seis anos, prazo impensável nas redações de hoje. O resultado, claro, foi muito além de um mero retrato do cotidiano local.
As dificuldades começaram com a resistência do investigador Alvin Dewey em conceder longas entrevistas. A população arredia também criava empecilhos e, por mais de uma vez, Capote cogitou abortar o projeto e voltar para casa. Quem o convenceu a seguir foi a amiga de infância Nelle Harper Lee, que o acompanhava na viagem.
Dewey já tinha aberto a guarda a ponto de se tornar um amigo quando os assassinos foram presos em Las Vegas, na antivéspera do Ano Novo de 60. Deu-se ali uma guinada sem volta nos rumos da reportagem.
A maior virtude de A sangue frio reside no apurado perfil humano que Capote desenhou nas duas extremidades da tragédia - as vítimas e os assassinos. Impressiona como o autor, tal qual um psicólogo, reconstrói os pormenores da vida dos Clutter e desvenda o que se passava na mente dos criminosos, numa proximidade perigosa que, acredita-se, cruzou as fronteiras do jornalismo.
Dick Hickock, mecânico que se divertia atropelando cães nas estradas, e Perry Smith, filho de um irlandês com uma índia cherokee alcoólatra, estavam mais próximos do repórter do que ele poderia supor. Na prisão, os bandidos viam em Capote o único elo com o que chamavam de ''mundo livre''.
Nem mesmo a condenação ao enforcamento, estabelecida em março de 1960, freou o ímpeto da apuração, que àquela altura reunia quase 4 mil páginas datilografadas. A primeira visita ao corredor da morte foi ''uma extraordinária e terrível experiência'', que impulsionou o trabalho nos três anos seguintes.
Entre inúmeras apelações judiciais, Dick e Perry continuavam à espera da forca, impondo ao escritor um dilema ético: a ansiedade para publicar o livro batia de frente com a certeza de que o ponto final só viria com a morte de duas figuras agora tão íntimas. A execução foi marcada para 14 de abril de 1963.
Capote chegou ao Kansas duas semanas antes, se esquivou como pôde da última visita, mas estava presente à cena final, como testemunha arrolada pelos réus. Perry escreveu sua carta derradeira uma hora antes de tombar do cadafalso: ''Sinto que Truman não tenha conseguido vir ao presídio para trocarmos umas palavrinhas antes da festa da gravata. Seja qual for o motivo, não o condeno e o compreendo. (...) Sou profundamente grato à amizade nesses anos todos, e por tudo mais. Seu amigo de sempre, Perry.'' Reza a lenda que este ''tudo mais'' era na verdade um romance, nunca confirmado.
Nada disso está no livro. Como bom jornalista, Capote não fez de si um personagem. Nas últimas páginas de A sangue frio, as execuções são narradas sem que o autor apareça em momento algum. O claro envolvimento é desviado, com notável talento, para a ótica das outras pessoas presentes no local: o investigador Dewey, o carrasco em seu terno de risca de giz, os guardas, as testemunhas.
Matinas Suzuki Jr. lembra no posfácio que a redação destas últimas páginas foi tão sofrida para Capote que sua mão ficou paralisada. Na biografia escrita por Gerald Clarke (publicada aqui pela editora Globo, com tradução de Lya Luft), o próprio autor reconhece o drama: ''Ninguém jamais saberá o que este livro tirou de mim. Arrancou-me tudo, até o tutano dos ossos. Quase me matou. Simplesmente não posso esquecê-lo, principalmente os enforcamentos no fim de tudo. Foi horrível.''
Com seus dois personagens mortos, Truman enxugou as lágrimas, voltou para Nova York e escreveu sua obra-prima. O que veio depois foi a glória. Em setembro de 1965, a New Yorker publicava a primeira das quatro partes de A sangue frio. No início do ano seguinte, a publicação da história em livro fez do autor uma figura onipresente na mídia americana. Jornais, revistas, emissoras de rádio e de TV só falavam dele.
O elogios, claro, trouxeram críticas a reboque. A principal delas punha em xeque a veracidade do que estava escrito. Uma legião de repórteres famintos partiu para Holcomb em busca de depoimentos que denunciassem erros e distorções no texto. De fato, encontraram alguns personagens insatisfeitos com a falta de precisão dos relatos.
Mas Capote nunca deu o braço a torcer. ''O texto é imaculadamente factual'', defendia-se. ''Ninguém passa quase seis anos num livro cujo ponto crucial é a precisão factual e depois comete pequenas distorções.'' O fato é que ele confiava muito na própria memória. Não usava gravador ou sequer bloco de anotações, vangloriando-se da capacidade de registrar mentalmente longas conversas. É bem possível que as inevitáveis lacunas desses registros tenham sido preenchidas com leves incursões literárias do autor.
Gerald Clark, que antes de embarcar em seu livro recebeu uma quase-ameaça do biografado _ ''Não vou respeitá-lo a menos que você diga a mais completa verdade'' _, garante que a última cena de A sangue frio é completamente inventada. O encontro casual entre Alvin Dewey e a melhor amiga de Nancy Clutter no cemitério de Garden City nunca teria acontecido. Servira apenas para atenuar o drama das execuções e dar um desfecho mais ameno à história.
Capote se julgava dono do gênero que resolveu chamar de non-fiction novel (romance sem ficção, como prefere traduzir Ivan Lessa, na apresentação). Ou seja, qualquer indivíduo que se aventurasse por este terreno deveria, ao menos, agradecê-lo pela porta aberta. Quem não o reconhecia como precursor - Norman Mailer, Gore Vidal e Bob Woodward, por exemplo - virava desafeto. Havia muito de vaidade e marketing pessoal nesta atitude aparentemente egoísta. E uma certa negação ao passado recente: John Hersey, Rebecca West, Lilian Ross, Joseph Mitchell e um punhado de outros escritores já tinham feito reportagens com jeito de romance.
De certa forma, a expressão cunhada por Capote acaba reforçando uma inverdade: a de que o jornalismo, puro e simples, está condenado à escrita burocrática. Parece que, quando o texto atinge determinada qualidade, incorpora obrigatoriamente o adjetivo literário. Nem sempre. Até que provem o contrário, as 400 páginas de Capote são apenas jornalismo. Da melhor espécie. Assim como Hiroshima, de Hersey, e Os exércitos da noite, de Mailer, A sangue frio não precisa tomar um sobrenome emprestado da literatura para ganhar o carimbo de obra de arte.
O testemunho da primeira execução
O carrasco pigarreou (...) e Hickock, conduzido por um assistente, subiu os degraus do cadafalso. ''O Senhor dá, o Senhor tira. Bendito é o nome do Senhor'', entoou o capelão, enquanto o som da chuva se acelerava, enquanto o laço era ajustado e enquanto uma delicada máscara negra era ajustada ao redor dos olhos do prisioneiro. ''Que o Senhor tenha piedade de sua alma.'' A porta do alçapão se abriu, e Hickock ficou pendendo da forca diante de todos por vinte minutos, até o médico da prisão finalmente anunciar: ''Declaro que este homem está morto.''

A imprensa se repensa
[04/OUT/2003]

in JB Online http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernos/ideias/2003/10/03/joride20031003002.html

Aqui fica uma sumária informação sobre "In Cold Blood":

Truman Capote In Cold Blood
While Capote began as a novelist, his journalistic ability gave him a voice as a writer. His chilling recreation of the Clutter murder, investigation, and dispensation remains a classic example of Literary Nonfiction. In spite of his protestations, some discrepancies with facts has been questioned. Yet the time and effort of both research and writing, in addition to waiting for the killers' execution, remain a testimony to his skill. In Cold Blood was the blockbuster which established Capote as a member of the literati as well as helping to start the writing now labelled as Literary Nonfiction.

Works By Truman Capote:
Other Voices, Other Rooms. New York. 1948.
A Tree Of Night. New York. 1949.
Local Color. New York. 1950.
The Grass Harp. New York. 1951.
The Grass Harp (the play). New York. 1952.
The Muses Are Heard. New York. 1956.
Breakfast At Tiffany's. New York. 1958.
Observations. New York. 1959.
Selected Writings. New York. 1963.
In Cold Blood. New York. 1965.
A Christmas Memory. New York. 1966.
The Thanksgiving Visitor. New York. 1968.
House Of Flowers. New York. 1968.
Trilogy. New York. 1969.
The Dogs Bark. New York. 1973.
Music For Chameleons. New York. 1980.

Também encontrei uma biografia de Truman Capote com informações sobre as suas principais obras:

American novelist, short story writer, and playwright. Capote gained international fame with his "nonfiction novel" IN COLD BLOOD (1966), an account of a real life crime in which an entire family was murdered by two sociopaths. The Louisiana-Mississippi-Alabama area provided the setting for much of Capote's fiction.
"Until one morning in mid-November of 1959, few Americans - in fact, few Kansans - had ever heard of Holcomb. Like the waters of river, like the motorists on the highway, and like the yellow trains streaking down the Santa Fe tracks, drama, in the shape of exceptional happenings, had never stopped there." (from In Cold Blood)
Truman Capote was born in New Orleans as the son of a salesman and a 16-year-old beauty queen, Lillie Mae Faulk. His father, Archulus "Arch" Persons, worked as a clerk for a steamboat company. Persons never stuck at any job for long, and was always leaving home in search for the new opportunities. The unhappy marriage gradually disintegrated, and Capote's parents divorced when he was four. The young Truman was brought up in Monroeville, Alabama. He lived some years with relatives, one of whom became the model for the loving, elderly spinster in several Capote's novels, stories, and plays. "Her face is remarkable - not unlike Lincoln's, craggy like that, and tinted by sun and wind," described Capote in A CHRISTMAS MEMORY (1966) his distant relative Sook, Nanny Rumbley Faulk. Sook was sixty-something, "small and sprightly, like a bantam hen..." Capote's mother, Lillie Mae, wrote letters and telephoned to her son, often crying that she had no money and no husband. When his mother married again, this time a well-to-do businessman, Capote moved to New York, and adopted his stepfather's surname.
In his childhood Capote made friends with Harper Lee, who portrayed him as Dill in her world famous novel To Kill a Mockingbird. "Dill was a curiosity. He wore blue linen shorts that buttoned to his shirt, his hair was snow white and stuck to his head like duckfluff; he was a year my senior but I towered over him. As he told us the old tale his blue eyes would lighten and darken; his laugh was sudden and happy; he habitually pulled at a cowlick in the center of his forehead." Capote started to write stories when he was only eight. He attended the Trinity School and St. John's Academy in New York, and the public schools of Greenwich, Connecticut, but ended his formal schooling at the age of seventeen. He found work at the New Yorker, and attracted attention with his eccentric style of dress. "... I recall him sweeping through the corridors of the magazine in a black opera cape, his long golden hair falling to his shoulders: an apparition that put one in mind of Oscar Wilde in Nevada, in his velvets and lilies." (Brendan Gill in Here at The New Yorker, 1975)
Capote's early stories were published in quality magazines and in 1946 he won O.Henry award. His first novel, OTHER VOICES, OTHER ROOMS (1948), depicted a boy, Joel Knox, growing up in the Deep South. Joel is "too pretty, too delicate and fair skinned". He seeks his father but falls into a relationship with a decadent transvestite. The book gained a wide success and arose controversy because of its treatment of homosexuality. During this time Capote had already established his fame among the cultural circles as the thin voiced, promising young writer, who could brighten up parties with his sharp and clever remarks.
Next year Capote went to Europe, where he wrote fiction and non-fiction. Among his major works was a profile of Marlon Brando. Capote's travels accompanying a tour of Porgy and Bess in the Soviet Union produced THE MUSES ARE HEARD. Capote's European years marked the beginnings of his work for the theatre and films. In 1949 appeared A TREE OF NIGHT, which gathered together short stories which Capote had published in Harper's Bazaar, Mademoiselle, and other magazines. When the director John Huston was making The Asphalt Jungle (1950), Capote met Marilyn Monroe, who acted in the film. "With her tresses invisible, and her complexion cleared of all cosmetics, she looked twelve years old, a pubescent virgin who had just been admitted to an orphanage and is grieving her plight." (from Marilyn Monroe: Photographs 1945-1962 by Truman Capote)
In the 1950s Capote wrote THE HOUSE OF FLOWERS, a musical set in West Indies bordello. Capote's lyrical style and melancholy marked his novel THE GRASS HARP (1951). In the story an orphaned boy and two old ladies observe life from a china tree. Eventually they come down from their temporary retreat, unlike Cosimo Piovasco di Rondò in Italo Calvino's novel The Baron in the Trees (1957). The book was adapted into screen in 1996, starring Piper Laurie, Sissy Spacek, and Walter Matthau. Capote's first important film work was collaboration with John Huston on Beat the Devil (1954).
Following return to the United States, Copote wrote BREAKFAST AT TIFFANY'S (1958). The central character, Holly Golightly, is a young woman, who comes to New York seeking for happiness. She has a nameless cat and a brother named Fred. The nameless narrator is an aspiring writer, who has the same birthday as Capote (September 30) and who follows Holly's life, filled with colorful characters. "What I've found does the most good is just to get into a taxi and go to Tiffany's. It calms me down right away, the quietness and the proud look of it; nothing very bad could happen to you there..." The novel is constructed as a memory of events, that happened about 15 years earlier. Holly has left the country before the end of the war, and the narrator has not seen her since. The book was made into a successful film, starring Audrey Hepburn and directed by Blake Edwards. George Axelrod updated the story to the 1960s and later told: "Nothing really happened in the book. All we had was this glorious girl - a perfect part for Audrie Hepburn. What we had to do was devise a story, get a central romantic relationship, and make the hero a red-blooded heterosexual."
Increasing preoccupation with journalism formed basis for Capote's bestseller In Cold Blood, a pioneering work of documentary novel or "nonfiction novel". The work started from an article in The New York Times. It dealt with the murder of a wealthy family in Holcomb, Kansas. Sponsored by the magazine, Capote interviewed with Harper Lee local people to recreate the lives of both the murderers and their victims. The research and writing took six years to finish. Capote used neither tape recorder nor note pad, but emptied his interviews and impressions in notebooks at the end of the day. He also recorded last days of the death-obsessed criminals. (See Norman Mailer's journalistic works The Armies of the Nigh, Miami and the Siege of Chicago, Of Fire on the Moon.) Richard Brooks' screen adaptation of the book, with its black-and-white photography, avoided all sensationalism. The trial scene was re-enacted at the Finney County Court House in the Garden City, where the actual trial had taken place. Brooks also used the real jury who had convicted Perry Smith and Dick Hicock.
Among Capote's other works from the 1960s is the classic A Christmas Memory, a story about a seven-year-old boy, Buddy, his cousin, an eccentric old lady, and a tough little orange and white rat terrier called Queenie. Buddy and his cousin are each other's best friends, whose special relationship is symbolized by baking of fruitcakes, a kind of a Proustian Madeleine remembrance. The story gained a huge success as a television play. After the publication of In Cold Blood, Capote planned to write a Proustian novel to be called "Answered Prayers". However, problems with drink and drugs, and disputes with other writers, such as Gore Vidal, exhausted Capote's creative energies.
In interviews, Capote negative anecdotes about the people he knew distanced him from his friends. "I had a big discussion with Saul Bellow about Richard Wright," Capote said in 1974. "I said, Richard Wright was a good friend of mine and do you know what Saul Bellow said? He said, "Huh! Well, Wright just became a victim of these heavyweight intellectuals. I used to see him carting around books on Wittgenstein. He was convinced he was an intellectual." I thought that was very sad and pathetic." (The Critical Response to Truman Capote by Joseph J. Waldmeir, 1999)
Answered Prayers remained unfinished, but three stories from novel appeared in Esquire in the 1970s, and the surviving portions were republished in 1986. The autobiographical book presented such real-life as Colette, the Duchess of Windsor, Montgomery Clift, and Tallulah Bankhead, but its depiction of the smart set was characterized in The New York Times as "a socio-pornographic ''Ragtime'' rife with the low cackle of camp." MUSIC FOR CHAMELEONS (1981) was a collection of short pieces, stories, interviews, and conversations published in various magazines. Truman Capote died in Los Angeles, California, on August 26, 1984, of liver disease complicated by phlebitis and multiple drug intoxication.
For further reading: Truman Capote's "In Cold Blood": A Critical Handbook, ed. by Irving Malin (1968); The Worlds of Truman Capote by William L. Nance (1970); Sextet: T.S. Eliot and Truman Capote and Others by J. M. Brinnin (1982); Truman Capote: A Biography by Gerald Clarke (1988); Truman Capote: A Study of the Short Fiction by H. Garson (1992); Truman Capote's Southern Years by Marianne M. Moates & Jennings Faulk Carter (1996); Truman Capote: In Which Various Friends, Enemies, Acquaintances, and Detractors Recall His Turbulent Career by George Plimpton (1997); Critical Essays on Truman Capote, ed. by Joseph J. Waldmeir (1999); The Critical Response to Truman Capote ed. by Joseph J. Waldmeir (1999); The Southern Haunting of Truman Capote by Marie Rudisill, James C. Simmons (2000) - Quote: "In California everyone goes to therapist, is a therapist, or is a therapist going to a therapist." - See also: Harper Lee (Capote's childhood friend); Carson McCullers
Miriam. Mankato, MN. 1982.
One Christmas. New York. 1982.

Saiu uma crónica na revista do “Xis” do Público de hoje que achei que teria interesse para nós. Outra leitora fascinada pelo narrador/osga… Transcrevo-a na íntegra:

CRÓNICA de Faíza Hayat - Conversas com o espelho - “Osga real”

Uma osga, colada ao cristal da jane­la, olha a melancolia da tarde, fecha­da no corpo e fechada em casa. Não pode abandonar a espécie nem pode abandonar o sítio. Ali está, fazendo o melhor possível da sua nova vida, uma vida de osga, em Luanda, uma vida de alguém que já viveu em cor­po de homem. Todos, em redor des­ta osga, olham para o seu passado ­o que não têm mas, precisamente, o que lhes faz mais falta. A osga habi­ta a casa de Félix, um albino que ven­de memórias sob a forma articulada de biografias. Félix é um vendedor de passados: "Dê aos seus filhos um passado melhor", oferece o albino no seu cartão de visita.
A osga vê. E ri. Pertence a uma es­pécie rara de osgas que consegue esboçar um sorriso. O passado é o único tempo que conhecemos bem em nós. Tudo o resto é incerto e es­tá por acontecer - uma promessa, uma profecia, um desejo. Um além. O passado é a nossa única certeza pe­rante nós e perante os outros - nem que seja um passado mentiroso. A mentira é irrelevante. A memória é que nos sustenta. Mas não há me­mórias verdadeiras, como sabe Jo­sé Eduardo Agualusa. Acabo de ler o seu "Vendedor de Passados". Sou uma leitora fiel, confesso, do escri­tor angolano. Não conheço todos os seus livros mas conheço a maior parte. O suficiente para arriscar di­zer que este é o seu romance mais in­teligente. De certo modo, também, o mais incómodo: se a nossa realida­de é uma ficção, não se trata de ser­mos autênticos; temos apenas de ser convincentes. Se não conseguirmos - desgraça! - precisamos de pagar a alguém que minta por nós. Como os clientes de Félix.
O narrador deste romance apenas poderia ser uma osga: um bicho dis­creto, transparente e limpo, ágil mas frágil. A osga de Agualusa não tem medo da metamorfose. Tem apenas medo de lacraus. O seu corpo é ape­nas o suporte a partir do qual pode espreitar e sonhar. É um jogo apai­xonante, este: alguém, um alguém ­bicho, tão repugnante como um rép­til, guarda do humano o passado que já não consegue tocar, enquanto, pe­la casa, gente vai surgindo e desapa­recendo. Desaparece por paixão, en­golida pela pele e pelo passado que lhe ( s) arranjam. Félix é filho adopti­vo de um alfarrabista. O seu mundo é a sua biblioteca (livros, recortes, fo­tografias, estilhaços de passado que ele organiza por catálogo). Jorge Luis Borges está aqui. Arriscaria di­zer que Borges, o próprio escritor, re­encarnou na osga Eulálio. Enquan­to houver livros, não precisamos de corpo. É o sonho (a biblioteca imen­sa que desaba em nós a cada noite) quem nos diz quem somos, ou me­lhor, quem podemos ser. Alguns dos mais belos capítulos do "Vende­dor de Passados" - com uma escrita exacta, de cadência curta, com uma tranquilidade sábia (Agualusa está a ficar maduro?!)- encontra-se na des­crição dos sonhos.
Eulálio, a certo ponto, recorda Cha­twin e a biografia do escritor britâ­nico feita por Nicholas Shakespeare (era escusada a prosaica referência à "tradução portuguesa da Quet­zal"...). Chatwin, além de grande escritor, ou por causa de o ser, foi um mentiroso genial. "Uma histó­ria não tem que ser verdadeira", di­zia ele, "tem apenas que ser boa". É possível viver assim. A Patagónia de Chatwin, ou a sua Austrália aborí­gene, não existem. Mas milhares de pessoas procuram-nas - e encon­tram-nas! - todos os anos, de mochi­la às costas e um catálogo de mitos que mantêm o culto de Chatwin vi­vo. É um pouco assim a nova Angola que Agualusa nos revela no seu no­vo romance, por absurdo: uma socie­dade pode canibalizar a realidade a tal ponto que não resta outra saída senão comprar o passado. Para viver a dignidade da mesma forma que se consome um estupefaciente. Há o perigo da alienação, claro. Mas há a vertigem de ser feliz, encontrando a vida, uma vida, de onde surgimos.
Gosto deste livro por ainda mais um detalhe: é raro encontrar escritores que revelem um conhecimento mí­nimo do que são (ou do que querem) as mulheres. Não sei quem ensinou a Agualusa. Parece-me que ele apren­deu o essencial: não se trata de cha­mar-nos gazelas ou garças. Isso qual­quer homem pode fazer. Trata-se de nos mentir com talento. Como Félix sabe fazer - é por isso que a garota do livro acaba por entregar-se ao "ven­dedor de passados".

faiza.hayat@xis.publico.pt

terça-feira, 20 de julho de 2004

Discussão de “O Vendedor de Passados”, de José Eduardo Agualusa


Começámos por dar uma opinião geral sobre o livro e, consensualmente, considerámo-lo bastante bom. Permite uma leitura muito fluida e agradável.

Talvez o elemento que mais nos tenha cativado foi a escolha do narrador – Eulálio, a osga-tigre. Considerámos muito original, tanto pelo efeito de surpresa que provoca (de início o leitor não se apercebe de que o narrador é um animal, mais concretamente uma osga, e o facto de, a uma determinada altura, tudo começar a fazer sentido é mais um factor que aumenta o prazer da leitura). De facto, uma osga constitui um observador privilegiado – a sua capacidade de se fixar às paredes ou ao tecto permite-lhe um ponto de vista distanciado, mais objectivo, e o facto de passar despercebida permite que veja sem ser vista. No entanto, não deixa de estar implicada na narrativa. Logo desde a primeira página do romance, ela começa a estabelecer uma relação muito especial com o protagonista Félix Ventura, tornando-se na sua melhor ouvinte. Os “diálogos” entre as duas personagens são bastante unilaterais, na medida em que a única hipótese de resposta da osga consiste no emitir de gargalhadas (ficou por apurar se esses animais têm mesmo a capacidade de emitir alguma espécie de som) mas ainda assim é feed-back suficiente para que Félix escolha a sua companhia: “Desde essa altura, depois de me ter ouvido rir, chega mãos cedo. (…) Conversamos. Ou melhor, ele fala, e eu escuto. Ás vezes rio-me e isso basta-lhe. Já nos liga, suspeito, um fio de amizade”(p.15).

Temos ainda, em alguns capítulos, vislumbres da vida passada da osga, enquanto humano. Segundo o próprio Agualusa, em entrevista transcrita no blogue, o narrador/osga é uma reencarnação de Jorge Luis Borges, e alguns dos elementos biográficos referidos são inspirados na própria biografia do consagrado autor. Aliás, uma bonita citação de Borges precede a obra: “Se tivesse que nascer outra vez escolheria algo totalmente diferente. Gostaria de ser norueguês. Talvez persa. Uruguaio não, porque seria como mudar de bairro.” Não sabemos se Borges gostaria de ter renascido osga africana, mas é, decerto, totalmente diferente…

Existe ainda um outro espaço na narrativa onde as personagens humanas e Eulálio se encontram, e onde é possível o diálogo entre elas. – o espaço do sonho. Félix e Eulálio encontram-se no Sonho nº3, pp. 89-93, e no Sonho nº 4, pp. 103-105. E José Buchmann e Eulálio encontram-se no Sonho nº 5, pp 155-160, e no Sonho nº 6, pp. 219-223. São estes momentos oníricos que nos permitem um conhecimento mais profundo das personagens humanas. Uma citação da obra permite-nos uma melhor compreensão da função narrativa do sonho na obra: «“Deus deu-nos os sonhos para que possamos espreitar o outro lado”, disse Ângela Lúcia. “Para conversarmos com os nossos mais-velhos. Para conversarmos com Deus. Eventualmente, com osgas.”» (p. 93).

Por todos estes motivos considerámos a osga um dos narradores mais deliciosos de que nos lembrámos. Trata-se de uma estratégia narrativa muito original e muito bem trabalhada.

A propósito de “bem trabalhada” questionámo-nos se Agualusa teria demorado muito tempo a escrever esta obra e se a sua escrita tinha sido fluida ou teria tido necessidade de trabalhar muito o texto. Algumas opinaram que os textos que parecem mais simples são, por vezes, aqueles que mais trabalho requerem e que, essa simplicidade é apenas aparente. E, de facto, pela forma cuidadosa como está estruturado e pelo ritmo tão fluído das palavras, parece-nos que o texto mereceu especial atenção.

Também a propósito de ritmo, foi referido que existem dois ritmos completamente distintos na narrativa. O que perpassa o texto quase todo é um ritmo calmo, gingão, africano, em que pouco acontece, em que as personagens são muito mais importantes que os acontecimentos e em que estas valem por si próprias. Depois, na parte final da obra, o ritmo acelera, torna-se quase trepidante, temos um desenrolar frenético de acontecimentos em que tudo se precipita e em que, finalmente, percebemos que as personagens se encontram inter-ligadas por acontecimentos passados e que foi uma espécie de providência que as reuniu no espaço da casa do albino Félix Ventura.

A outra ideia muito original que mais agradou às leitoras foi a ideia de um homem que fabrica e vende passados. É um homem que providencia a quem necessita (geralmente políticos e personalidade influentes do país) um passado ilustre e decente. Esse homem é, curiosamente, ele próprio um homem sem passado. Ele foi abandonado em bebé à porta de um alfarrabista que o criou como se fosse seu filho. É, a todos os níveis, uma personagem excepcional. É-o fisicamente pelo que o seu aspecto físico tem de sinistro: é um negro albino. E é-o especialmente pela sua capacidade de efabulação. É senhor de uma imaginação prodigiosa para a ficção, aliada a uma escrupulosa minúcia na procura de dados reais que dão verosimilhança às vidas que inventa. Ele é, no fundo, um autor, na medida em que cria personagens fictícias as lança no mundo, à mercê do seu próprio destino. Afirma Félix: “Acho que aquilo que faço é uma forma avançada de literatura”, confidenciou-me. “Também eu crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida, atiro-os para a realidade”. (p. 91). Aliás, o tema principal que perpassa a obra é a relação entre a realidade e a ficção.
“ A realidade é dolorosa e imperfeita” dizia-me, “é essa a sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos. Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar – se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.” (p. 122).
Intimamente ligada à ideia da realidade versus a ficção está a ideia de verdade e mentira que é aqui também um dos principais vectores que atravessa a obra.
Uma das noções mais interessantes sobre o tema surge através de uma recordação de Félix do discurso de um autor, aquando da publicação do um seu livro: “a grande diferença entre as ditaduras e as democracias está em que no primeiro sistema existe apenas uma verdade, a verdade imposta pelo poder, ao passo que nos países livres cada pessoa tem o direito de defender a sua própria versão dos acontecimentos. A verdade, disse, é uma superstição.” (p. 91) Um pouco antes disto afirma: “A literatura é a maneira que um verdadeiro mentiroso tem para se fazer aceitar socialmente” (p. 91) A literatura é então uma arte socialmente aceite de criar mentiras.
Os clientes mais habituais de Félix Ventura, em busca de um passado honroso são os políticos, numa crítica evidente à hipocrisia e tentativa por parte da classe política angolana de branquear o seu passado sangrento e indigno. Como foi notado, é curioso que o capítulo em que é descrito o ministro seja imediatamente precedido pelo capítulo em que surge o lacrau…

Uma manifestação artística da ideia de que a verdade é múltipla e que é tanto mais rica quanto mais pontos de vista estiverem presentes é a obra do artista plástico britânico David Hockney. Ele é referido na obra quando Félix compara o efeito provocado pelo conjunto das fotos que lhe vai enviando Ângela Lúcia do mundo inteiro coladas na parede da sala de jantar às experiências de David Hockney com polaróides. Tivemos oportunidade de observar uma impressão de uma dessas obras, “Pearblossom Highway”, onde figura a imagem de uma estrada numa paisagem desértica. O interessante desta imagem é que é constituída por centenas de fotografias polaróide, coladas num enorme painel. Temos então uma “realidade” construída através de fragmentos de outras realidades, captadas a horas diferentes, de perspectivas diferentes. O resultado da soma de cada uma dessas pequenas partes transcende-as completamente, originando uma ficção. É assim, talvez, que também nós observamos a realidade: justapondo os fragmentos que vamos observando. Assim, a nossa percepção das coisas e das pessoas não é muito diferente da colagem de David Hockney – um acumular de perspectivas, factos e pormenores que nos permite uma macro-visão necessariamente ficcionada. E tal como, ao ler um livro somos obrigados a preencher os espaços em branco constituídos por tudo aquilo que não é descrito pelo autor, também a nossa visão do mundo nos obriga constantemente a preencher silêncios e a imaginar um todo que só existe para nós.
A capacidade de “re-ligar” o real, de ver a realidade como um todo a que todos os fragmentos de vida pertencem, é uma qualidade apenas das pessoas mais alienadas, dos loucos: “Todas as histórias estão ligadas. No fim tudo se liga.” Suspira: “Mas só alguns loucos, muito poucos e muito loucos, são capazes de compreender isso.” (p. 215).

Comentámos o conceito de felicidade veiculado na obra: “A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos. (p. 123). Os momentos felizes são aqueles em que nos desligamos das responsabilidades do mundo (e do mundo em si mesmo?). Se só somos felizes nos momentos em que fechamos os olhos, isolando-nos assim do que nos rodeia, será a felicidade um sentimento solitário, a fruir individualmente? Ou então esses momentos são tão intensos que precisamos de nos recolher momentaneamente para melhor os viver.
Fica claro também que não se é sempre feliz, temos momentos felizes. Somos felizes “para sempre” quando esse sentimento é tão pleno que nos parece eterno. (cf. p. 117).

Resta-nos terminar com uma frase que é repetida n’”O Vendedor de passados” – “o pior pecado é não amar” e terminar com um poema de Vinicius de Moraes, o “Soneto da Felicidade”, onde fica a ideia de que é imperioso viver cada momento feliz como se fosse eterno:

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

sexta-feira, 16 de julho de 2004

Recebi um simpático e-mail da Raquel, comentando o nosso blogue. Aqui o transcrevo, dando-lhe as boas vindas e desejando que colabore no blogue sempre que deseje. E, Raquel, estás desde já "intimada" a comentar aqui o "Middlesex" e o "Madona" quando acabares a leitura.
O "Código Da Vinci" não será escolhido no clube pois a Jennifer já o leu, mas como acho que suscitará o interesse de muitas (o meu inclusivé, que vou ter mesmo que o ler, tendo em conta que tanta gente que conheço ficou "agarrada" a ele)também podemos ir "postando" os comentários à sua leitura. Entretanto amanhã cá estaremos para discutir o delicioso "Vendedor de Passados", de José Eduardo Agualusa.

Queridas amigas,

Visitei hoje, pela primeira vez, o vosso blogspot e não podia deixar passar
a oportunidade de vos felicitar pelo mesmo. Está muito interessante e sinto
que assim, de alguma forma, poderei partilhar um pouco do vosso clube de
leitura. Para começar, já me despertaram o interesse para ler especialmente
dois livros: Madona e Middlesex. Este último era-me totalmente desconhecido
até vocês mo terem dado a conhecer (humildemente reconheço a minha
ignorância...) e espero que venha a ser uma das minhas leituras de Verão.
Quanto ao livro da Natália Correia, tenho-o há cerca de dois anos na minha
estante, a olhar para mim, a tentar seduzir-me, mas ainda não tinha sentido
o impulso vital que o tirasse do seu lugar na prateleira para o assento VIP
da minha mesinha-de-cabeceira. Acho que vai ser desta. Graças a vocês.

Neste momento estou a ler The Da Vinci Code. Pois é, aderi à febre. E devo
dizer que é mesmo viciante. Aconselho-vos vivamente. Lê-se sofregamente e dá
muito que pensar. Entre a realidade e a ficção, coloca em causa muito do que
aceitamos (alguns de nós apenas, bem sei) desde sempre como verdades de fé
inquestionáveis. E, afinal, tudo passa por saber se a nossa fé se mantém
inabalável ou se começa a ser arranhada...

Numa vertente mais estética, devo dizer-vos que, para mim, pelo menos, tem
sido um desvendar da obra de Leonardo Da Vinci numa perspectiva totalmente
nova. Nunca mais olharei para os seus quadros da mesma forma e penso que
vocês também não. Eu parecia uma maluca a ler o livro com outro de História
de Arte aberto à minha frente para confrontar os pormenores. Giríssimo.

Não digo mais nada sobre o livro, porque o interessante é embrenharmo-nos
por ele dentro e deixarmo-nos pasmar com as surpresas que o mesmo nos traz.
Ainda não cheguei ao fim, e estou curiosíssima por saber o desfecho, mas bom
mesmo é a viagem que empreendemos até lá.

Para terminar, porque gosto muito de Sophia de Mello Breyner Andresen
(lembram-se do marcador de livros que oferecemos no nosso casamento?),
deixo-vos com as palavras de Miguel Sousa Tavares , a propósito da perda da
sua Mãe:
"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde
verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos
instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os
amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi
nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

terça-feira, 13 de julho de 2004

Se quiserem conhecer o Eulálio vão a:

http://thegeckoking.www3.50megs.com/pages/ptigrinus.html

lindinho, não é?

sexta-feira, 9 de julho de 2004

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 24 de junho de 2004

Aqui transcrevo uma entrevista ao Agualusa, publicada no Jornal de Notícias:


Ana Vitória

"O vendedor de passados" é a mais recente obra de José Eduardo Agualusa, uma sátira feroz, mas divertida, à actual sociedade angolana. Mas é sobretudo uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos. Félix Ventura, o inventor de trajectos familiares para quem os procura diferentes, prefere que lhe chamem genealogista. E por isso "costura a realidade com a ficção".


[Jornal de Notícias]Como surgiu a história de "O vendedor de passados"?


[José Eduardo Agualusa]Os meus personagens transitam muito de uns contos para os outros, de uns romances para os outros, dos contos para os romances... Gosto de pensar no conjunto dos meus livros como realmente sendo um só livro. "O vendedor de passados" partiu de dois contos/crónicas que surgiram primeiro num jornal.


Félix Ventura, o tal vendedor de passados, tem alguma coisa a ver com o José Eduardo Agualusa?

Talvez tenha um pouquinho de mim, até porque é um homem apaixonado por livros, pela língua portuguesa. Um homem que gosta de utilizar arcaísmos.


Está a querer dizer que gostaria de escrever sobre passados?

Tambem gostaria, por exemplo, de escrever "autobiografias" de pessoas, porque há histórias extraordinárias. Não me importaria de trabalhar como escritor fantasma.


As vidas que há nos seus livros resultam de pesquisa?

Este livro é um um pouco diferente dos que escrevi até agora, não me exigiu muita pesquisa. O narrador é uma reencarnação de Jorge Luís Borges, o que poderá escapar a algumas pessoas. As passagens que ele recorda da sua vida anterior são da biografia de Borges, que romanceei um pouco .


Por que escolheu a osga para narrador?

É uma pequena vingança sobre o Borges, é um pequeno jogo. E depois porque acho a osga um bicho simpático. Recorda-me a minha infância e, sobretudo, as minhas férias. Sou do Huambo, vivi lá, mas passava as férias grandes em Benguela que tinha muitas osgas. Para mim, representavam as minhas férias, assim como associo as galinhas à tranquilidade. As galinhas aparecem em todos os meus livros, gosto muito delas.


E as outras personagens?

Este livro era para se ter chamado "Pura ficção". De todos os meus livros é aquele que surge apenas de dentro de mim. Tem temas que remetem para a história recente de Angola, mas os personagens, de uma forma geral, não são baseados em personagens reais.


Que distinção faz, se a faz, entre a escrita chamada jornalística e a chamada literária?

Acho que tudo o que faço está ligado. Por isso, gosto de fazer com que as personagens transitem das crónicas para os contos ou para os romances. Evidentemente, o jornalismo exige rigor e respeito por uma série de normas. O escritor começa onde o jornalista termina.


Lisboa ainda não é a sua cidade, como disse numa entrevista?

Transcreveram o que eu disse, não o que queria dizer. Lisboa sempre foi realmente uma cidade importante, neste meu percurso. Para mim, é uma cidade de abrigo. Enquanto escritor, devo tudo o que sou a Portugal e , em particular, a Lisboa.


O que é, para si, a lusofonia?

É algo que ultrapassa a língua. Inclui muitas outras referências que têm que ver com formas de sentir o Mundo, com a própria história comum de todos os países que falam Português ou onde se fala Português. Também tem que ver com a culinária, costumo dizer que a lusofonia é um pouco uma "comunidade do bacalhau".

Angola é alvo das críticas de José Eduardo Agualusa no seu livro, "O vendedor de passados"

Lusofonia é um pouco a comunidade do bacalhau


O narrador é uma reencarnação de Jorge Luís Borges


Virgindade em leilão A produtora de Madonna quer realizar um filme sobre um leilão bastante particular

Perfil

José Eduardo Agualusa

Escritor

Nascido em Huambo, Angola, em Dezembro de 1960, José Eduardo Agualusa interessou-se por bichos desde criança. Numa altura da sua infância quis ser veterinário. Não o foi, mas estudou Agronomia e Silvicultura. Escolheu, finalmente, ser jornalista e escritor. Do sonho de infância ficou-lhe o amor pelos animais. As preferências vão para as galinhas, ave que, invariavelmente, povoa todos os seus livros. Também no mais recente, "O vendedor de passados", o escritor fez com que o personagem Félix Ventura falasse destas aves.

O autor de "Estação das chuvas" (1997), "Nação crioula" (1998 Grande Prémio de Literatura RTP) "Um estranho em Goa "(2000), "O ano em que o zumbi tomou o rio" (2002) e "Catálogo de sombras" (2003) tem também uma estreia na escrita para crianças ,"Estranhos e bizarrosos".

quarta-feira, 23 de junho de 2004

Pois é, minhas amigas...
O Capote meteu água! Está esgotadíssimo em Portugal e nem na editora têm uma copiazita velhinha e manhosa. Nem nos alfarrabistas, onde também tentámos. Esperamos então por uma reedição.
Tal como combinado, passamos ao livro que obteve o maior número de votos a seguir ao do Truman Capote. E esse livro é...

"O vendedor de passados", de José Eduardo Agualusa

Boa leitura!

segunda-feira, 21 de junho de 2004

As sugestões de leitura para a próxima reunião:

“O vendedor de passados”, de José Eduardo Agualusa
“O crime da aldeia velha”, de Bernardo Santareno
“Até ao fim” de Vergílio Ferreira
“Império do amor”, de Luísa Costa Gomes
“O homem light” de Enrique Rojas
“A sangue frio”, de Truman Capote
“Uma abelha na chuva”, de Carlos de Oliveira
“O som e a fúria” ou “A luz de Agosto”, de William Faulkner

o vencedor foi…

“A sangue frio”, de Truman Capote!!

Discussão de "Middlesex", de Jeffrey Eugenides


A maioria das presentes considerou que o livro podia facilmente ser dividido em dois volumes: a história de Desdemona e Lefty; e a história de Cal. Ficou uma certa frustração pela forma como algumas personagens são “deixadas cair”, por uma questão de economia narrativa. Considerámos que algumas personagens secundárias mereciam ter sido mais desenvolvidas, porque eram suficientemente interessantes para tal, mas que não houve oportunidade. Entre essas personagens foram mencionados Lefty, Sourmelina, Jimmy Zizmo ou Chapter Eleven (estranho nome... questionámo-nos sobre o seu significado).

Foi discutida a pertinência do título do livro – Middlesex – e o facto de ser esse o nome da casa onde residia a família. A Jennifer sugeriu que a própria arquitectura da casa tinha relação com o tema do livro – um segredo de família bem guardado – na medida em que, as paredes de vidro da casa apenas aparentemente davam a sensação de transparência e de não haver nada a esconder, mas no fundo permitiam uma miríade de perspectivas distintas. A Cristina aventou a hipótese da casa simbolizar a fusão dos dois temas principais da obra - o limbo entre dois sexos e o limbo entre duas culturas. De facto, um e outro tema estão profundamente conectados. A casa – Middlesex – constituía o espaço em que a família se aculturou, pelo próprio bairro em que se situava, Grosse Pointe, apesar de ainda algo marginal a ele, pela sua arquitectura extremamente moderna, e pelos acontecimentos que nela tiveram lugar. Paradigmático dessa simbologia da casa é o facto da única personagem que nega frontalmente a aculturação – Desdemona – habitar na casa um espaço à parte, exterior à mesma.

A Jennifer comentou que o livro retrata com muita fidelidade o que se passa com as famílias que emigram para os Estados Unidos no que diz respeito à atitude face à cultura norte-americana das primeiras, segundas e terceiras gerações. A primeira geração mantém-se, regra geral, extremamente vinculada à cultura de origem, rejeitando a cultura do país de acolhimento. A segunda geração vive dividida entre as duas culturas, mantendo traços marcados da de origem, mas aceitando plenamente a do país de acolhimento. A terceira geração já pouco tem a ver com o país de origem, já pouco ou nada fala da língua, tem uma imagem muito difusa do país e sente-se já quase totalmente americana. O livro levanta a questão da “etnicidade” nunca completamente perdida destas gerações de descendentes de imigrantes relativamente a uma elite de WASPs (white anglo-saxonic protestants). É este tipo de discriminação que Callie sofre na pele no colégio para raparigas.

Discutiu-se a questão do sexo versus género, sendo que sexo é uma característica biológica e género cultural e até que ponto é que uma ou outra são mais determinantes para a formação da personalidade. E também até que ponto é que o sexo define de forma muito vincada a personalidade ou se existem homens com um lado feminino muito desenvolvido e vice-versa.

Também foi discutida a qualidade cinematográfica da obra e até que ponto é que poderá ser transformada num bom filme. A Guida opinou que, dado ao sucesso alcançado pelo filme “As Virgens Suicidas”, baseado no primeiro romance de Eugenides, este poderá já ter sido escrito à partida a pensar numa adaptação cinematográfica.

A inclusão na obra de factos históricos como a guerra da Grécia e da Turquia, a Segunda Guerra Mundial ou os incidentes raciais em Detroit foram do agrado das leitoras, pois, para além da relevância das informações, estas conferem à obra uma aura de verosimilhança. No seguimento deste comentário discutiu-se até que ponto é que esta obra pode ser auto-biográfica.

O narrador, Cal, faz referência a uma qualidade circular inatamente feminina na sua escrita. Algumas pessoas opinaram que não, que a obra não continha essa qualidade (a discussão surgiu também na sequência das reflexões presentes no livro anteriormente discutido – A Louca da Casa - sobre a existência ou não de uma escrita caracteristicamente feminina), e que a forma como eram incluídos alguns flashforwards e flashbacks era um pouco desastrada. Algumas leitoras consideraram as referências ao presente do narrador irrelevantes e que cortavam, de certa forma, a fluidez da acção.

Algumas leitoras consideraram a atitude de Cal, ao fugir dos pais e do médico, de certa forma inconsistente com o perfil da personagem.

Foi discutido o papel desempenhado pelo destino na vida das personagens e considerou-se que sempre que houve uma tentativa voluntária de manipular o destino as consequências foram graves: Milton e Tessie tentam ter uma palavra a dizer no sexo do seu segundo filho e, apesar de terem sido aparentemente bem sucedidos, o tempo se encarregará de repor as leis naturais.

No geral, a opinião do livro foi positiva, todas concordaram que era uma leitura agradável e fluida. Algumas manifestaram, porém, a opinião de que lhe faltava alguma consistência, nomeadamente no plano da qualidade da escrita ou da estrutura narrativa. Considerou-se que parte de uma muito boa ideia, que tem pequenos apontamentos muito bem conseguidos, algumas personagens muito cativantes, mas que falta alguma coisa para poder ser considerado um grande livro.

quarta-feira, 12 de maio de 2004

Hoje ao almoço, entre colheradas de uma excelente sopa de beldroegas, contei, já nem sei a propósito do quê, uma história que se passou comigo numa viagem de comboio, já há uns anos. Disseram-me que a devia escrever, para não se perder. Foi o que acabei de fazer (Oh, meu Deus, os pretextos que eu arranjo para fazer pausas no trabalho!). Aqui fica:


“Um português nunca lixa outro no estrangeiro!”


Passei as férias do Verão de 1991, entre o meu 3º e 4º ano do curso de Inglês e Alemão, na Alemanha, a trabalhar num pequeno hotel, em plena Floresta Negra. Apesar de ter trabalhado que nem uma mula, valeu a pena pela beleza da região – Ah! O verde! – e pela melhoria na fluência da língua. No final dos dois meses que lá estive, além da roupa que tinha levado, consegui juntar um volume considerável de tralha, entre livros, presentes e afins. Resolvi, como tal, tirar partido de um excelente serviço dos caminhos de ferro alemães: uma vez comprado o bilhete, a bagagem pode ser expedida com antecedência, poupando ao viajante o incómodo de carregar com ela (com a agravante da mudança de estação em Paris e mudança de comboio em Handaya). Encarnava, pois, na perfeição, para desconhecedores da situação, a figura do light traveller.
A primeira parte da viagem decorreu sem quaisquer incidentes, com as poucas horas em Paris passadas preguiçosamente numa brasserie a comer croissants e beber café au lait. Quanto à viagem de Paris a Handaya, como sempre, passou-se em grande confraternização com os restantes ocupantes da carruagem, todos emigrantes portugueses, e que prontamente comigo partilharam os seus farnéis. Assim, entre sandes de chouriço, refrigerante, bananas e bolo de mel, acompanhados de muitas anedotas de alentejanos e da sempre agradável música da Ágata difundida pelo pequeno leitor de cassetes a pilhas, as horas foram passando até chegarmos à fronteira da França com a terra de nuestros hermanos.
Aí chegados tínhamos que apear-nos e esperar na plataforma pelo comboio espanhol, que tem as rodas diferentes das do resto da Europa Central. Com a facilidade com que se trava conhecimentos entre portugueses nas terras de imigração, logo iniciei amena cavaqueira com um senhor, já entradote, alto, magro e grisalho, emigrante na Suécia, e que vinha de propósito para o 89º aniversário da sua mãe. Entretanto chega o comboio, o senhor pega numa enorme mala na mão esquerda, noutra enorme mala na mão direita, e um pouco ajoujado lá se dirige ao comboio, comigo atrás. Entra num compartimento, onde entrei também. Com alguma dificuldade lá consegue colocar uma das malas no porta-bagagens por cima de um dos assentos. Diz-me então: “Sabe… Tenho aqui um problema neste cotovelo. Se me pudesse ajudar a colocar a mala lá em cima…”, “Claro!”, respondi solícita. Colocámos a dita mala, ainda assim não sem alguma dificuldade. Sentámo-nos e retomámos a conversa onde a tínhamos interrompido. Passados uns minutos pergunta o senhor: “Então a malinha está bem ali em cima, não está?” Estranhei a pergunta mas respondi-lhe vagamente que sim. Ao fim de uns dez, vinte minutos passa um senhor do lado de fora do comboio, na plataforma da estação e olha para cima, para o nosso compartimento. “Que pena, já nos está a micar o compartimento, era muito melhor ficarmos só os dois aqui, cada um esticava-se ao comprido num banco e sempre se dormia uma horitas…” – disse o senhor. Decorreu mais outro tanto tempo e volta a passar o outro senhor lá fora, novamente olhando para o compartimento. “Raios partam, o homem! Ao menos decida-se de uma vez!”.
Entretanto a demora já era bastante considerável e ninguém conseguia perceber porque não partia o comboio de uma vez. Mais uns longos minutos de espera e eis senão quando irrompem por ali a dentro dois polícias, um francês e um espanhol, mais o dito senhor que tanto havia observado o compartimento. “¿De quién es esta maleta?” – berrou o polícia espanhol apontando freneticamente para a mala por cima do meu assento. “È dela!”, responde o senhor emigrante na Suécia. “Minha???” – respondo eu – “Minha não, é sua!”. “Não, desculpe, essa mala é SUA!” responde o senhor já um pouco alterado. Perante esta evidente discrepância de depoimentos, os polícias exigiram os nossos documentos e informaram-nos de que estávamos detidos. A mala do outro senhor (que também era emigrante português) foi baixada e aberta, para que pudesse conferir se nada havia sido roubado. Era uma mala modesta, apenas com as suas roupas, mal arrumadas, enrodilhadas. O senhor conferiu tudo muito bem e, com alívio, informou os polícias de que nada lhe faltava. Os polícias disseram-lhe então que agora havia que participar o roubo para que pudéssemos ficar detidos. Já me imaginava a telefonar para casa e a dizer aos meus pais que estava presa em Handaya acusada do roubo de uma mala…
O senhor emigrante na Suécia começa a ficar realmente assustado e repete incessantemente: “Eu não roubei nada! Eu sou um cidadão sueco!”, “Eu sou um cidadão sueco!”, “Quem me manda a mim armar-me em cavaleiro?”, “Armo-me em cavaleiro e dá nisto!”. No auge do nervosismo começa a chorar e a dizer que a mãe fazia 89 anos no dia seguinte e morreria se ele não estivesse presente. Os polícias continuavam a pressionar a vítima do “roubo” para apresentar queixa, ou não poderiam deter-nos. O senhor hesita, olha para nós com rancor, mas acaba por dizer que não, não queria apresentar queixa. Os polícias insistiram mas o senhor mostrou-se inflexível, uma vez tomada a decisão. A muito contragosto, os polícias devolveram-nos os documentos de identificação e saíram coléricos do comboio.
Finalmente, o comboio pôs-se em marcha, para alívio dos já bastante irritados viajantes, e mais ainda para nosso, tendo escapado por tão pouco a tão indigna prisão. A atmosfera no comboio era de cortar à faca, os rostos fechados nem nos miravam, o companheirismo da outra parte da viagem completamente esquecido. No nosso compartimento reinava também o silêncio e o desconforto. Por volta da hora do jantar, concordámos que devíamos ir convidar o outro senhor para jantar connosco e tentar explicar-lhe o que havia sucedido: que eu viajava sem malas e que ele tinha deduzido que a mala ao meu lado era minha. Assim fizemos. O senhor não queria aceitar o convite, aliás estava com ar de quem não queria conversa com ladrões. Lá o convencemos, explicámos calmamente a situação, mostrámos-lhe que, de qualquer forma, teria sido muito pouco inteligente da nossa parte roubar uma mala e colocá-la bem à vista de toda a gente, por cima dos assentos. Por fim acabou por acreditar. Confessou-nos então, que só não tinha apresentado queixa porque “Um português não lixa outro no estrangeiro!”. Vivam os códigos de honra entre emigrantes!
Poucos minutos depois de entrarmos em território português (e só então!), o senhor emigrante na Suécia dá-me uma pequena cotovelada e diz: “Então e a da mala?” Seguiram-se muitas gargalhadas.
Esta história tem sido contada inúmeras vezes ao longo destes anos, e é a minha preferida dentro do meu anedotário pessoal. Passo-a agora à escrita porque - nunca se sabe – a senilidade já esteve mais longe, e fica assim registada.

segunda-feira, 10 de maio de 2004

Aqui vai alguma informação sobre o autor:

Jeffrey Eugenides — winner of the 2003 Pulitzer Prize for Fiction for Middlesex — was born in Detroit, Michigan in 1960, the third son of an American-born father whose Greek parents immigrated from Asia Minor and an American mother of Anglo-Irish descent. Eugenides was educated at public and private schools, graduated magna cum laude from Brown University, and received an MA in English and Creative Writing from Stanford University in 1986. Two years later, in 1988, he published his first short story.

His fiction has appeared in The New Yorker, The Paris Review, The Yale Review, Best American Short Stories, The Gettysburg Review and Granta's ‘Best of Young American Novelists’. His first novel, The Virgin Suicides, was published in 1993, and has since been translated into fifteen languages nd made into a major motion picture. His second novel, Middlesex, is published in paperback in September 2003. To find out more, click here.

Eugenides is the recipient of many awards, including the Pulitzer Prize, fellowships from the Guggenheim Foundation and The National Foundation for the Arts, a Whiting Writers' Award, and the Harold D. Vursell Award from The American Academy of Arts and Letters. In the past few years he has been a Fellow of the Berliner Künstlerprogramm of the DAAD and of the American Academy in Berlin.

Jeffrey Eugenides lives in Berlin with his wife and daughter.

Quanto à nossa próxima leitura, desta vez a votação foi muito mais unânime (a campanha eleitoral deu os seus frutos...) e o livro escolhido foi... tchan tchan tchan tchaaaannn!

"Middlesex", de Jeffrey Eugenides

Boa leitura!

Discussão de “A Louca da Casa” de Rosa Montero
9 de Maio de 2004

Ao contrário do último livro – “A madona”, de Natália Correia – que recebeu o louvor e aclamação de todas, no que diz respeito a este livro as opiniões dividiram-se. Houve quem tivesse gostado bastante, outras mostraram-se mais comedidas e cépticas.

A Jennifer manifestou alguma desilusão com o facto das referências auto-biográficas serem, no fim de contas, ficcionadas – como o facto de não existir uma irmã Martina ou o episódio com o actor M. ser pura invenção. A Jennifer explicou que não foi por esses apontamentos e personagens serem ficcionais que se desiludiu, mas o facto de ter acreditado à partida que se tratava de referências auto-biográficas. Criou uma expectativa que depois viu gorada. No fundo, é como se não se tivesse assinado o pacto de ficção que se estabelece por norma entre escritor e leitor, e que permite que aceitemos como reais, dentro do contexto da narrativa, as personagens e acontecimentos de uma obra. Nada nos tenha indicado que se tratava de ficção e, como tal, aceitámos como mundo real o que era apenas um “mundo possível”, utilizando a expressão de Umberto Eco para designar os mundos ficcionais. A Cristina contestou, na medida em que considera que mesmo as auto-biografias nunca se escapam de uma boa dose de efabulação. Além disso, considera que têm uma existência tão importante para ela as personagens reais como as ficcionais. A ficção pode retratar a realidade de uma forma muito mais certeira que o que aceitamos como factos reais. O texto é sempre uma construção e à sempre manipulação, seja no noticiário, no documentário ou na narrativa ficcional. Aliás, este é um dos pontos mais veiculados ao longo da obra, por isso é curioso que a expectativa de que os acontecimentos fossem verídicos tenha originado esta discussão.

A Ana achou que, apesar do livro conter ideias muito interessantes, muitas delas já não eram novas, e acabavam mesmo por ser clichets.

A Jennifer e a Isabel acharam que em algumas passagens a autora revelou ser um pouco reaccionária. Não conseguiram situar especificamente onde lhes ficou essa impressão, mas parece-lhes, por exemplo, que a autora não se mostrou suficientemente crítica do regime franquista. Também a associação da língua do Terceiro Reich enquanto língua do totalitarismo e a língua basca lhes pareceu abusiva. A Cristina também concordou, especialmente tendo em conta que a língua basca é uma das mais antigas da Europa. A Paula argumentou que o que estava em causa era o discurso dos bascos e concretamente dos etarras e não a língua em si. Uma releitura do trecho deu-lhe razão. No entanto, todas concordaram que, especialmente tratando-se de uma questão espanhola, e que levanta tantas susceptibilidades, devia ter sido omitida ou então explicada com maior rigor, e não simplesmente “atirada” em duas ou três linhas.

Algumas leitoras manifestaram algum desagrado pela atitude, a seu ver, algo presunçosa da autora, na medida em que enaltece a figura do escritor, como se se tratasse de uma pequena elite de “iluminados” que se distinguem do comum dos mortais. A Ana admitiu que teria sido mais fácil aceitar este livro se viesse de uma autora que admirasse à priori. A Cristina salientou o facto da autora ser bastante conhecida (e reconhecida) em Espanha, pelo que conseguiu apurar pela leitura de alguns documentos disponíveis na página on-line de Rosa Montero. O facto da autora ser até agora desconhecida entre as leitoras do clube (só a Paula havia já lido anteriormente duas obras da mesma) tornou mais difícil que lhe reconhecêssemos legitimidade para se auto-incluir desta forma no cânon dos escritores.

Foram relembradas algumas passagens do livro que mais impressionaram as leitoras, como os três casos que menciona no capítulo em que trata sobre a falta de comunicação entre as pessoas. Refere o caso da menina judia que toda a sua (curta) vida esteve nas mãos de cientistas nazis que a utilizaram para testes médicos. Aos cinco anos não emitia uma única palavra porque ninguém se havia dado ao trabalho de a ensinar a falar. Outro caso que também impressionou foi o da chimpanzé Lucy, que havia sido ensinada a utilizar gestos para comunicar e que foi deixada num jardim zoológico, onde freneticamente repetia os gestos “tirem-me de aqui”. A Ana Lúcia recordou já ter visto um documentário na TV sobre o caso, mas a história era bastante diferente: a chimpanzé tinha sido deixada no Zoo por questões burocráticas e tinha posteriormente sido levada para um laboratório, onde tinha sido utilizada para testar vacinas de hepatite. A Cristina também já tinha lido algo a respeito e ficou de procurar a referência. Por último foi relembrado o caso do romeno surdo que foi internado em Nova Iorque numa instituição de saúde mental durante 10 anos porque ninguém tinha conseguido comunicar com ele e, pura e simplesmente, concluíram que era louco. O caso foi pretexto para se discutir a desumanidade com que eram tratadas as pessoas em instituições do género e também em lares de terceira idade e lamentámos a incapacidade da nossa sociedade, ao contrário de sociedades orientais, de valorizar as pessoas mais idosas e a sua sabedoria.

Discutiu-se o tema de um dos capítulos: se há uma escrita de mulheres. A autora começa por negar que haja uma escrita que seja especificamente feminina, que é apenas mais uma contingência biográfica que condiciona o autor, tal como a sua proveniência geográfica, o tipo de educação, a classe social, a religião, etc. No entanto, um pouco mais adiante tem uma afirmação que, de certa forma, contraria esta: “ahora que nuestra participación en la vida literaria se ha normalizado, disponemos de una total libertad creativa para nombrar el mundo. Y hay unas pequeñas zonas de la realidad que sólo nosotras podemos nombrar.” (p. 177). Então afinal há áreas distintamente femininas. A autora refere como exemplo as metáforas de sangue, que enquanto metáforas femininas são sinónimo do ciclo de vida. É, de facto, uma questão complexa. É que, por muito que nos pareça absurdo considerar que há uma escrita eminentemente feminina (aliás têm sido feitos vários testes submetendo trechos a leitura e procurando descortinar se foram escritos por homens ou mulheres e os resultados foram inconclusivos), por outro lado, custa-nos (a nós mulheres) a admitir que não haja temas e motivos que sejam mais nossos, que a nossa sensibilidade feminina não saiba melhor tratar. Claro que também podemos dizer que há homens que têm mais desenvolvida uma sensibilidade feminina e vice-versa, mas ainda assim não resolve a questão. Falou-se que esta é uma ambiguidade que caracteriza o próprio feminismo: por um lado lutar pela igualdade, por outro lado preservar e valorizar a diferença. Recordámos ainda, a este propósito, o nosso orgulho na última reunião do clube que aquela escrita superior pertença a uma mulher – a Natália Correia, e admitimos que sentimos orgulho quando uma mulher é distinguida numa das nossas áreas de eleição.

Discutiu-se uma das ideias do texto – de que somos seres múltiplos, de que contemos em nós múltiplas existências. A esse propósito lembrámos Fernando Pessoa, e como foi capaz de reflectir essa multiplicidade na sua obra.

Achámos curiosas as várias formas mencionadas de categorizar os autores. A primeira é de Isaiah Berlin e divide os autores em “ouriços” e “raposas”, respectivamente, os autores que se “enrolam” sobre si mesmo e acabam por andar sempre à volta dos mesmos temas (eu acho que Paul Auster é um pouco assim, há temas e motivos recorrentes nas suas obras), e os peregrinos, que em cada obra exploram território diferente e procuram palmilhar o mais que podem. A distinção não é valorativa, pois os “ouriços” podem ir mais fundo nas suas análises, enquanto que as “raposas” podem chegar mais longe.
Outra classificação curiosa é de Italo Calvino, entre escritores de chama (que constroem as obras a partir das emoções) e escritores de cristal (que a constroem a partir da racionalidade). Ainda Calvino distingue também entre escritores que utilizam a leveza da palavra e escritores que utilizam o seu peso. Rosa Montero distingue entre os memoriosos, que enchem as obras de referências e pormenores, e os amnésicos, que abdicam destes e deixam ficar apenas o essencial. É interessante, como mero exercício, ler os livros tendo em conta estas categorizações e procurar situá-las num campo ou outro.

A Ana Cristina gostou particularmente do capítulo que tematiza a loucura. A autora já havia identificado a imaginação, ou, mais genericamente, o acto de criar, com a loucura (aliás patente no próprio título da obra). Neste capítulo volta a fazê-lo e sugere que as pessoas loucas estão mais próximas de uma compreensão da totalidade, ou melhor, são os que não se contentam com a versão “domesticada” do mundo que criámos como única forma de o compreender: “La realidad no es más que una traducción reductora de la enormidad del mundo y el loco es aquel que no se acomoda a ese lenguaje.”(página 192 da edição española).

À Cristina agradou especialmente a última história contada no livro, sobre a freira do convento de clausura, que, uma vez na vida, quis sair do convento e observá-lo pela janela da casa em frente. Admirou a beleza do convento e voltou a ele, para não mais o abandonar. A história é uma parábola da necessidade de nos abstrairmos de nós mesmos como única forma de realmente nos conhecermos. A maior viagem que podemos empreender na vida (e é disso que trata toda a literatura de viagem, ou, em última análise, mesmo toda a literatura) é a viagem de descoberta de nós mesmos, e essa só é possível se fizermos um esforço para nos vermos de fora, de uma perspectiva Outra. Temos que sair do nosso convento, uma vez que seja, para podermos vê-lo de fora, ter um vislumbre que seja da sua totalidade, da sua unidade, para depois podermos regressar a ele. O acto da escrita pode ajudar a esse processo, é o que diz Rosa Montero, mas também, e isso deve ser salientado, que o acto da leitura também o pode. “A louca da casa” é sobre a imaginação, ou sobre o acto da criação. Escrever é criar, mas ler também o é. Quando lemos um livro criamos a nossa própria narrativa, preenchemos os espaços em branco, os silêncios (talvez por isso constituam um desafio maior as obras dos autores “amnésicos”, na medida em que deixam mais espaços por preencher).

O balanço final da leitura do livro acabou por ser positivo. Apesar de, para algumas, pecar pela superficialidade, abordando uma miríade de temas mas não aprofundizando nenhum (será uma marca da escritora “raposa” que a Rosa Montero reconhece ser?), todas reconheceram que contém ideias muito interessantes, e pequenos episódios bastante marcantes. Algumas manifestaram mesmo interesse em reler parcialmente o livro após a sua discussão.


p.s. oh minhas amigazz…zzz! Por favor acrescentem de vossa justiça! Tenham em conta que é um tremendo exercício de memória tentar reconstituir a discussão do livro (e esta, hein, Rita? Bem a propósito do que falámos!) e que a nossa “acta” ficaria infinitamente mais rica se vocês contribuíssem com memorandos das vossas intervenções (ou outras reflexões que entretanto vos surjam).

quinta-feira, 8 de abril de 2004

Que presença de Sartre na obra ”Madona” da Natália Correia ?

“O homem não é mais do que o seu projecto; só existe na medida em que se realiza a si mesmo; por conseguinte, nada mais é do que o conjunto dos seus actos, nada mais do que a sua vida.”- Sartre.

J.P.Sartre (1951-1980)
Filósofo assumidamente existencialista, ateu, defendeu o primado da existência sobre a essência, - “O homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define.(…)”-., condenando o ser humano a uma liberdade que deve ser posta em prática na sua vivência, nos seus projectos e escolhas. Se não há Deus, cabe ao homem dar sentido a si próprio e ao mundo através da sua livre existência.

Podemos encontrar influências de Sartre por se tratar do mesmo contexto espacio-temporal, nas cenas passadas em Paris dos anos sessenta, por estarem bem expressas os princípios do movimento feminista que, como sabemos, têm em Simone de Beauvoir uma das suas representantes máximas, e ainda por se tratar de obra de elogio à vivência da liberdade, das emoções, da livre expressão e da emancipação das mulheres.

“(…)em frente da esplanada do Au Deux Magots onde todas as tardes estendia no chão uma tela (…)”- pág. 10- “A Madona” de Natália Correia

Aux Deux Magots foi nos anos sessenta o espaço privilegiado das discussões filosóficas, concretamente existencialistas, era frequentado por Sartre e por Simone de Beauvoir

Caríssimas, provavelmente haverá mais provas em texto da visão existencialista que Branca apresentava da vida e da busca pelo sentido, esta é uma dica quase “fotográfica” de vestígios mais evidentes de Sartre na “Madona”.

Boas leituras